Lygia Fagundes Telles

Lygia Fagundes Telles Gold Medal.svg Academia Brasileira de Letras
Lygia durante reunião no Ministério da Cultura em 2011.
Nome completoLygia de Azevedo Fagundes
Nascimento19 de abril de 1923 (95 anos)
São Paulo, Brasil
Nacionalidadebrasileira
ProgenitoresMãe: Maria do Rosário Silva Jardim de Moura
Pai: Durval de Azevedo Fagundes
CônjugeGofredo Teles Júnior (1947-1960)
Paulo Emílio Salles Gomes (1963-1977)
Ocupaçãoescritora e advogada
Prêmios
Magnum opus

Lygia Fagundes Telles (nascida Lygia de Azevedo Fagundes; São Paulo, 19 de abril de 1923), também conhecida como "a primeira dama da literatura brasileira",[1][2] é uma escritora brasileira, considerada por acadêmicos, críticos e leitores uma das maiores escritoras brasileiras do século XX e da história da literatura brasileira. Além de advogada, romancista e contista, Lygia tem grande representação no pós-modernismo, e suas obras retratam temas clássicos e universais como a morte, o amor, o medo e a loucura, além da fantasia.[3]

Nascida na cidade de São Paulo, a escritora cresceu em Sertãozinho e outras pequenas cidades do interior paulista, e desde pequena demostrou interesse pelas letras. Aos oitos anos, mudou-se para o Rio de Janeiro, permanecendo lá por cinco anos. De volta a São Paulo, matriculou-se no Instituto de Educação Caetano de Campos e passou a interessar-se por literatura. Sua estreia literária foi com o livro de contos Porão e Sobrado (1938), o qual foi bem recebido pela crítica. O sucesso se repetiu com Praia Viva (1944). Após concluir o curso de Direito na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em 1946, onde conhecera Mário e Oswald de Andrade, Paulo Emílio Sales Gomes, entre outros, integrou a academia de letras da faculdade e colaborou com os jornais Arcádia e A Balança. Em 1947, casou-se com Gofredo Teles Júnior, com quem teve Goffredo da Silva Telles Neto, casando-se novamente em 1962 com Paulo Emílio Salles Gomes. Seu terceiro livro de contos, O Cacto Vermelho, lançado em 1949, recebeu o Prêmio Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras. Seu primeiro romance, Ciranda de Pedra, publicado em 1954, foi bem recebido pela crítica e público, tornando-a nacionalmente conhecida.

Seu sucesso literário internacional veio com Antes do Baile Verde (1970), e posteriormente, As Meninas (1973) e Seminário dos Ratos (1977), pelos quais ganhou o Grande Prêmio Internacional Feminino para Estrangeiros, na França, o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro e o Pen Club do Brasil, respectivamente. Ingressou na Academia Paulista de Letras, em 1982, e, em 1985, ocupou a cadeira de número dezesseis da Academia Brasileira de Letras, tomando posse em 12 de maio de 1987. Naquele mesmo ano, tornou-se membro da Academia das Ciências de Lisboa. Seus outros sucessos incluem: Verão no Aquário (1964), Mistérios (1981), As Horas Nuas (1989) e Invenção e Memória (2000). Teve seus livros traduzidos para o alemão, espanhol, francês, inglês, italiano, polonês, sueco, tcheco, além de inúmeras edições em Portugal. Em paralelo à carreira literária, Lygia trabalhou como Procuradora do Instituto de Previdência do Estado de São Paulo, cargo que exerceu até a aposentadoria, e foi presidente da Cinemateca Brasileira, fundada pelo marido Paulo Emílio.

Na 17.ª edição do Prêmio Camões, maior láurea concedida a escritores de países com o português como a língua oficial, ocorrida em 2005, Lygia foi anunciada a vencedora. Ganhadora de todos os prêmios literários importantes do Brasil, homenageada nacional e internacionalmente, tornou-se, em 2016, aos 92 anos, a primeira mulher brasileira a ser indicada ao prêmio Nobel de Literatura.

