Historiografia | recortes temporais

Recortes temporais

Mapa-múndi de Fra Mauro (detalhe): incomoda-nos um mapa invertido?
Ver artigos principais: Arcontologia, Cronologia e Tempo histórico

A Escola dos Annales foi uma das origens da fixação da memória dos feitos históricos em muitas culturas (veja-se em seu verbete próprio e mais abaixo em Historiografia de Roma). As crónicas (que em seu nome já indicam a intenção do recorte temporal) são usadas como reflexo dos acontecimentos notáveis de um período, habitualmente um reinado (veja-se no verbete próprio e mais abaixo em Historiografia da Idade Média e Historiografia em Espanha). A arcontologia seria a limitação do registro histórico à lista de nomes que ocupavam determinados cargos de importância ordenados cronologicamente. De fato, a mesma cronologia, disciplina auxiliar da história, nasce em muitas civilizações, associada ao cômputo do tempo passado que se fixa na memória escrita pelos nomes dos magistrados, como ocorria em Roma, onde era mais comum citar um ano por ser o dos cônsules tais ou quais. No Egipto, a localização do tempo se fazia pelos faraós e dinastias. É muito significativo que nas culturas não históricas, que não fixam mediante a escrita a memória do seu passado, é muito frequente que não se mantenha a duração concreta do tempo passado mais do que uns poucos anos, que podem ser inclusive menos do que os que dura uma vida humana.[7] Tudo o que ocorre fora dele é referido como faz muito tempo", ou como no tempo dos antepassados, que passa a ser um tempo mítico, anistórico.[8]

O tratamento cronológico é o mais utilizado pela maioria dos historiadores, pois é o que corresponde à narrativa convencional, e o que permite ligar as causas passadas com os efeitos no presente ou no futuro. No entanto, ele é usado de várias maneiras: por exemplo, o historiador deve sempre optar por um tratamento síncrono ou diacrónico do seu estudo dos factos, ainda que muitas vezes se façam os dois.

  • o tratamento diacrónico estuda a evolução temporal de um fato, por exemplo, a formação da classe operária na Inglaterra ao longo dos séculos XVIII e XIX.
  • o tratamento síncrono, concentra-se nas diferenças que o fato histórico estudado tem ao mesmo tempo, mas em diferentes níveis, por exemplo: compara a situação da classe trabalhadora na França e na Inglaterra, na conjuntura da revolução de 1848 (ambos os exemplos foram referidos a partir de Edward Palmer Thompson.[9]

Períodos ou momentos especialmente atraentes para os historiadores acabam convertendo-se, pela intensidade do debate e do volume de produção em verdadeiras especialidades, tais como a história da Guerra Civil Espanhola, a história da Revolução Francesa a da Guerra da Independência dos Estados Unidos, ou a da Revolução Soviética, por exemplo.

Também devem ser consideradas as diferentes concepções de tempo histórico, que, de acordo com Fernand Braudel vão da longa duração ao evento pontual, passando pela conjuntura.