Nelson Mandela

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Sua Excelência
Nelson Mandela
Nelson Mandela em maio de 2008.
1Presidente da África do Sul
Período27 de abril de 1994
a 16 de junho de 1999
Vice-presidenteF. W. de Klerk (1994-1996)
Thabo Mbeki (1994-1999) [nota 1]
AntecessorF. W. de Klerk (Presidente de Estado)
SucessorThabo Mbeki
19º Secretário-Geral do Movimento Não Alinhado
Período3 de setembro de 1998
a 14 de junho de 1999
AntecessorAndrés Pastrana
SucessorThabo Mbeki
Dados pessoais
Nome completoNelson Rolihlahla Mandela
Nascimento18 de julho de 1918
Mvezo, Cabo Oriental
União Sul-Africana
Morte5 de dezembro de 2013 (95 anos)
Joanesburgo, Gauteng
África do Sul
Alma materUniversidade de Fort Hare
Universidade de Londres
Universidade da África do Sul
Universidade de Witwatersrand
CônjugeEvelyn Ntoko Mase (1944-1957)
Winnie Madikizela (1957-1996)
Graça Machel (1998-2013)
FilhosMadiba; Makaziwe (2); Makgatho; Zenani; Zindziswa
PartidoCongresso Nacional Africano
ReligiãoMetodista
ProfissãoAdvogado
ResidênciaJoanesburgo
AssinaturaAssinatura de Nelson Mandela

Nelson Rolihlahla Mandela (Mvezo, 18 de julho de 1918Joanesburgo, 5 de dezembro de 2013) foi um advogado, líder rebelde e presidente da África do Sul de 1994 a 1999, considerado como o mais importante líder da África Negra, vencedor do Prêmio Nobel da Paz de 1993,[1] e pai da moderna nação sul-africana,[2] onde é normalmente referido como Madiba (nome do seu clã) ou "Tata" ("Pai").

Nascido numa família de nobreza tribal, numa pequena aldeia do interior onde possivelmente viria a ocupar cargo de chefia, recusou esse destino aos 23 anos ao seguir para a capital, Joanesburgo, e iniciar sua atuação política.[3] Passando do interior rural para uma vida rebelde na faculdade, transformou-se em um jovem advogado na capital e líder da resistência não violenta da juventude, acabando como réu em um infame julgamento por traição. Foragido, tornou-se depois o prisioneiro mais famoso do mundo[4] e, finalmente, o político mais galardoado em vida, responsável pela refundação do seu país como uma sociedade multiétnica.[5]

Mandela passou 27 anos na prisão - inicialmente em Robben Island e, mais tarde, nas prisões de Pollsmoor e Victor Verster. Depois de uma campanha internacional, ele foi libertado em 1990, quando recrudescia a guerra civil em seu país. Em dezembro de 2013, foi revelado pelo The New York Times que a CIA americana foi a força decisiva para a prisão de Mandela em 1962, quando agentes americanos foram empregados para auxiliar as forças de segurança da África do Sul a localizá-lo.[6] Até 2009, ele havia dedicado 67 anos de sua vida à causa que defendeu como advogado de direitos humanos e pela qual se tornou prisioneiro de um regime de segregação racial, até ser eleito o primeiro presidente da África do Sul livre. Em sua homenagem, a Organização das Nações Unidas instituiu o Dia Internacional Nelson Mandela no dia de seu nascimento, 18 de julho, como forma de valorizar em todo o mundo a luta pela liberdade, pela justiça e pela democracia.[7]

Mandela foi uma figura controversa durante grande parte da sua vida. Denunciado como um terrorista comunista por seus críticos,[8][9] ele acabou sendo aclamado internacionalmente por seu ativismo e recebeu mais de 250 prêmios e condecorações, incluindo o Nobel da Paz em 1993, a Medalha Presidencial da Liberdade dos Estados Unidos e a Ordem de Lenin da União Soviética. Seus críticos apontam seus traços egocêntricos e o fato de seu governo ter sido amigo de ditadores simpáticos ao Congresso Nacional Africano (CNA). Em sua vida privada, enfrentou dramas pessoais mas permaneceu fiel ao dever de conduzir seu país.[10] Foi o mais poderoso símbolo da luta contra o regime segregacionista do Apartheid, sistema racista oficializado em 1948, e modelo mundial de resistência.[1][11] No dizer de Ali Abdessalam Treki, Presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas, "um dos maiores líderes morais e políticos de nosso tempo".[12] Recebeu a Medalha Benjamin Franklin por Serviço Público de Destaque de 2000.

Contexto histórico

Membros fundadores do Congresso Nacional Africano (CNA), em delegação à Inglaterra contra a Lei de Terras (1914).

Ao longo do tempo ocorreu a interiorização sul-africana dos bôeres (descendentes de colonizadores holandeses, franceses e alemães), entrando inevitavelmente em choque com os diversos grupos negros bantos, a quem chamavam de cafre (infiel, em árabe) - povos xhosa, zulus, tswanas, ngunis e sothos, que habitavam a região. A partir de 1795 chegaram os ingleses e passaram a dominar cada vez mais áreas, até que a descoberta de ouro e diamantes os levou ao inevitável choque com os bôeres na disputa pelas riquezas minerais.[13]

