República Romana

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Nome oficial (em moedas):
Roma
após c. 100 a.C:
Senatus populusque Romanus (SPQR)
("O Senado e o Povo de Roma")

República Romana
509 a.C. – 27 a.C.Vexilloid of the Roman Empire.svg

Bandeira de Roma

Bandeira

Lema nacional
Senatus Populusque Romanus
(O Senado e o Povo de Roma)
Localização de Roma
Províncias romanas na véspera do assassinato de Júlio César, 44 a.C.
ContinenteEurafrásia
CapitalRoma
Língua oficialLatim (oficial),
várias não oficiais foram faladas em certos lugares, incluindo Etrusco, Grego, Hebraico, Aramaico, Siríaco, Gaulês, Púnico, Berbere, Ibérico
ReligiãoPoliteísmo romano
GovernoRepública oligárquica
Cônsul
 • De 509 a 508 a.C.Lúcio Júnio Bruto,
Lúcio Tarquínio Colatino
 • De 27 a.C.Otaviano,
Marco Vipsânio Agripa
LegislaturaAssembleia legislativa
Período históricoAntiguidade Clássica
 • 509 a.C.Tarquínio, o Soberbo deposto pelo senado
 • 27 a.C.Batalha de Áccio
Área
 • 326 a.C.[1]10 000 km2
 • 200 a.C.[1]360 000 km2
 • 146 a.C.[1]800 000 km2
 • 100 a.C.[1]1 200 000 km2
 • 50 a.C.[1]1 950 000 km2
Precedido por
Sucedido por
The Capitoline Wolf 2010.jpgReino de Roma
Blank.pngItálicos
Expansão etrusca-pt.svgEtruscos
CarthageMap.pngCivilização cartaginesa
Blank.pngReino Ardieu
Blank.pngCeltiberos
Vergina sun.svgMacedônia Antiga
Location greek ancient.svgGrécia Antiga
Vergina sun.svgReino de Pérgamo
Blank.pngReino da Bitínia
PonticKingdom.pngReino do Ponto
Vergina sun.svgImpério Selêucida
Blank.pngGauleses
PtolemaicEmpire.pngImpério Selêucida
Império RomanoVexilloid of the Roman Empire.svg

República Romana (em latim: Res Pvblica Romana) foi um período da antiga civilização romana onde o governo operou como uma república. Começou com a queda da monarquia, tradicionalmente datada cerca de 509 a.C., e sua substituição pelo governo chefiado por dois cônsules, eleitos anualmente pelos cidadãos e aconselhados pelo senado. Uma complexa constituição gradualmente foi desenvolvida, centrada nos princípios de uma separação dos poderes e de freios e contrapesos. Exceto em tempos de terrível emergência nacional, ofícios públicos foram limitados por um ano, de modo que, em teoria ao menos, nenhum indivíduo exercesse poder absoluto sobre seus concidadãos.

A sociedade era hierárquica. A evolução da constituição da República Romana foi pesadamente influenciada pela luta entre os patrícios, aristocratas proprietários de terra, que traçaram sua ancestralidade no início da história do Reino de Roma, e os plebeus, os cidadãos muito mais numerosos. Com o tempo, as leis que deram aos patrícios direitos exclusivos de acesso aos mais altos ofícios foram revogadas e enfraquecidas, e as principais famílias plebeias tornaram-se membros plenos da aristocracia. Os líderes da república desenvolveram uma forte tradição e moralidade que exigia serviço público e patrocínio na paz e na guerra, tornando os sucessos políticos e militares indissociáveis.

Durante os primeiros dois séculos de sua existência a república expandiu-se através de uma combinação de conquista e aliança, da Itália central para a península Itálica inteira. Pelo século seguinte, incluía o Norte da África, a Península Ibérica, Grécia, e o que é hoje o sul da França. Dois séculos após isso, em direção ao fim do século I a.C., incluía o resto da moderna França, e muito do Mediterrâneo Oriental. Por esta altura, apesar das restrições tradicionais e legais da república contra qualquer aquisição individual de poderes políticos permanentes, a política foi dominada por um pequeno número de líderes romanos, com suas alianças pontuadas por uma série de guerras civis. O vencedor de uma destas guerras civis, Otaviano (mais tarde conhecido como Augusto) reformou a república como um principado, com ele mesmo como o "primeiro cidadão" (príncipe; princeps). O senado continuou a sentar e debater. Magistrados anuais foram eleitos como antes, mas as decisões finais em assuntos de política, guerra, diplomacia e nomeações foram privilégios de Augusto através de seu manejo de um número de separados poderes simultaneamente. Um de seus muitos títulos foi imperator do qual o título "imperador" derivou, e é costumeiramente chamado o primeiro imperador romano.

