Luiz Inácio Lula da Silva

Luiz Inácio Lula da Silva
35.º presidente do Brasil
Período1º de janeiro de 2003
até 31 de dezembro de 2010
Vice-presidenteJosé Alencar
Antecessor(a)Fernando Henrique Cardoso
Sucessor(a)Dilma Rousseff
Ministro-chefe da Casa Civil do Brasil
Período17 de março de 2016
até 18 de março de 2016[nota 1]
PresidenteDilma Rousseff
Antecessor(a)Jaques Wagner
Sucessor(a)Eva Chiavon (interina)
Presidente nacional do Partido dos Trabalhadores
Período15 de julho de 1990
até 24 de janeiro de 1994
Antecessor(a)Luiz Gushiken
Sucessor(a)Rui Falcão
Deputado federal por São Paulo
Período1º de fevereiro de 1987
até 31 de janeiro de 1991
Presidente nacional do Partido dos Trabalhadores
Período9 de agosto de 1980
até 17 de janeiro de 1988
Antecessor(a)Cargo criado
Sucessor(a)Olívio Dutra
Dados pessoais
Nascimento27 de outubro de 1945 (73 anos)
Caetés, Pernambuco
Nacionalidadebrasileiro
CônjugeMaria de Lurdes da Silva (1969–1971)
Marisa Letícia Rocco Casa (1974–2017)
FilhosMarcos Cláudio
Lurian Lula da Silva
Fábio Luís
Sandro Luís
Luís Cláudio
PartidoPartido dos Trabalhadores
ReligiãoCatólico romano[3][4][5]
ProfissãoMetalúrgico
AssinaturaAssinatura de Luiz Inácio Lula da Silva

Luiz Inácio Lula da Silva, nascido Luiz Inácio da Silva e mais conhecido como Lula (Caetés, 27 de outubro de 1945[nota 2]), é um político, ex-sindicalista e ex-metalúrgico brasileiro, o 35.º presidente do Brasil entre 2003 e 2011. Membro fundador e presidente de honra do Partido dos Trabalhadores, elegeu-se presidente da República na eleição de 2002, sendo reeleito em 2006.

De origem pobre, ainda era criança quando sua família migrou de Pernambuco para São Paulo. Lá, foi metalúrgico e sindicalista, período no qual recebeu a alcunha "Lula", forma hipocorística de "Luís". Durante a ditadura militar, organizou grandes greves de operários no ABC Paulista. Em 1986, elegeu-se deputado federal pelo estado de São Paulo com um recorde de votos e, em 1989, concorreu à presidência da República, perdendo no segundo turno para Fernando Collor de Mello por 53-47 por cento. Também foi candidato a presidente outras duas vezes, em 1994 e 1998, perdendo ambas as eleições no primeiro turno para Fernando Henrique Cardoso.

Empossado presidente da República em janeiro de 2003, o governo Lula teve como marcos a introdução de programas sociais, como o Bolsa Família e o Fome Zero, ambos reconhecidos pela Organização das Nações Unidas como os programas que possibilitaram a saída do país do mapa da fome. Durante seus dois mandatos, empreendeu reformas e mudanças radicais que produziram transformações sociais e econômicas no Brasil, que triplicou seu PIB per capita e alcançou o grau de investimento pela agência de classificação de risco Standard & Poor's. Na política externa, desempenhou um papel de destaque, incluindo atividades relacionadas ao programa nuclear do Irã e ao aquecimento global. Lula foi considerado um dos políticos mais populares da história do Brasil e, enquanto presidente, foi um dos mais populares do mundo. Sua chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, elegeu-se presidente na eleição de 2010.