No começo do século XX a África do Sul era uma colônia britânica, resultado do Tratado de Vereeniging que pusera fim à Guerra dos Bôeres (1899-1902); nela eram reconhecidos o inglês e o holandês como idiomas oficiais (o africâner só seria reconhecido após 1925) e a metrópole incentivara a imigração de chineses e indianos, marginalizando ainda mais a população negra.[14] Em 1906 ocorreu a Rebelião de Bambata, na Província de Natal, com a morte de cerca de 4 mil zulus. Em 1910 foi aprovada a Lei de União, no qual a Colônia do Cabo, Natal, Transvaal e o Estado Livre de Orange compuseram a então chamada União Sul-Africana, na qual os africânderes gozavam relativa autonomia administrativa; os então denominados territórios de Basotolândia (atual Lesoto), Bechuanalândia (atual Botsuana), Suazilândia e Rodésia (atual Zimbábue) permaneceram sob domínio britânico.[13]

Em 1912 foi fundado o Congresso Nacional Africano por nacionalistas negros, movimento formado principalmente por bantos para fazer frente às novas leis segregacionistas; era, contudo, composto pela elite negra (profissionais liberais, religiosos e intelectuais), em bases cristãs e não revolucionárias.[13]

Recebiam as crianças negras uma educação eurocêntrica, nos moldes da cultura britânica. Sobre isto Mandela declarou que aprendiam "a ser ingleses negros".[5]

Em 1948 a situação política deu uma forte mudança e radicalização, com a ascensão ao poder do Partido Nacional, com o domínio dos africânderes no governo: é institucionalizada a segregação e a subjugação dos não europeus, no sistema que foi denominado de Apartheid; as pessoas eram separadas por sua raça, num sistema jurídico que excedia em muito as regras adotadas nos estados sulistas dos Estados Unidos, com as leis de Jim Crow.[14]

Em 1963, ano da prisão de Mandela no Julgamento de Rivonia, a África do Sul possuía 17 milhões de habitantes dos quais 20% eram brancos (3 250 000 pessoas), 68,3% negros (11 640 000 pessoas), sendo o restante da população formada por 1 650 000 mestiços e 520 000 asiáticos.[14]

Contexto étnico e geográfico

Mapa situando os primeiros anos de Mandela, em Cabo Leste.

A nação Xhosa situa-se no interior do Transkei, entre Cabo e Natal; no século XIX foi denominada "reserva nativa" após as guerras entre os ingleses e os povos naturais do lugar; Mandela faz parte do povo Thembu, e do clã dos Madiba.[15]

Sobre sua aldeia natal ele escreveu, na autobiografia, que "era um lugar distante, um pequeno distrito afastado do mundo dos grandes eventos, onde a vida corria da mesma forma como há centenas de anos."[15] [nota 2]

Na África do Sul, até sua libertação em 1990, viveu Mandela em três das províncias em que se divide o país:

Nasceu Nelson Mandela na atual província sul-africana de Cabo Leste, numa vila chamada Mvezo, no Transkei.[16] Passou parte da infância na vila de Qunu (a mesma onde construiu uma casa, depois de liberto). Viveu, a partir dos nove anos, na vila real de Mqhekezweni e depois em Engcobo e Fort Beaufort, onde concluiu os estudos secundários; mudou-se, finalmente, para Alice (Porto Elizabeth), onde ingressa na faculdade.[17]

Mqhekezweni - "o Grande Lugar", a "capital" do reino de Jongintaba, na verdade nada mais era do que um povoado composto por uma dúzia de rondavels e uma grande horta.[18]

Após a faculdade muda-se para Gauteng, onde mora nos subúrbios de Joanesburgo: Soweto e Alexandra. Em Kliptown assina a Carta da Liberdade; em Pretória fica preso e tem casa em Rivonia.[17]

No KwaZulu-Natal participa da Conferência Africana em Pietermaritzburgo e é preso em Howick (1961-62).[17]

Finalmente, na província de Cabo Oeste, passa a maior parte do tempo nas prisões da Ilha de Robben, na Cidade do Cabo e em Paarl.[17]

Contexto familiar

O rei Jongintaba, tio e tutor de Mandela.

Mandela era um dos treze filhos de Nkosi Mphakanyiswa Gadla Mandela com Nosekeni Fanny,[16] a terceira esposa de seu pai.[5] Na sua casa moravam também muitos outros meninos, e dependentes da família.[3] Seus pais eram analfabetos.[19]

Muito influenciaram o jovem Mandela seu primo Alexander Mandela e sua sobrinha, que apesar disto era bem mais velha que ele, Phathiwe Rhanugu, que certamente foram os primeiros de seu clã a se tornarem professores.[3]

Tão popular quanto o regente Jongintaba, seu tio, era o reverendo Matyolo, da Igreja Metodista - no plano espiritual sendo mesmo superior àquele, ambos exercendo fascínio pelo poder e respeito que tinham, não somente entre os próprios negros como também com aos brancos.[3]

Somente mais tarde é que a figura dos chefes tribais foi mesmo questionada por Mandela, como agentes cooptados pelo governo branco. Também os missionários exerciam um papel na dominação, mas Mandela mais tarde registraria que "sempre considerei perigoso subestimar a influência dessas duas instituições sobre o povo, e, por essa razão, pedi repetidamente que tivessem cautela ao lidar com elas."[3]

Seu pai certa feita foi acusado de deixar fugir um boi e, recebendo a citação da justiça dos brancos, recusou-se a comparecer porque somente reconhecia a justiça tribal.[5] Ele era um chefe local e conselheiro do regente.[20] Sobre ele Mandela se recorda que era "orgulhoso e rebelde, com um senso obstinado de justiça que também detecto em mim".[5]

Mandela foi preparado pela família para ocupar um cargo de chefia tribal, deveria ter aceito um casamento arranjado, em que a noiva ser-lhe-ia indicada sem mesmo conhecê-la. Ele fugiu desse destino e, mais tarde, conjecturou que, se o tivesse aceito, "...hoje seria um chefe muito respeitado, sabe? Teria uma barriga bem grande, muitas vacas e carneiros."[3]