A República Romana nunca foi restaurada, mas também nunca foi formalmente abolida (o termo res publica continuou a ser usado para referir-se ao aparato do Estado), assim a data exata da transição para o Império Romano é um assunto de interpretação. Historiadores variadamente propuseram a nomeação de Júlio César como ditador perpétuo em 44 a.C., a derrota de Marco Antônio na Batalha de Ácio em 31 a.C., e a concessão de poderes extraordinários para Otaviano sob o primeiro assentamento e sua adoção do título de Augusto em 27 a.C., como o evento que define o fim da república.

História política

Era patrícia (509–367 a.C.)

De acordo com a lenda, Tarquínio, o Soberbo foi derrubado em 509 a.C. por um grupo de nobres liderado por Lúcio Júnio Bruto. Diz-se que Tarquínio fez uma série de tentativas para retomar o trono, incluindo a Conspiração Tarquiniana,[2] a guerra com Veios e Tarquinia[3] e finalmente a guerra entre Roma e Clúsio,[nt 1] todas infrutíferas. A monarquia histórica, como a lenda sugere, foi provavelmente derrubada rapidamente, mas as mudanças constitucionais que ocorreram imediatamente após possivelmente não foram tão extensas como sugerido. A mais importante mudança talvez seja do chefe executivo. Antes, um rei era eleito pelos senadores para um mandato vitalício. Agora, dois cônsules eram eleitos pelos cidadãos para um mandato anual.[5] Cada cônsul verificaria seu colega, e o mandato limitado deles possibilitava que fossem acusados se abusassem dos poderes de seu ofício. Os poderes políticos consulares, quando exercidos conjuntamente, não foram diferentes daqueles do antigo rei.[6]

Em 494 a.C., a cidade estava em guerra com duas tribos vizinhas. Os soldados plebeus recusaram-se a marchar contra o inimigo, e em vez disso se separaram para o monte Aventino. Os plebeus exigiram o direito de eleger seus próprios oficiais. Os patrícios concordaram, e eles retornaram ao campo de batalha.[7] Os plebeus chamaram seus novos oficiais "tribunos da plebe". Os tribunos teriam dois assistentes, chamados "edis da plebe". De 375 a.C. a 371 a.C., a república experimentou uma crise constitucional durante a qual os tribunos da plebe usaram seus votos para impedir a eleição de magistrados seniores. Em 367 a.C., uma lei foi aprovada, na qual exigiu-se a eleição de ao menos um edil plebeu cada ano. Em 443 a.C., o censor foi criado, e em 366 a.C., o pretor. Também em 366 a.C., edil curul foi criado.[8]

Logo após a fundação da república, a assembleia das centúrias tornou-se a principal assembleia legislativa. Nesta assembleia, magistrados foram eleitos, e leis foram aprovadas.[9] Durante o século IV a.C., uma série de reformas ocorreu, especialmente depois das sucessivas secessões da plebe. O resultado delas foi que qualquer lei aprovada pela assembleia da plebe teria toda a força da lei.[10] Isto deu aos tribunos, que presidiam a assembleia da plebe, um caráter positivo pela primeira vez, uma vez que, antes destas leis, o único poder que mantinham foi do veto.[11]

Conflitos das ordens (367–287 a.C.)