Ao ser sucedido por Dilma em janeiro de 2011, Lula, que deixou o governo com mais de 90 por cento de aprovação popular, manteve-se ativo no cenário político e passou a dar palestras no Brasil e no exterior. Em outubro de 2011, foi diagnosticado com câncer de garganta e submetido a quimioterapia, levando a uma recuperação bem-sucedida. Em 2016, quando o governo Dilma passava por uma grave crise política, a presidente nomeou-o como seu chefe da Casa Civil. No entanto, a nomeação, apontada por juristas e pela imprensa como uma manobra visando evitar o impeachment da presidente e a obtenção de foro privilegiado — Lula era investigado na Operação Lava Jato — foi suspensa pela Justiça. Em julho de 2017, foi condenado em primeira instância a nove anos e seis meses de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro. Com a confirmação em segunda instância da sentença, que inclusive aumentou a pena, teve sua prisão decretada e entregou-se para a Polícia Federal em abril de 2018, estando atualmente detido na carceragem da instituição.

Início de vida

Infância

Garanhuns, no Agreste de Pernambuco, consta como cidade natal de Lula em seu registro de nascimento; porém, Caetés, local de origem do ex-presidente, foi desmembrado de Garanhuns, e passou a ser oficialmente o seu município de nascimento.

Luiz Inácio da Silva é o sétimo dos oito filhos de Aristides Inácio da Silva e Eurídice Ferreira de Melo, um casal de lavradores iletrados que vivenciaram a fome e a miséria na zona mais pobre de Pernambuco.[6][7] Nasceu em 27 de outubro de 1945 em Caetés (até 1964 um distrito do município de Garanhuns[8]), interior pernambucano. Faltando poucos dias para sua mãe dar à luz,[9] seu pai decidiu tentar a vida como estivador em Santos, levando consigo Valdomira Ferreira de Góis, uma prima de Eurídice, com quem formaria uma segunda família. Com Valdomira Aristides teve dez filhos, fora alguns que possam ter morrido. Contando os 12 que teve com Eurídice – quatro morreram ainda bebês – a família conta que Aristides teve pelo menos 22 filhos conhecidos.[10][11]

Em dezembro de 1952, quando Lula tinha apenas sete anos de idade, Eurídice decidiu migrar para o litoral do estado de São Paulo com seus filhos para se reencontrar com o marido (acreditando que seu marido fizera esse pedido, quando na verdade seu filho Jaime, que já morava com o pai, escreveu dizendo que esse era o desejo de Aristides). Após treze dias de viagem num transporte conhecido como "pau-de-arara", chegaram ao distrito de Vicente de Carvalho (àquela época denominado Itapema), no município de Guarujá, onde tiveram que dividir a convivência de Aristides com sua segunda família (Aristides já os havia visitado no nordeste em 1950, quando inclusive apresentou seus novos filhos para sua primeira família). A convivência difícil com Aristides (que era extremamente rigoroso com os filhos) levou Eurídice a sair de casa com os filhos, morando inicialmente em uma casa precária muito perto da de Aristides e, mais tarde, em 1954, mudando-se para a capital, onde foi viver num cômodo atrás de um bar localizado na Vila Carioca, bairro da cidade de São Paulo. Lula e seu irmão José Ferreira de Melo – o Frei Chico – ficaram morando algum tempo ainda com o pai, junto com sua segunda família, mudando-se para São Paulo em 1956. Após a separação, Lula quase não se reencontrou mais com seu pai, que morreu em 1978, sendo enterrado como indigente (Lula e seus irmãos só souberam da morte do pai vários dias após o enterro).[11]

Educação e trabalho

Memorial aos retirantes no Parque Dona Lindu, parque localizado no Recife, projetado por Oscar Niemeyer, que recebeu esse nome em homenagem à mãe de Lula. O memorial, concebido pelo escultor pernambucano Abelardo da Hora, representa Dona Eurídice e seus oito filhos.

Durante o período em que as duas famílias de seu pai conviveram, Lula foi alfabetizado no Grupo Escolar Marcílio Dias, apesar da falta de incentivo do pai, analfabeto, que entendia que seus filhos não deveriam ir à escola, mas apenas trabalhar. Ainda quando morava no Guarujá, aos 7 anos, trabalhou vendendo laranjas no cais. Tinham que andar quilômetros para buscar água de poço para a segunda mulher de Aristides. Aos domingos, era obrigado pelo pai a ir ao mangue para retirar lenha, marisco e caranguejo.[11][12]