Vida

Primeiros anos

Lygia de Azevedo Fagundes nasceu no dia 19 de abril de 1923 na rua Barão de Tatuí, do bairro de Santa Cecília, na cidade de São Paulo.[4] Quarta filha de Maria do Rosário Silva Jardim de Moura, conhecida como Zazita, uma pianista, e Durval de Azevedo Fagundes, procurador e promotor público, que também trabalhou como advogado distrital, comissário de polícia e juiz. Em função do trabalho do pai, a família mudou-se muitas vezes para várias cidades do estado, vivendo em Apiaí, Assis, Itatinga e Sertãozinho.[5] Nesses municípios, recebia o cuidado de babás dotadas de um farto repertório de lendas. Foram aquelas mulheres que deram à menina um sem-fim de histórias povoadas por mulas-sem-cabeça e lobisomens, o que a influenciou a criar seus próprios contos nas últimas páginas de seus cadernos escolares, os quais contava nas rodas de conversa.[4]

Por causa da mentalidade preconceituosa da década de 20, em que as mulheres não tinham condições de ousar determinadas profissões, sua mãe, uma excelente pianista, não prosseguiu na carreira que começou na adolescência, fazendo apenas os deveres domésticos considerados femininos. "Eu me lembro, era menina quando ia com a cesta para colher goiabas no quintal da nossa casa lá em Sertãozinho, onde meu pai era promotor. Minha mãe seria mais feliz se fosse pianista? E se ela continuasse estudando e compondo naquele antigo piano preto com os quatro castiçais, hein? Mas esta seria uma extravagância, uma ousadia e em vez de abrir o álbum de Chopin ela abria o caderno de receitas".[6] Seu pai era um jogador contumaz e sempre a levava consigo a um cassino em Santos "para dar sorte", mas ele sempre perdia as apostas.[3][4]

Depois de aprender a ler em casa, matriculou-se no Grupo do Arouche, onde ficou quatro anos. Era uma criança atrasada - não tinha base - e sofria porque não conseguia acompanhar a turma.[7] Aos oito anos, em 1931, ela mudou-se com a mãe para o Rio de Janeiro, onde permaneceram por cinco anos. Em 1936, seus pais se separaram, mas não se desquitaram, e isso fez com que Lygia e a mãe retornassem a São Paulo para uma vida de "classe média empobrecida", enquanto o pai continuava com suas andanças pelo interior paulista, e a garota se matriculasse na Escola Caetano de Campos, na qual passou a interessar-se por literatura, incentivada pelos seus maiores amigos, os escritores Carlos Drummond de Andrade e Érico Veríssimo, formando-se em 1937.[8][9]

Início da carreira literária, casamentos e reconhecimento

Lygia em 1945.

Aos 15 anos, financiada pelo pai, Lygia publicou seu primeiro livro, Porão e Sobrado (1938), o qual foi bem recebido pela crítica.[8] Cursou, em 1939, o pré-jurídico e a Escola Superior de Educação Física da Universidade de São Paulo (USP). Começou a participar ativamente de debates literários, nos quais conheceu Mário e Oswald de Andrade, Paulo Emílio Salles Gomes, entre outros nomes da cena literária brasileira. Fez parte da Academia de Letras da Faculdade e escreveu para os jornais Arcádia e A Balança. Em 1941, matriculou-se na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, sendo uma das seis mulheres em uma classe com mais de cem homens; lá, conheceu a poeta Hilda Hilst, que veio a ser a sua melhor amiga.[5][10] A escritora afirmou, em entrevista, que sofreu deboche por ser mulher e por estar na faculdade e querer seguir a profissão de escritora, considerada masculina, dizendo que os rapazes perguntavam para ela e suas outras colegas de classe com irônico espanto o que elas foram fazer lá, "casar?" Para ela, esse começo foi difícil era um desafio, pois estavam na moda as poetisas, mas escrever um livro com a liberdade de abordar todos os temas, era outra coisa. "Sim, foi um duro desafio porque o preconceito era antigo e profundo. Enfim, eu sabia que na opinião de Trotsky os que vão logo na primeira fila são os que levam no peito as primeiras rajadas. A solução era assumir a luta, sair da condição de mulher-goiabada, [que é] a mulher caseira, antiga 'rainha do lar' que sabe fazer a melhor goiabada no tacho de cobre".[6] Ela decidiu ser advogada por causa do pai, que também se formou na São Francisco. Para custear os estudos, começou a trabalhar na Secretaria de Agricultura. Seu segundo livro, Praia Viva, saiu em 1944, um ano antes de seu bacharelado.[5][8] Em 1949, três anos depois do término do curso de Direito, a escritora publicou, pela editora Mérito, seu terceiro livro de contos, O Cacto Vermelho, o qual recebeu o Prêmio Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras.[11][12]