Ver artigo principal: Conflito das ordens

Os plebeus viviam uma crise em decorrência do endividamento. De acordo com Tito Lívio, essa crise foi acelerada após o saque de Roma pelos gauleses ca. 390-387 a.C. Contínuos protestos eclodiram, dentro os quais o liderado por M. Mânlio que, embora patrício, aliou-se aos plebeus, cujas dívidas ajudou a pagar com sua fortuna. Ao longo do século os distúrbios sociais tornaram-se frequentes e desencadearam desordens, como aquelas de 378 a.C., e a anarquia de 370 a.C. Em decorrência do crescente descontentamento da classe plebeia, uma série de leis foram promulgadas com a finalidade de tratar a situação. A lei Licínia Sêxtia de 367 a.C. serviu para acelerar o pagamento de dívidas e impôs um limite à acumulação de terras públicas (ager publicus) por cada pater familias, bem como o número e ovelhas e gado que podia pastar nelas enquanto outras, promulgadas em 357, 352 e 347 a.C., tentaram reduzir e regularizar os tipos de juros.[12] Pouco depois, em 342 a.C., a lei Genúcia determinou a ilegalidade de empréstimos a juros[13][14] e em 326 a.C., a escravidão por dívidas (nexo), foi suprimida.[12]

Após o edil plebeu ter sido criado, os patrícios criaram o edil curul.[15] Depois do consulado ter sido aberto aos plebeus em 367 a.C., os plebeus foram capazes de manter tanto a ditadura (356 a.C.) como a censura (351 a.C.).[12] Plebiscitos de 342 a.C. colocaram limites nos cargos políticos; um indivíduo podia manter apenas um ofício de cada vez, e dez anos deviam decorrer entre o fim de seu mandato oficial e sua reeleição. Em 337 a.C., o primeiro pretor plebeu foi eleito.[16] Durante estes anos, os tribunos e os senadores ficaram cada vez mais próximos. O senado percebeu a necessidade de usar os oficiais plebeus para atingir seus objetivos.[17] Para conquistar os tribunos, os senadores deram a eles uma grande quantidade de poder e os tribunos começaram a se sentir sujeitados ao senado. Com a aproximação dos senadores e tribunos, os senadores plebeus foram frequentemente capazes de assegurar o tribunato para membros de suas próprias famílias. Com o tempo, o tribunato tornou-se um trampolim para cargos mais altos.[18]

Em meados do século IV a.C., a assembleia da plebe promulgou a lei Ovínia. Durante o início da república, apenas cônsules nomeavam novos senadores. A lei Ovínia, contudo, deu este poder aos censores. Ela também exigiu que o censor nomeasse qualquer magistrado recém-eleito para o senado.[19] Por este momento, os plebeus já estavam mantendo um número significativo de cargos magisteriais. Assim, o número de senadores plebeus provavelmente aumentou rapidamente. Contudo, permaneceu difícil para um plebeu entrar no senado se ele não era de uma família de políticos conhecidos, como a nova aristocracia plebeia emergente.[20] A antiga nobreza existiu pela força da lei, porque apenas patrícios foram autorizados a ficar em altos cargos. A nova nobreza existiu devido à organização da sociedade. Como tal, apenas uma revolução poderia derrubar esta nova estrutura.[21]

Por 287 a.C., a condição econômica do plebeu médio tornou-se miserável. O problema parece ter sido centrado em torno da dívida generalizada. Os plebeus exigiram assistência, mas os senadores se recusaram a deliberar a situação deles. O resultado foi a última secessão plebeia. Os plebeus se separaram para o monte Janículo. Para o fim da secessão, Quinto Hortênsio foi nomeado ditador e uma lei (a lei Hortênsia), que pôs fim à exigência a qual os senadores patrícios deviam concordar antes que qualquer projeto de lei pudesse ser considerado pela assembleia da plebe.[22] Esta não foi a primeira lei a exigir que um ato da assembleia popular tivesse a mesma força da lei. A assembleia popular adquiriu este poder durante uma modificação da original lei Valeriana em 449 a.C.[23] O significado desta lei foi, de fato, que ela roubou dos patrícios a última arma que tinham contra os plebeus e, como resultado, o controle do Estado caiu, não para os ombros dos eleitores, mas para a nova nobreza plebeia.[24] Os plebeus finalmente conseguiram igualdade política com os patrícios. Contudo, a condição da classe plebeia média não mudou. Um pequeno número de famílias plebeias alcançou a mesma posição que as antigas famílias aristocráticas patrícias sempre tiveram, mas os novos aristocratas plebeus tornaram-se desinteressados na condição da classe plebeia média como os antigos aristocratas patrícios tinham sempre feito.[21]

Supremacia da nova nobreza (287-133 a.C.)

