Seriado
English: Serial film

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Poster de The Perils of Pauline (1914). Ao contrário do que se acredita popularmente, nem Pauline, nem sua sucessora, The Exploits of Elaine, usaram o chamado cliffhanger. Apesar de cada vez Pauline ser colocada em uma situação que poderia resultar em sua morte, o fim do episódio mostrava como ela escapara do perigo.
Mary Fuller, estrela do primeiro seriado estadunidense, produzido pelo Edison Studios em 1912.

Seriados, cinesseriados, filmes em serie[1] ou seriados cinematográficos[2] (em inglês: serial film, movie serials ou chapter plays) são filmes sequenciais, com um número limitado de episódios curtos, perfazendo no total uma história completa, que eram apresentados nos cinemas da primeira metade do século 20.

Os seriados são atualmente considerados uma forma de filme B, não apenas por se basearem em fórmulas simplificadas, mas também por terem sido feitos com baixos orçamentos e visarem principalmente o lucro, características essas que remetem ao filme B.[3] Usualmente tinham entre dez e quinze episódios, com algumas exceções, e cada episódio terminava com uma proposta extrema, em que o herói (ou a heroína) enfrentava uma situação de perigo, aparentemente sem solução, de forma a prender a atenção do público, levá-lo à curiosidade de ver o episódio seguinte, e conferir a forma com que o perigo seria superado, numa característica que ficou conhecida no cinema como cliffhanger. Os episódios originalmente eram semanais, e sempre terminavam com um convite ao público para assistir o subsequente.

A história apresentada pelo seriado, explica William Henckemaier, geralmente envolvia um herói ou heroína lutando contra o mal, contra algum vilão, que continuamente os expunha a armadilhas ou situações extremas de perigo, e das quais o herói escapava bravamente. O instante final do episódio subentendia, muitas vezes, a morte ou a derrota do herói, mas no episódio subsequente o público conferia sua sobrevivência através da persistência e da coragem. A situação se repetia ao longo de todo o seriado, numa sequência de armadilhas e perigos contínuos, até que, finalmente, no último episódio, o herói vencia o vilão. Os personagens eram bastante caricatos, arquetípicos, representavam heróis e vilões, e costumeiramente havia o “melhor amigo”, coadjuvante que funcionava como suporte para o personagem principal.

Histórico

Entre 1908 e 1920, o cinema se desenvolveu através dos chamados filmes em série ou seriados, que se tornaram a grande atração das casas de projeção.[4] Essa inovação não era, porém, uma criação do cinema, pois na época, em especial na França, eram populares os fascículos quinzenais com histórias policiais e de aventuras, os quais se espalharam pela Europa. Foi na França, portanto, que o seriado surgiu, com Nick Carter, le roi des détectives,[5] em 1908, baseado nos fascículos, sob direção de Victorin Jasset, diretor cheio de imaginação que muitas vezes improvisava o roteiro durante as filmagens.[5] Mediante o sucesso da série, várias imitações foram feitas na Europa, tais como Raffles[6] e Sherlock Holmes na Dinamarca, e Nick Carter na Alemanha.[4]

Poster do seriado francês Fantômas, produzido por Louis Feuillade em 1913.

Em 1910, foi realizado o seriado Arsène Lupin Contra Sherlock Holmes, drama alemão em 5 capítulos, dirigido por Viggo Larsen e baseado em Arsene Lupin Contre Sherlock Holmes,[7] de Maurice Leblanc.

Em 1911, surgiu no cinema o detetive Nick Winter, interpretado por Léon Durac; também em 1911, o diretor Victorin Jasset realizou Zigomar, um seriado baseado nas aventuras de um bandido, publicadas no jornal Le Matin, e Zigomar Contra Nick Carter. Em 1913, dirigiu Protea, com a personagem principal apresentando uma mulher fatal.