Em 1947, casou-se com Gofredo Teles Júnior (filho de Gofredo da Silva Telles), seu professor de direito internacional privado, de quem adquiriu o sobrenome. Na ocasião, Gofredo era deputado federal, e em virtude desse fato, o casal mudou-se para o Rio de Janeiro, onde funcionava a Câmara Federal. Lygia exerceu a profissão na Secretaria de Agricultura durante algum tempo, mas a abandonou pelas letras, tornando-se colaboradora do jornal carioca A Manhã, para o qual escreveu uma coluna de crônicas semanal.[12] Em 1954, nasceu o único filho do casal, Goffredo da Silva Telles Neto.[5]

"Fico aflita só de pensar nas novas gerações lendo esses meus livros (os dois primeiros) que não têm importância. Eu não quero que os jovens percam tempo com eles. Quero que conheçam o melhor de mim mesma, o melhor que eu pude fazer, dentro das minhas possibilidades".

Lygia Fagundes Telles sobre Ciranda de Pedra.[10]

Com seu retorno à capital paulista, em 1952, começou a escrever seu primeiro romance, Ciranda de Pedra (1954), que a tornou conhecida nacionalmente.[12] Na fazenda Santo Antônio, em Araras - São Paulo, de propriedade da avó de seu marido, para onde viajava constantemente, escreveu várias partes desse romance. Essa fazenda ficou famosa na década de 20, pois lá reuniam-se os escritores e artistas que participaram do movimento modernista, tais como Mário e Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Anita Malfatti e Heitor Villa-Lobos. O crítico Antonio Cândido o considera o romance como o marco de sua maioridade como escritora, e ela própria, crítica severa de seus primeiros escritos, gosta de assinalar a publicação desse romance como sua estreia como escritora.[10] Os críticos Paulo Rónai, Otto Maria Carpeaux e Carlos Drummond de Andrade também aclamaram-no.[13] O livro foi adaptado com sucesso pela Rede Globo para a televisão em duas ocasiões: a primeira em 1981 e a segunda em 2008.[8][14] Em 1958, a escritora publicou Histórias do Desencontro, o qual ganhou o Prêmio Artur Azevedo do Instituto Nacional do Livro.[15]

Em 1960, Lygia separou-se, mas não divorciou-se, de Goffredo e, no ano seguinte, começou a trabalhar como advogada no Instituto de Providência do Estado de São Paulo. Ela trabalhou neste escritório e continuou suas publicações simultaneamente até 1991.[5] Seu segundo romance foi Verão no Aquário, lançado em 1963, que novamente foi bem recebido pela crítica e ganhou o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro. Naquele mesmo ano, casou-se com o crítico de cinema Paulo Emílio Sales Gomes, a quem descreveu como "um homem encantador, inteligente, vibrante, irônico". Foi um escândalo: embora oficialmente continuasse casada (a lei brasileira não admitia o divórcio) com Goffredo, ela juntou-se com Paulo Emílio, enfrentando a maledicência da sociedade da época. Viveram juntos até a morte do escritor, em 1977.[10] Com ele, escreveu o roteiro para cinema Capitu (1968), inspirado no romance Dom Casmurro, de Machado de Assis. Esse roteiro, que fora encomenda de Paulo César Saraceni, recebeu o Prêmio Candango, concedido ao Melhor Roteiro Cinematográfico.[5] Ainda em 1963, Lygia começou a escrever o romance As Meninas, inspirado no momento político em que passava o país. Em 1964 e 1965 foram publicados seus livros de contos Histórias Escolhidas e O Jardim Selvagem, respectivamente.[12]