A lei Hortênsia foi a solução da última grande questão política desta época. Nenhuma mudança política importante ocorreu entre 287 a.C. e 133 a.C.[25] As importantes leis deste momento foram promulgadas pelo senado.[26] De fato, os plebeus estavam satisfeitos com a posse do poder, mas não se preocuparam em usá-lo. O senado foi supremo durante este momento porque o período foi dominado por questões de política estrangeira e militar.[27] Nas décadas finais desta era, muitos plebeus ficaram mais pobres. As longas campanhas militares forçaram os cidadãos a deixarem suas fazendas para lutar, enquanto suas propriedades caíram em desuso. A aristocracia rural começou a comprar fazendas falidas a preços promocionais. Como os preços das commodities caíram, muitos fazendeiros já não podiam mais operar suas fazendas com lucro.[28] O resultado foi a falência total de muitos agricultores. Massas de plebeus desempregados logo começaram a inundar Roma e, assim, as fileiras das assembleias legislativas. A pobreza deles geralmente levou-os a votar para a candidato que lhes oferecesse mais. Uma nova cultura de dependência estava emergindo, na qual cidadãos olhariam por qualquer líder populista por auxílio.[29]

Dos Gracos a Júlio César (133–49 a.C.)

Ver artigo principal: Crise da República Romana

Os Gracos

Ver artigo principal: Gracos
Caio Graco, por Pierre-Nicolas Brisset, na Escola Nacional Superior de Belas Artes

Tibério Graco foi eleito tribuno em 133 a.C. Ele tentou aprovar uma lei que limitaria a quantidade de terra que qualquer indivíduo poderia possuir. Os aristocratas, que estavam a perder uma grande quantia em dinheiro, foram opositores ferrenhos a esta proposta. Tibério apresentou esta lei a assembleia popular, mas a lei foi vetada por um tribuno chamado Marco Otávio. Tibério então usou a assembleia popular para contestar Otávio. A ideia que um representante do povo deixaria de sê-lo quando agisse contra os desejos do povo era contra a teoria constitucional romana. Se levada à sua conclusão lógica, esta teoria removeria todas as restrições constitucionais sobre a vontade popular, e colocaria o Estado sob o controle absoluto de uma temporária maioria popular.[30] Sua lei foi promulgada, mas Tibério foi assassinado com 300 de seus associados, quando pôs-se à reeleição para o tribunato.[31]

O irmão de Tibério, Caio Graco, foi eleito tribuno em 123 a.C. O objetivo de Caio Graco era enfraquecer o senado e fortalecer as forças democráticas.[32] No passado, por exemplo, o senado eliminaria rivais políticos através da criação de comissões judiciais especiais ou por meio de um senatus consultum ultimum ("decreto supremo do senado"). Ambos os dispositivos permitiam ao senado contornar os direitos ordinários devido a direitos processuais que todos os cidadãos tinham. Caio proibiu as comissões judiciais, e declarou o senatus consultum ultimum como inconstitucional. Caio então propôs uma lei que garantia cidadania a aliados italiotas. Esta última proposta não foi popular com os plebeus e ele perdeu muito de seu apoio.[33] Ele candidatou-se a um terceiro mandato em 121 a.C., mas foi derrotado e então morto por representantes do senado com 3 000 de seus partidários no monte Capitolino, em Roma.[31] Embora o senado tenha mantido o controle, os Gracos fortaleceram a influência política dos plebeus.[34]

Populares e optimates

Ver artigos principais: Populares e Optimates
Um denário emitido em 56 a.C. mostrando no anverso o busto da deusa Diana, e no reverso o general Sula a quem está sendo oferecido uma oliveira por seu aliado Boco I com seu cativo Jugurta ajoelhado ao lado de Sula com suas mãos atadas