O mais famoso seriado da época, porém, foi Fantômas, de Louis Feuillade, adaptado do folhetim de Pierre Souvestre e Marcel Allain. O personagem, interpretado por René Navarre, podia realizar várias performances: podia se passar por rei, médico, vagabundo, entre outros, e era perseguido pelo detetive Juve. Entre 1913 e 1914, foram realizados 5 filmes da série Fantômas.

Pearl White, atriz de seriados que se tornou ídolo da juventude da época.

Os filmes em série chegaram, por volta de 1912, aos Estados Unidos da América, com What Happened to Mary?, co-produção do Edison Studios Company e da revista The Ladies World, primeiro seriado estadunidense. Os seriados comumente eram acompanhados, enquanto veiculavam nos cinemas, pela mesma história em capítulos nos jornais. Por volta dos anos 1910, tinha-se o hábito, nos cinemas populares dos Estados Unidos, de passar os filmes importantes por partes de um rolo, o que pode ter incentivado o aparecimento do seriado. O seriado estadunidense, porém, diferente dos filmes em episódios europeus, tais como Fantômas, de Louis Feuillade, e Nick Carter, de Jasset, tinha articulação com os folhetins impressos.[5] Na época, o jornal Chicago Tribune, pertencente aos McCormick, produtores de máquinas agrícolas, enfrentava a concorrência do Chicago's American, pertencente a William Randolph Hearst. Os McCormick, então, começaram a publicar folhetins cuja adaptação cinematográfica era conferida semanalmente, nos cinemas, assegurando para si os clientes dos Nickelodeons.[5] Em 29 de dezembro de 1913, por exemplo, cem cinemas de Chicago iniciavam a exibição do seriado The Adventures of Kathlyn, cujo folhetim fora publicado no Chicago Tribune, e um mês depois Hearst revidou com um seriado do Edison Studios, The Active Life of Dolly of the Dailies. Todo esse acontecimento foi acompanhado amplamente pela imprensa.[5] Os seriados proliferaram, apresentando suas obras primas, tais como The Million Dollar Mystery, produção da Thanhouser Film Corporation, que rendeu dez vezes o seu custo, e The Perils of Pauline, produção Pathé/ Hearst, estrelando Pearl White, que logo se tornou ídolo dos jovens.[5]

Na Itália, foram famosos A Quadrilha dos Ratos Cinzentos e O Triângulo Amarelo, em 1917 e 1918. Na Alemanha, em 1915, Otto Rippert realizou Homunculus, e Fritz Lang realizou Die Spinnen (As Aranhas), em 1919. Na Inglaterra, Charles Raymond realizou The Great London Mystery ("Os Mistérios de Londres"), em 1920. Na Espanha, José Maria Codina realizou Mefisto, em 1917.

Os seriados se tornaram muito populares entre as crianças e os jovens da primeira metade do século 20, e geralmente as sessões de cinema, inclusive no Brasil, até os anos 60, eram precedidas por um episódio de seriado, como eram conhecidos então. Posteriormente, foram adquiridos pelos canais de TV, sendo apresentados então em episódios semanais ou diários. Grande parte era de western, mas havia os mais diversos gêneros: dramas, ficção científica, espionagem, aventuras na selva, além de adaptações de livros. Alguns chegaram a ser bastante dispendiosos, como foi o caso de Flash Gordon, que pode ser considerado uma das maiores produções de seu tempo.

A época do cinema mudo foi o auge dos seriados e grandes artistas foram revelados, tais como Pearl White, que estrelou o seriado mudo The Perils of Pauline, em 1914, além de Ruth Roland, Marin Sais, Ann Little e Helen Holmes. A época de ouro do seriado, porém, foi entre 1936 e 1945.[8]

Cinema mudo

Ver artigo principal: Filme mudo
Cartaz do seriado The Tiger's Trail, com Ruth Roland, em 1919. A tragicidade das expressões, típica do cinema mudo e o enfrentamento do perigo iminente, que perfazia o cliffhanger, eram elementos característicos dos seriados.