Consagração internacional

Embora tenha estreado na década de 1940, foi apenas da década de 1970 que Lygia alcançou a plena maturidade de seus meios de expressão e marca o início da sua consagração na carreira, tornando-se um nome fundamental na ficção brasileira contemporânea.[16] Publicou, então, alguns de seus livros mais importantes, os quais foram um êxito no exterior e traduzidos para várias línguas.[6] Antes do Baile Verde (1970), cujo conto que dá título ao livro, foi um sucesso internacional, conquistando, em Cannes, o Grande Prêmio Internacional Feminino para Estrangeiros, em língua francesa, pelo qual concorreram 360 manuscritos de 21 países.[17] O escritor Caio Fernando Abreu avaliou que Lygia "[é] basicamente uma contadora de histórias, no melhor e mais vasto significado da expressão".[18] Antonio Candido, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, ressaltou que a escritora "sempre teve o alto mérito de obter, no romance e no conto, a limpidez adequada a uma visão que penetra e revela, sem recurso a qualquer truque ou traço carregado, na linguagem ou na caracterização".[6] O professor e ensaísta Silviano Santiago afirmou que "uma definição curta e sucinta dos contos de Lygia dirá que a característica mais saliente deles é a dificuldade que têm os seres humanos de estabelecer laços".[19] O revisor e crítico Paulo Rónai também opinou favoravelmente sobre os dezoito contos de Antes do Baile Verde: "essas obras-primas, de tão fremente inquietação íntima e que exalam um desespero tão profundo, ganham a clássica serenidade das formas de arte definitivas".[20] Na versão original, é apresentada uma carta escrita por Carlos Drummond de Andrade, em 1966, à Lygia em relação a obra:[21]

Rio de Janeiro, 28 de janeiro de 1966.
Lygia querida:
[...] O livro está perfeito como unidade na variedade, a mão é segura e sabe sugerir a história profunda sob a história aparente. Até mesmo um conto passado na China você consegue fazer funcionar, sem se perder no exotismo ou no jornalístico. Sua grande força me parece estar no psicologismo oculto sob a massa de elementos realistas, assimiláveis por qualquer um. Quem quer a verdade subterrânea das criaturas, que o comportamento social disfarça, encontra-a maravilhosamente captada por trás da estória. Unir as duas faces, superpostas, é arte da melhor. Você consegue isso. Tão diferente da patacoada desses contistas que se celebram a si mesmo nos jornais e revistas e a gente lê e esquece o que eles escreveram! Conto de você fica ressoando na memória, imperativo.
Tchau, amiga querida. Desejo para você umas férias tranquilas, bem virgilianas.

Em 1973, Lygia ganhou vários e importantes prêmios brasileiros com o romance As Meninas, publicado em Nova Iorque, em 1982, com o título de The girl in the photograph.[22] O romance recebeu o Prêmio Jabuti; o Prêmio Coelho Neto, da Academia Brasileira de Letras e o prêmio de Ficção da Associação Paulista de Críticos de Arte.[9][12] Ele conta a história de três jovens no início da década de 1970, um momento difícil na história política do Brasil devido à repressão da ditadura militar. Sobre a obra, Otto Maria Carpeaux afirmou: "Lygia tem realmente algo da delicadeza atmosférica de uma Katherine Mansfield. A diferença é apenas a seguinte: ela também sabe escrever romance e As Meninas é mesmo um romance de alta categoria".[23] A escritora estava entre os intelectuais que foram para Brasília em 1977, para entregar o "Manifesto dos Intelectuais". O protesto foi a maior manifestação de intelectuais, desde 1968, contra o regime militar e censura da imprensa.

A censura vinha exorbitando em relação ao teatro, ao cinema, às artes plásticas, livros e jornais. Nós fomos nos sentindo frágeis. É bonito isso, o sentimento do homem fragilizado politicamente, a sua vontade de se reunir, de formar seus círculos. Em 1976, jovens escritores em Belo Horizonte, em mesas de bar, já estavam se levantando, tentando também armar não se sabe bem o quê, não se sabe se um manifesto ou um memorial. As ações estavam coincidindo, embora não houvesse ainda entre nós contato mais profundo. O movimento de Belo Horizonte acabou liderando grupos esparsos de São Paulo e do Rio, que tinha à frente Rubem Fonseca e José Louzeiro. Eu me sentia dentro de uma nova inconfidência, de origem mineira e âmbito nacional.[9]
Lygia falando sobre o motivo do manifesto
Lygia Fagundes Telles, sem data. Arquivo Nacional.