Em 118 a.C., o rei Micipsa da Numídia morreu. Foi sucedido por dois filhos legítimos, Aderbal e Hiempsal I, e um ilegítimo, Jugurta. Micipsa dividiu seu reino entre seus três filhos. Jugurta, contudo, voltou-se contra seus irmãos, matando Hiempsal I e expulsando Aderbal da Numídia. Aderbal fugiu para Roma em busca de assistência, e inicialmente ela mediou a divisão do país entre os dois irmãos. Posteriormente, Jugurta renovou sua ofensiva, levando-o a uma longa e inconclusiva guerra com os romanos. Ele também subornou vários comandantes romanos, e ao menos dois tribunos, antes e durante a guerra. Seu inimigo, Caio Mário, um legado de uma família provincial virtualmente desconhecida, retornou da guerra na Numídia e foi eleito cônsul em 107 a.C. sobre as objeções dos senadores aristocráticos. Mário invadiu a Numídia e levou a guerra a um rápido fim, capturando Jugurta no processo. A aparente incompetência do senado, e o brilho de Mário, teria sido posto em plena exibição.[35] O partido dos populares aproveitou esta oportunidade, aliando-se com Mário.[36]

Vários anos depois, em 88 a.C., um exército romano foi enviado para acabar com um poder asiático emergente, o rei Mitrídates VI do Ponto. O exército, contudo, foi derrotado. Um dos antigos questores de Mário, Sula, foi eleito cônsul no ano, e foi ordenado pela senado para assumir o comando da guerra contra Mitrídates. Mário, um membro do partido dos populares, fez um tribuno revogar o comando de Sula na guerra contra Mitrídates. Sula, um membro do partido aristocrático (optimates), trouxe seu exército de volta para a Itália e marchou sobre Roma. Ele estava tão nervoso com o tribuno de Mário que aprovou uma lei destinada a enfraquecer permanentemente o tribunato.[37] Ele então retornou para sua guerra contra Mitrídates. Com sua partida, os populares sob Mário e Lúcio Cornélio Cina tomaram controle da cidade.[38]

Sula logo fez paz com Mitrídates. Em 83 a.C., retornou para Roma, superou toda a resistência, e recapturou a cidade. Ele e seus partidários, em seguida, mataram muitos dos partidários de Mário. Sula, tendo observado os resultados violentos das reformas populares radicais, foi naturalmente conservador. Como tal, procurou fortalecer a aristocracia, e por extensão, o senado.[39] Fez-se ditador, aprovou uma série de reformas constitucionais, demitiu-se da ditadura, e serviu um último mandato como cônsul. Morreu em 78 a.C.[38]

Pompeu, Crasso e a conspiração de Catilina

Ver artigo principal: Segunda Conspiração de Catilina
Cícero, busto datado do século I a.C., Museus Capitolinos

Em 77 a.C., o senado enviou um dos antigos tenentes de Sula, Cneu Pompeu Magno, para acabar com uma revolta na Hispânia. Por 71 a.C., Pompeu retornou para Roma após ter completado sua missão. Cerca do mesmo tempo, outro dos antigos tenentes de Sula, Crasso, teve que controlar a revolta de Espártaco e dos gladiadores/escravos na Itália. Após o regresso deles, Pompeu e Crasso encontraram os populares ferozmente atacando a constituição de Sula.[40] Eles tentaram forjar um acordo com os populares. Na condição de desmantelarem os componentes mais abomináveis da constituição, ambos foram eleitos cônsules em 70 a.C.[41]

Cerca de 66 a.C., um movimento para usar meios constitucionais, ou ao menos pacíficos, para resolver a situação de várias classes começou.[42] Após vários fracassos, os líderes do movimento decidiram usar todos os meios que fossem necessários para realizar os objetivos deles. O movimento se uniu sob um aristocrata chamado Lúcio Sérgio Catilina. O movimento estava baseado na cidade de Fésulas, que foi um viveiro natural de agitação agrária.[43] Os descontentes do campo estavam para avançar sobre Roma,[44] e serem auxiliados por um levante dentro da cidade. Após assassinar os cônsules e muitos dos senadores, Catilina seria livre para aprovar suas reformas. A conspiração foi colocada em movimento em 63 a.C. O cônsul do ano, Cícero, interceptou mensagens que Catilina havia enviado numa tentativa de recrutar mais membros. Como resultado, os principais conspiradores em Roma (incluindo ao menos um cônsul anterior) foram executados por autorização (de constitucionalidade duvidosa) do senado, e o levante planejado foi interrompido.[45] Cícero então enviou um exército, que cortou as forças de Catilina em pedaços.[46]

