Os Maias | personagens
English: Os Maias

Personagens

Árvore genealógica da família Maia.

Lista de personagens

Intriga principal

Intriga secundária

Personagens secundárias

  • Afonso da Maia
  • Maria Eduarda Runa
  • Tomás de Alencar (Tomás de Alencar não está directamente envolvido na intriga secundária (entre Pedro da Maia e Maria Monforte), mas a sua influência naquela família é grande, visto que é o melhor amigo de Pedro. Na obra, a família é sempre descrita como uma família que sabe receber bem, e Alencar teve sempre "o seu talher na mesa dos Maias", o que faz com que seja quase considerado familiar.)
  • João da Ega (Ega equivale a Alencar, mas, desta feita, envolvido na intriga principal - entre Carlos e Maria Eduarda -, gozando de semelhantes regalias em casa dos Maias, assim com, embora a sua atitude face ao desvendar do parentesco entre Maria Eduarda e Carlos da Maia, sirva para caracterizar o seu sentido prático e despojado de sentimentalismos, ao preocupar-se somente com a divisão dos bens da família.)
  • Os Cohen
  • Os condes de Gouvarinho
  • Craft
  • Cruges
  • Steinbroken
  • Palma Cavalão
  • O Marquês

Outros

  • Vilaça (pai)
  • Caetano da Maia - Referido somente como o pai de Afonso.
  • Tia Fanny - Após a morte da mãe de Afonso da Maia, sua tia mudou-se para junto dele em Richmond, Inglaterra.
  • Sebastião da Maia - Primo afastado de Afonso que lhe deixou uma herança.
  • Brown, o inglês
  • O Marquês
  • Rosa
  • Sr. Guimarães
  • Miss Sara
  • Castro Gomes
  • Eusebiozinho Geralmente, em Os Maias, o uso do diminutivo implica uma adjectivação irónica (fraco, mimado, típica educação portuguesa da época) . Esta caracterização acompanha Eusebiozinho até à última referência que se tem dele.
  • D. Maria (da) Cunha
  • Baronesa de Alvim
  • Concha
  • Lola e Carmen
  • Padre Vasques - Capelão do conde de Runa, saiu de Lisboa para ir até a casa de Afonso da Maia em Inglaterra para educar Pedrinho.

Protagonistas

A personagem nuclear do romance, o seu verdadeiro protagonista, é uma família, a família Maia, que se articula em três gerações sucessivas. A relação geracional dos seus elementos transporta características identitárias que se refletem no comportamento de cada geração.

Cada uma destas gerações organiza-se em torno de uma personagem masculina que, por sua vez, faz par com uma personagem feminina, vive numa roda de amigos íntimos e integra-se numa dada situação histórica:

  • Afonso da Maia e D. Maria Runa;
  • Pedro da Maia, Maria Monforte e o seu grande amigo Alencar;
  • Carlos da Maia, o seu íntimo amigo João da Ega e Maria Eduarda.

O retrato de cada um dos protagonistas destes três momentos é eximiamente traçado por Eça de Queirós.

Afonso da Maia é um homem culto, sereno, de bom gosto, equilibrado, sólido, firme, amigo afetuoso e solícito; patrão justo e generoso; cidadão exemplar; a síntese das tradicionais e esquecidas virtudes portuguesas, melhorada pelo contacto com a admirada Inglaterra; um «bloco de granito» que, «esmagado pela tragédia», se torna num velho cujos «passos lentos e incertos, muito pesados» desembocam na morte de pé.

Pedro da Maia é um homem frágil, de profundos olhos negros românticos, vítima de uma educação livresca e clerical. Carácter amolecido pelo romantismo, dado a melancolias sem razão, endoidecido pelo amor, apaixonado febril, acaba no suicídio. Opõe-se à moral familiar representada por seu pai, Afonso; obedece à moral do sentimento; suicida-se, num desfecho melodramático de herói romântico.

Carlos da Maia, educado à inglesa, destinado a ser obreiro do progresso, da transformação do país, «formoso e magnífico moço, bem feito, de uma testa de mármore», é apresentado como um ser superior. No entanto, submerso pelo tédio reinante na burguesia lisboeta, deixa-se vencer pelos efeitos da paixão, dando, assim, primazia aos «genes» românticos que herdara dos pais. Não se empenha profundamente em nada, é um diletante e acaba falhado. É um dandy cujos «hábitos de luxo condenam irremediavelmente ao diletantismo». Dentre os protagonistas que constituem a família Maia, ele ocupa o lugar mais importante. Está no núcleo da ação e, por isso, é ele a personagem que alcança maior espessura psicológica. Esta sua maior densidade vem-lhe das situações complexas que vive:

  • os bocejos de saciedade provocados pela frustre experiência amorosa com a Gouvarinho;
  • a abstração radiosa advinda da paixão por Maria Eduarda;
  • as fraquezas, as hesitações, as resoluções falhadas, os projetos por concretizar, a comoção com a morte do avô;
  • a revolta, o medo, a fuga, a covardia, o choro, o ceticismo, o cinismo, a secura afetiva, o pessimismo existencial, durante e depois da tragédia que o atingiu.