Em 1977, foi galardoada pelo Pen Club do Brasil, pela sua coletânea Seminário dos Ratos,[24] que fora elogiada por Hélio Pólvora, o qual ressaltou que a escritora começa a projetar dimensões supra-reais, considerando a obra uma reunião de contos "fantásticos ou quase".[11] Naquele ano participou da coletânea Missa do Galo: variações sobre o mesmo tema, livro organizado por Osman Lins a partir do conto clássico de Machado de Assis. Ela integrou o corpo de jurados do Concurso Unibanco de Literatura, ao lado dos escritores e críticos literários Otto Lara Resende, Ignácio de Loyola Brandão, João Antônio Ferreira Filho, Antônio Houaiss e Geraldo Galvão Ferraz.[12] Em setembro do mesmo ano, faleceu Paulo Emílio Salles Gomes. A escritora assumiu, face ao ocorrido, a presidência da Cinemateca Brasileira, que Paulo ajudara a fundar.[5]

No ano de 1978, a editora Cultura lançou Filhos Pródigos. Essa coletânea de contos foi republicada com o título de um de seus contos A Estrutura da Bolha de Sabão (1991). A Rede Globo levou ao ar um Caso Especial baseado no conto "O jardim selvagem".[9] Sua próxima publicação, A Disciplina do Amor (1980), foi bem recebida pela crítica e ganhou o Prêmio Jabuti e o Troféu APCA da Associação Paulista de Críticos de Arte.[25] O jornalista e autor Wladir Dupont escreveu que A Disciplina do Amor trata-se de "um conjunto de contos de estranho e belo mosaico, de fragmentos aparentemente desconexos".[11] Ele considerou que a escritora atravessa muito bem a fronteira entre o sonho e a realidade, sendo a condição humana o tema que privilegia no livro. Fábio Lucas ressaltou que afloram mais contundentemente neste livro as reivindicações feministas que apareciam brandas nas [publicações da escritora] anteriores.[11] Dupont ainda faz um paralelo de Lygia com Hilda Hilst, Adélia Prado, Rachel Jardim, Nélida Piñon e Lya Luft: "vigorosas em estilos heterogêneos", chamando a atenção para essas literaturas femininas e singulares. Ele sublinha que, já nos primeiros passos de sua carreira e na análise do contexto intelectual em que Lygia se situava, percebia o embrião da grande escritora que ela seria.[11] Em uma entrevista, Lygia afirmou que "A Disciplina do Amor é meu melhor livro".[26][27] Em 1981, a escritora lançou Mistérios, uma coletânea de dezenove contos fantásticos antigos e atuais, originada de uma edição na Alemanha, publicada sob o título Contos Fantásticos.

Academia Brasileira de Letras — atualidade

Em 1982, foi eleita para a cadeira 28 da Academia Paulista de Letras e, em 1985, por 32 votos a 7, foi eleita, em 24 de outubro, para ocupar a cadeira 16 da Academia Brasileira de Letras, na vaga deixada por Pedro Calmon, tomando posse em 12 de maio de 1987.[12]

"Às vezes, a esperança. O homem vai sobreviver, e essa certeza me vem quando vejo o mar, um mar que talhou com tanta poluição, embora! mas resistindo. Contemplo as montanhas e fico maravilhada porque elas ainda estão vivas. Sei que é preciso apostar e de aposta em aposta cheguei a esta Casa para a harmoniosa convivência com aqueles que apostam na palavra."