O resultado mais importante da conspiração de Catilina foi que os populares tornaram-se desacreditados. Os 70 anos anteriores testemunharam uma gradual erosão dos poderes senatoriais. A natureza violenta da conspiração, em conjunção com a habilidade do senado em interrompê-la, foi importante para reparara imagem do senado.[44]

Primeiro Triunvirato

Ver artigo principal: Primeiro Triunvirato
Crasso, busto no Louvre

Em 62 a.C., Pompeu retornou vitorioso da Ásia. O senado, eufórico por seus sucessos contra Catilina, recusou-se a ratificar os acordos que ele havia feito. Pompeu, na verdade, tornou-se impotente. Assim, quando Júlio César retornou de seu governo na Hispânia em 61 a.C., ele achou fácil fazer chegar a um entendimento. César e Pompeu, junto com Crasso, estabeleceram um acordo privado, agora conhecido como Primeiro Triunvirato. Sob o acordo, os arranjos de Pompeu seriam ratificados. César seria eleito cônsul em 59 a.C., e então serviria como governador da Gália por cinco anos. A Crasso foi prometido um consulado futuro.[47]

César tornou-se cônsul em 59 a.C. Seu colega no cargo, Marco Calpúrnio Bíbulo, era um aristocrata extremo. César submeteu as leis que ele tinha prometido a Pompeu para as assembleias. Bíbulo tentou obstruir a promulgação destas leis, e assim César usou meios violentos para assegurar a promulgação.[47] César foi então feito governador de três províncias. Ele facilitou a eleição do antigo patrício Públio Clódio Pulcro para o tribunato em 58 a.C. Clódio começou a privar os inimigos senatoriais de César dos dois líderes mais obstinados deles, Catão, o Jovem e Cícero. Clódio foi um opositor de Cícero, pois o último tinha testemunhado contra ele em um caso de sacrilégio. Clódio tentou Cícero a executar cidadãos sem julgamento durante a conspiração de Catilina, resultando em um exílio auto-imposto de Cícero e o incendiamento de sua casa em Roma. Clódio aprovou uma lei que forçou Catão a liderar uma invasão do Chipre que manteria-o fora de Roma por alguns anos. Clódio também aprovou uma lei para expandir o subsídio parcial de grãos aos cidadãos para uma distribuição totalmente livre.[48]

Clódio formou grupos armados que aterrorizaram a cidade e posteriormente começaram a atacar os seguidores de Pompeu, que em resposta fundou grupos de contra-ataque liderados por Tito Ânio Papiano Milão. A aliança política do triunvirato estava desmoronando. Domício Enobarbo correu para o consulado em 55 a.C., prometendo tomar o comando de César. Posteriormente, o triunvirato foi renovado em Luca. A Pompeu e Crasso foi prometido o consulado de 55 a.C., e o mandato de César como governador foi estendido por cinco anos. Crasso liderou uma expedição malfadada com legiões lideradas por seu filho, o tenente de César, contra o Império Parta. Isto resultou em sua derrota e morte na batalha de Carras. Finalmente, a esposa de Pompeu, Júlia, que foi filha de César, morreu no parto. Este evento cortou o último laço remanescente entre Pompeu e César.[49]

Começando no verão de 54 a.C., uma onde de corrupção política e violência varreu Roma.[50] Este caos alcançou um clímax em janeiro de 52 a.C., quando Clódio foi assassinado em batalha por Tito Milão. Em 1 de janeiro de 49 a.C., um agente de César apresentou um ultimato ao senado. O ultimato foi rejeitado, e o senado então passou uma resolução que declarou que se César não entregasse seus exércitos até julho daquele ano, seria considerado um inimigo da república.[51] No meio tempo, os senadores adotaram Pompeu como o nome campeão deles contra César. Em 7 de janeiro de 49 a.C., o senado aprovou um senatus consultum ultimum, que investiu Pompeu com poderes ditatoriais. O exército de Pompeu, contudo, era composto largamente de recrutas não treinados. Em 10 de janeiro, César cruzou o rio Rubicão com seu exército veterano (em violação das leis romanas) e marchou em direção a Roma. O rápido avanço de César forçou Pompeu a fugir para a Grécia. César entrou na cidade sem oposição.[52]

O período de transição (49-29 a.C.)