Maria Eduarda, que se destaca, dentre as personagens femininas, é bela, mais discreta. Alta, de aparência estrangeirada, move-se com um andar de «deusa». Não representa o feminino apenas enquanto sentimento e emoção, pois tem qualidades no plano intelectual que a colocam à altura de uma conversa com Carlos e Ega.

Alencar ocupa o lugar de amigo íntimo, no tempo da geração de Pedro e Maria Monforte, mas sobrevive-lhes até ao reencontro com Carlos. Poeta, é o melhor representante da geração romântica à qual sobrevive. Surge no romance como «um rapaz alto, macilento, de bigodes negros, vestido de negro», caricatura do poeta ultrarromântico, que solta frases ressonantes e arrasta as suas poses. Mais tarde, já na geração de Carlos, reaparece como «homem alto, todo de preto, longos bigodes românticos» e funciona, então, como recordação agonizante de emoções patrióticas perdidas.

João da Ega, «um certo João da Ega», íntimo de Carlos, o «grande» João da Ega, que «tinha nas veias o veneno do diletantismo», nos tempos de Coimbra, estudava direito e reprovava. Personagem que talvez seja um alter-ego de Eça, ou antes, uma autocaricatura dos seus próprios ímpetos de artista vingador, figura exagerada de literato, perseguidor de ambiciosos planos irrealizados, é um falhado como Carlos. A sua figura, pelo aspeto físico e pela sua função predominante na intriga (apresenta personagens, instiga acontecimentos, faz avançar a ação, não escapa a ser portador da notícia fatal) tem o seu quê de mefistofélica. Aliás, é referido como «Esse Mefistófeles de Celorico». Consciência irónica e crítica dos acontecimentos, através de palavras sempre exageradas, acaba por exibir uma certa confusão mental. É teatral, cómico, pueril, incoerente. Não respeita nada, professa o desacato como condição de progresso, mas bajula o Cohen homenageando-o com um jantar e concordando-lhe com as opiniões, é porque quer aproximar-se da mulher, a divina Raquel, por quem está fascinado. Perante a desgraça que avassala o amigo, acaba por surgir «cheio só de compaixão e ternura, com uma grossa lágrima nas pestanas».

Personagens secundárias

Em torno destas personagens fulcrais e, por conseguinte, ajudando muitas vezes a fazê-las emergir, interage uma série de personagens secundárias.

Os Maias, as personagens secundárias, ora frequentes, ora episódicas, ora circunstanciais, multiplicam-se ao sabor da intenção realista de construir um painel da sociedade lisboeta, da segunda metade do séc. XIX, segundo um ponto de vista crítico.

Vejamos algumas dessas personagens:

Sequeira e D. Diogo Coutinho: velhos companheiros de Afonso da Maia;

Steinbroken: embaixador finlandês, olhado caricaturalmente;

Vilaça (pai e filho): administradores zelosos da segurança material da família Maia;

Taveira: o funcionário do Tribunal de Contas;

Cruges: o pianista de cabeleira desleixada e amargo spleen;

Eusebiozinho: o produto mais representativo de toda a degenerescência física e moral da sociedade portuguesa da altura;

Craft: inglês, sereno, fleumático, espantado com a «enormidade» portuguesa;

Dâmaso Salcede: o filho do velho Silva, o agiota; figura desorbitada de pura sátira, caricatura do francesismo em calão; representante de um dos mais baixos degraus da sociedade lisboeta; bochechudo e balofo, «frisadinho como um noivo de província», aldrabão, vaidoso, oco, cobarde, humilhado, aviltado; movido pela lisonja, pela inveja, pelo rancor; servil, obcecado pelo chic, rídiculo.

Na multímoda personagem que é a burguesia lisboeta, emergem ainda:

Cohen: o diretor do Banco Nacional, corrupto, indiferente aos reais interesses do país;

Conde de Gouvarinho: par do reino, político bacoco, inútil, produzindo discursos ridículos;

Condessa de Gouvarinho: exímia nos processos de assédio aos favores amorosos de Carlos e nos gestos melodramáticos de vítima do abandono;

Raquel Cohen: a divina despertadora de paixões;

Melanie, Miss Sara, Teles da Gama, Palma Cavalão, Castro Gomes, D. Maria Cunha, enfim, um rio interminável de figuras que são tipos sociais, ou seja, têm um comportamento determinado pela sua origem e estatuto social.

Trata-se de personagens representativas de classes, grupos, funções, atitudes sociais. Estas personagens-tipo são as que melhor servem a intenção de crítica social realista: representam de forma caricatural os males sociais, expondo-os, dando-os a conhecer, tornando-os objeto de análise crítica e de ironia demolidora.