— Trecho do "Discurso de Posse", 1987.[28]

Em 26 de novembro de 1987, foi feita Comendadora da Ordem do Infante D. Henrique de Portugal.[29] Questões relacionadas ao envelhecimento e à solidão estão presentes em seu trabalho seguinte, o romance As Horas Nuas (1989), no qual o leitor segue o desnudamento da personagem Rosa Ambrósio, com suas frustrações expostas nas memórias que ela dita num gravador.[22] Ainda em 1989, a escritora recebeu a Comenda Portuguesa Dom Infante Santo.[12] Em 1990, seu filho, Goffredo Neto, realizou o documentário Narrarte, sobre a vida e a obra da mãe. Em 1991, aposenta-se como funcionária pública.[12] A Rede Globo de Televisão apresentou, em 1993, dentro da série Retrato de Mulher, a adaptação da própria escritora do seu conto "O moço do saxofone", que faz parte do livro Antes do baile verde, num episódio denominado "Era uma vez Valdete". Lygia participou da Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha, em 1994, e lançou, no ano seguinte, um novo livro de contos, A Noite Escura e Mais Eu, o qual ganhou os prêmios de Melhor Livro de Contos, concedido pela Biblioteca Nacional; Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro e Prêmio APLUB de Literatura.[12]

Em 1996, estreou o filme As Meninas, de Emiliano Ribeiro, baseado no romance homônimo da escritora. Em maio de 1997, Lygia participou da série O escritor por ele mesmo, projeto do Instituto Moreira Salles (IMS) que compreendia um depoimento ao vivo, nas sedes do IMS, e a leitura de textos do autor, feita por ele próprio, gravados em CD anteriormente e distribuídos ao público no dia do depoimento. Para esse projeto, Lygia gravou a leitura de dois contos: "A estrutura da bolha de sabão" e "As formigas". Em março do ano seguinte, o IMS a homenageou com a edição do volume nº 5 dos Cadernos de Literatura Brasileira. A edição contou com a reprodução do primoroso conto "Que se chama solidão", que, ao lado de outros também inéditos, seriam incluídos posteriormente em Invenções e memória.[22] A editora Rocco adquiriu os direitos de publicação de toda a obra passada e futura da escritora. No ano seguinte, a convite do governo francês, a brasileira participou do Salão do Livro da França.[7]

Lygia na inauguração da Fachada do Edifício da Academia Paulista de Letras ocorrida no dia 19 de outubro de 2017.

Em 2000, publicou o livro Invenção e Memória, o qual foi agraciado com o Prêmio Jabuti na categoria Ficção, o "Golfinho de Ouro" e o Grande Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte,[28] e é considerado pela escritora também como seu melhor livro. "Sou como as mães em relação a seus filhos: o caçula é sempre o que recebe mais atenção." Segundo a autora, a recepção de Invenção e Memória foi uma surpresa. Na sua opinião, A Noite Escura e Mais Eu (1995), também de contos, tinha mais preocupações estéticas. Segundo ela, Invenção e Memória foi um livro que pegou as pessoas e também as novas gerações, "por uma questão de amor mesmo. [...] Se os jovens me aceitam, eu não vou me perder; quer dizer, eu posso me perder na morte, mas a palavra escrita fica."[30] Em março do mesmo ano, ela recebeu o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade de Brasília.[31]

Em maio de 2005, Lygia recebeu o Prêmio Camões, o mais importante da literatura em língua portuguesa, pelo conjunto de suas obras,[5][32] distinguida pelo júri composto por Antônio Carlos Sussekind (Brasil), Ivan Junqueira (Brasil), Agustina Bessa-Luís (Portugal), Vasco Graça Moura (Portugal), Germano de Almeida (Cabo Verde) e José Eduardo Agualusa (Angola).[33] Sobre a premiação, Urbano Tavares Rodrigues declarou: "Lygia [...] teve finalmente o Prêmio Camões, que há muito merecia, pela infinita riqueza da sua obra literária, tão brasileira e universal, tão subtil e mágica, tão realista na análise social e na indagação do mais fundo e contraditório dos seres humanos…quero agora enviar-lhe, com este artigo, um abraço grande, impregnado de toda a minha admiração pela escritora multiforme, hiper consciente na sua reinvenção irónica e comovida do mundo, solidária na sua escrita".[34] Seu trabalho mais recente foi Um Coração Ardente, publicado em 2012.[35] Em fevereiro de 2016, foi indicada ao Prêmio Nobel de Literatura pela União Brasileira de Escritores.[36][37]