Ditadura de Júlio César

Ver artigos principais: Júlio César e Liberatores
Júlio César, estátua de bronze em Rimini

Com Pompeu derrotado e a ordem restaurada, Júlio César queria conseguir o controle incontestável sobre o governo. Os poderes que deu a si mesmo foram mais tarde assumidos por seus sucessores imperadores. César manteve a ditadura e o tribunato, e alternou entre o consulado e o proconsulado.[53] Em 48 a.C., César recebeu poderes tribunícios perpétuos. Isto fez sua pessoa sacrossanta, deu a ele o poder do veto no senado, e permitiu-lhe dominar a assembleia popular. Em 46 a.C., recebeu poderes censoriais,[54] que usou para preencher o senado com seus próprios partidários. César então elevou a composição do senado para 900.[55] Isto roubou o prestígio da aristocracia senatorial, e tornou-a cada vez mais subserviente a ele. Enquanto as assembleias continuaram a se encontrar, ele apresentou todos os candidatos para eleição e todas as leis para promulgação. Assim, as assembleias tornaram-se impotentes e foram incapazes de opôr-se a ele.[56]

Próximo do fim de sua vida, César começou a se preparar para uma guerra contra o Império Parta. Uma vez que sua ausência em Roma limitaria sua habilidade de instalar seus próprios cônsules, ele aprovou uma lei que o permitiu nomear todos os magistrados em 43 a.C., e todos os cônsules e tribunos em 42 a.C. Isto transformou os magistrados de representantes do povo para representantes do ditador.[55]

César foi assassinado em 15 de março de 44 a.C. O assassinato foi liderado por Caio Cássio e Marco Bruto. Muitos dos conspiradores foram senadores, que tinham uma variedade de motivações econômicas, políticas e pessoais para realizar o assassinato. Muitos estavam receosos que César logo ressuscitaria a monarquia e declararia a si próprio rei. Outros temiam perda de propriedade e prestígio com César realizando reformas agrárias em favor das classes sem-terra. Virtualmente todos os conspiradores deixaram a cidade após a morte de César com receio de retaliação. A guerra civil que se seguiu destruiu o que havia sido deixado da república.[57] Apesar das facções terem redes de espionagem fortes, isso não ajudou Júlio César a evitar o atentado efetuado pelo senado.[58]

Segundo Triunvirato e ascensão de Otaviano

Ver artigos principais: Segundo Triunvirato e Augusto

Após o assassinato, Marco Antônio formou uma aliança com o filho adotivo e sobrinho-neto de César, Caio Otaviano. Junto com Marco Lépido, formaram uma aliança conhecida como segundo Triunvirato.[59] Mantiveram poderes quase idênticos aos que César havia mantido sob sua constituição. Como tal, o senado e as assembleias permaneceram impotentes, mesmo após César ter sido assassinado. Os conspiradores foram então derrotados na batalha de Filipos em 42 a.C. Posteriormente, contudo, Antônio e Otaviano lutaram um contra o outro numa última batalha. Antônio foi derrotado na batalha de Ácio em 31 a.C., e cometeu suicídio com seu amor, Cleópatra.[60] Em 29 a.C., Otaviano retornou para Roma como um mestre incontestado do império e depois aceitou o título de Augusto - "Exaltado".[61]

Em 27 a.C., após devolver ao senado a autoridade para com as legiões e as províncias,[62] Otaviano recebeu o título de Augusto e príncipe (princeps), ou seja, de primeiro cidadão.[63][64] Mesmo depois de ter recebido várias recusas de outros títulos por parte de Otaviano, conhecido a partir de então como Augusto, tais como o de ditador e o de cônsul vitalício, o senado concedeu-lhe o poder de imperium vitalício. Este último cedia a Augusto o controle sobre todas as legiões existentes na república, elevando-o ao posto de imperador, apesar de as instituições republicanas romanas continuarem existindo[65].