Alguns dos mais famosos seriados estadunidenses do cinema mudo foram The Perils of Pauline, de 1914, e The Exploits of Elaine feitos pela Pathé e estrelados por Pearl White. Outro seriado popular da época, com 119 episódios, foi The Hazards of Helen pela Kalem Studios e estrelando Helen Holmes nos primeiros 48 episódios e Helen Gibson nos demais.

Grandes estúdios os produziam, entre eles Vitagraph Studios, Essanay Studios, Warner Bros., Fox, e Universal Studios. Algumas companhias independentes, tais como Mascot Pictures, fizeram seriados de Western. Foram feitos quatro seriados mudos de Tarzan. A Europa também produziu alguns, em especial a França, com Judex e Les Vampires, e a Alemanha com Homonculus.

Cinema sonoro

Com o advento do cinema sonoro, a Grande Depressão tornou difícil a sobrevivência das pequenas companhias cinematográficas. A Mascot Pictures e a Universal Pictures foram algumas das poucas que suportaram a transição do cinema mudo para o sonoro.

Nos anos 30, algumas companhias independentes tentaram fazer seriados. Em 1937, o grande sucesso da Universal Pictures foi Flash Gordon, e no mesmo ano foi criada a Republic Pictures, que envolveu a absorção da Mascot Pictures, de forma que, em 1937, a produção de seriados estava nas mãos de apenas três companhias: Universal Pictures, Columbia Pictures e Republic Pictures, com a Republic alcançando a liderança na qualidade das produções. Cada companhia fazia quatro ou cinco seriados por ano, entre 12 e 15 episódios cada. Após o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1946, a Universal transferiu sua unidade de seriados e foi renomeada como Universal-International Pictures. A Republic e a Columbia continuaram sua produção, ambas com quatro seriados por ano. A Republic fixou os seriados em 12 capítulos, e a Columbia em 15.

Nos anos 50, as séries televisivas e a venda dos velhos seriados para os canais de TV causaram o declínio dessa forma de filme e o seu esquecimento gradativo. O saudosismo após os anos 50 incentivou a volta e a recuperação pelos fãs e pelos estúdios profissionais, com a restauração de muitos deles.

No Brasil

Os seriados alcançaram grande popularidade no Brasil, e a Universal Pictures foi a primeira distribuidora de companhia americana a instalar seu escritório em terras brasileiras.[9] A partir de 1915, com a exibição, em São Paulo, de A rapariga misteriosa (Lucille Love, Girl of Mystery),[10] produção de 1914, sob direção de Francis Ford, houve grande influência do estilo estadunidense de seriados na produção de filmes. A influência desses seriados na produção cinematográfica brasileira torna-se evidente ao analisar os filmes produzidos na época. De acordo com Luciana Araújo, os seriados norte-americanos produzidos entre meados dos anos 1910 e início da década seguinte constituíram um fenômeno de popularidade em diversos países, inclusive no Brasil, onde o entusiasmo pelo gênero se prolongou ao longo da década de 1920, graças às constantes exibições que os filmes continuavam a ter, especialmente nos cinemas de bairro e do interior.[11]

No Brasil, foi realizado Os Mistérios do Rio de Janeiro, em 1917, escrito e co-dirigido por Coelho Neto e produzido pela Rio-Film,[11] porém não passou do primeiro capítulo,[4] que foi exibido sob o título O Tesouro do Viking, em 25 de outubro de 1917, com Procópio Ferreira e Basílio Viana.[12]

Outro que se pode considerar seriado brasileiro foi A quadrilha do esqueleto, produzido pela Veritas-Film de Irineu Marinho, com “aventuras policiais”.[11] Também Le film du diable (Nacional-Film, 1917) é caracterizado como seriado pela revista Cinearte, em matéria de 1932.[13] A dificuldade de passar do primeiro episódio deixa clara a grande limitação na produção de seriados no Brasil, pela exigência de meios de continuidade de produção com que o Brasil ainda não contava.[11]