Já em São Paulo, a fim de contribuir na renda familiar, começou a trabalhar, aos doze anos, em uma tinturaria. Durante o mesmo período também trabalhou como engraxate e auxiliar de escritório. Aos catorze começou a trabalhar nos Armazéns Gerais Colúmbia, onde teve a carteira de trabalho assinada pela primeira vez,[13] permanecendo ali por seis meses. Ainda em 1961, foi aluno no curso de tornearia mecânica na escola SENAI Roberto Simonsen, no bairro do Ipiranga. Segundo diria anos depois, ali ele conquistou seu direito à cidadania.[14] Com esta idade, se viu obrigado a deixar a escola e foi trabalhar em uma siderúrgica que produzia parafusos.[7] Foi ali que, em 1964, esmagou seu dedo em um torno mecânico, tendo que esperar horas até que o dono da fábrica chegasse e o levasse ao médico, que optou por cortar o resto do dedo mínimo da mão esquerda. A mutilação o deixou alguns anos com complexo. Ficou 11 meses na empresa e, devido ao acidente, ganhou uma indenização de 350 mil cruzeiros, que utilizou para comprar móveis para sua mãe e um terreno.[11][15][16]

Trabalhou então na Fris-moldu-car, como aprendiz do Senai[17] por seis meses, sendo demitido por se ter recusado a trabalhar aos sábados. No ano de 1965, ficou muito tempo desempregado, assim como seus irmãos, época em que passaram por privações, sobrevivendo de trabalhos eventuais ("bicos"). Em 1966, foi admitido nas Indústrias Villares, uma grande empresa metalúrgica de São Bernardo do Campo, no ABC Paulista.[18][19] Em 1973, fez um curso na AFL-CIO nos Estados Unidos sobre sindicalismo.[20]

Operário e sindicalista

Em 1968, durante a ditadura militar, filiou-se ao Sindicato de Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema.[7] Lula relutou em filiar-se e candidatar-se, pois à época tinha uma visão negativa do sindicato e seu grande lazer era jogar futebol. Apesar de não ter qualquer experiência sindical, já era apontado como pessoa com espírito de liderança e carisma. Convencido a integrar a chapa, sob influência de seu irmão, José Ferreira da Silva – conhecido como Frei Chico, militante do Partido Comunista Brasileiro[21] e do Sindicato dos Metalúrgicos de São Caetano do Sul[22] – Lula foi eleito, em 1969, para a diretoria do sindicato dos metalúrgicos da cidade, dentre os suplentes,[23] continuando a exercer suas atividades de operário.

Em 1972, elegeu-se 1º secretário do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema,[24] continuando a exercer suas atividades de operário. Na época, foi criada, no sindicato, a Diretoria de Previdência Social e FGTS, que lhe foi atribuída.[25] Ao ser eleito, ficou à disposição do sindicato, cessando suas atividades de operário. Sua atuação na diretoria lhe deu grande destaque, sendo então eleito presidente do mesmo sindicato em 1975. Ganhou projeção nacional ao liderar a reivindicação em 1977 da reposição aos salários de índice de inflação de 1973, após o próprio governo reconhecer que aquele índice havia sido bem maior que o inicialmente divulgado e então utilizado para os reajustes salariais. Apesar de ampla cobertura na imprensa, ainda na vigência do AI-5, o governo não cedeu aos pedidos. Reeleito em 1978, passou a liderar as negociações e as greves de metalúrgicos de sua base que passaram a acontecer em larga escala a partir de 1978 e que haviam cessado de ocorrer desde o endurecimento repressivo da ditadura militar na década anterior.[11]

Por liderar as greves dos metalúrgicos do Região do ABC no final dos anos 1970 e início dos anos 1980, Lula foi preso, cassado como dirigente sindical e processado com base na Lei de Segurança Nacional.[24]

Durante o movimento grevista, a ideia de fundar um partido representante dos trabalhadores amadureceu e, em 1980, Lula juntou-se a sindicalistas, intelectuais, representantes dos movimentos sociais e católicos militantes da Teologia da Libertação para formar o Partido dos Trabalhadores (PT), do qual foi o primeiro presidente.[26]