Língua japonesa

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Japonês (日本語)
Pronúncia:Nihongo
Falado em:Japão, Brasil, Estados Unidos,[1] Havaí, Guam, Ilhas Marshall, Palau, Peru, Taiwan, entre outros países.
Região:Ásia
Total de falantes:125 milhões (2010)
Posição:9a no mundo
Família:Altaico (controverso)
 Japônico
  Japonês
Escrita:kanji, hiragana, katakana
Estatuto oficial
Língua oficial de:Japão (de facto), Angaur (Palau)
Regulado por:Governo do Japão
Códigos de língua
ISO 639-1:ja
ISO 639-2:jpn
ISO 639-3:jap
Japanese language extension.PNG Ásia - Idioma Japonês.PNG

A língua japonesa é o idioma falado no Japão e em outros lugares do mundo onde se encontram comunidades de imigrantes e descendentes de japoneses, ou nikkei. A maior dessas comunidades fora do Japão encontra-se no Brasil, seguida pelos Estados Unidos e China.

É uma língua aglutinante e caracteriza-se por um sistema complexo de construções honoríficas, que refletem a natureza hierárquica da sociedade japonesa, com formas verbais e vocabulários particulares que variam de acordo com o status relativo entre interlocutores. O repertório de fonemas da língua japonesa é relativamente pequeno, e tem diferenciação léxica baseada em um sistema de acento tonal.

O nome japonês para a língua é nihongo (日本語?). O kanji 日 designa o sol, e o kanji 本, aqui, significa "origem". Essa designação para o Japão vem da China devido à posição geográfica relativa entre os dois países — é daí que vem a expressão País do Sol Nascente. Os kanjis entraram na sua maioria por intermédio da Coreia.

A língua japonesa sofreu influência maciça da língua chinesa por um período de, no mínimo, 1.500 anos. Muito de seu vocabulário foi importado da língua chinesa ou criado com base em modelos chineses. Sua gramática é semelhante à da língua coreana e há indícios de que são correlatas.


História

Antes da chegada do sistema de escrita chinesa ao Japão, entre o século V e VII[2], a literatura japonesa baseava-se principalmente na sua tradição oral. Em várias sociedades sem sistemas de escrita, esta situação proporciona o surgimento de histórias e canções a partir de mitos, sagas, lendas, épicos e poemas.[3] O Japão possuía três tipos de sociedades diferentes: Ainu, Ryūku e Yamato.[4]

Os Ainus habitavam as ilhas do norte do arquipélago, no caso, Hokkaido, Sacalina e Curilas[5], enquanto os Ryūku e Yamato ocupavam as restantes ilhas. Os Ainu eram uma sociedade ligeiramente mais atrasada, ainda recoletora, e a sua língua era bastante diferente dos outros dois grupos. Os Ryūku apresentavam algumas semelhanças com os Yamato, podendo afirmar-se ser a mesma língua, apenas um dialeto diferente.[6]

“O sistema de som da língua japonesa do período Nara (na região Yamato) tinha oitos sons distintos de vogais e consonantes, que, nalguns aspetos, diferem dos sons de hoje”.[7] A língua dos Yamato veio a tornar-se ao que se chama hoje de japonês, mas não sem a influência chinesa.

O japonês e o chinês têm diferentes origens: “os seus sistemas de som, vocabulário e gramática são diferentes.”[8] Desta forma, quando o sistema de escrita chinês chegou ao Japão era necessário modifica-lo. Sendo que um carater chinês representava uma palavra monossilábica, só eram possíveis duas adaptações: a) o significado ser eliminado e o som mantido; b) o significado ser mantido e o som eliminado. Ambas as alternativas foram adotadas, como refere Shuichi Kato: “Os sons chineses foram largamente retidos, por exemplo, na história Kojiki (Record of Ancient Matters) e em Man’yōshū e para algumas palavras na história do século VIII Nihon Shoki (Chronicles of Japan).[9] A esta adaptação deu-se o nome de Man’yōgana.[10]

A escrita chinesa (kanbun) não foi só adotada nestas obras, mas também em documentos oficiais, assim como em gazetas locais (fudoki).

Da escrita chinesa (kanbun) à escrita japonesa (kana)

A escrita chinesa chegou ao Japão entre o século V e VII. No entanto, a escrita foi adaptada à já existente língua japonesa, através da adaptação do som ou significado. Mas para lerem os textos escritos em chinês, os japoneses desenvolveram um método que se aproximava gramaticalmente da sua língua, e desta forma tornava os textos mais compreensivos:

“Os japoneses também conceberam um método de ler poesia e prosa chinesas usando marcas de leitura para indicar como as frases se organizavam na ordem mais semelhante ao japonês, e forneciam anotações em inflexões (japonesas) e finais de palavras.”[11]

Esta adaptação do chinês teve grande influência no desenvolvimento da língua japonesa. Não só em termos gramaticais mas também de enriquecimento vocabular, e até de desenvolvimento de estilos literários. A utilização de kanbun a dada altura (quando o sistema de escrita japonês tomou outra direção) tornou-se mais uma escolha do que uma necessidade, pois começou a ser visto como um estilo literário, ou seja, mais uma ferramenta de criação literária:

“O Konjaku monogatari (Tales of Now and Then) e o Meigetsuki (Bright Moon Records) são bons exemplos deste fenómeno. De facto, o nascimento de dois estilos literários, um com uma influência chinesa pronunciada e o outro com quase nenhuma e bem perto da linguagem coloquial, enriqueceram a literatura japonesa, consideravelmente.”[12]

Meigetsuki, com o seu estilo mais coloquial - pelo facto de ser um diário - trouxe uma nova perspetiva à forma de escrita, onde o chinês clássico imperava, e continuou a dominar ao longo dos anos, mesmo até ao período Edo (1603-1867):

“Durante o período Edo, a língua chinesa, no Japão, tinha uma posição semelhante ao latim na Europa, na Era Medieval. Era o veículo de toda a literatura séria, e, mais especificamente, da história. Os letrados japoneses atingiam um alto nível de composição no dialeto literário da dinastia Han, um período que pode corresponder, para a China, à era de Augusto, em Roma.”[13]

No entanto, apesar deste domínio do chinês clássico na escrita, já a partir do século XII há uma evolução da língua japonesa, quando começam a aparecer os textos sōgana (sistema arcaico de escrita silábica, entre o man’yōgana e o hiragana). Um dos primeiros textos sōgana encontra-se num pergaminho do século XII (Genji monogatari emaki) contendo cenas ilustradas do romance Genji monogatari.[14] A exploração do sistema de escrita e dos estilos literários desenvolveu-se ao longo dos anos, sendo que o debate sempre foi muito intenso, não havendo consenso de que “tipo” de japonês se queria adotar, e por essa razão existiram vários movimentos. Um deles defendia a inclusão do inglês como uma das línguas oficiais:

"A marcha da civilização moderna no Japão já atingiu o coração da nação – a língua inglês que a segue, suprime o uso do japonês e chinês. O poder comercial do inglês, que agora domina o mundo, leva o nosso povo a algum conhecimento dos seus caminhos e hábitos comerciais. A necessidade absoluta do domínio do inglês foi-nos forçado.” (Mori Arinori - mais tarde o 1º ministro da educação no governo Meiji -, no livro “Education in Japan”, de 1873)."[15]

Outros defendiam a romanização da escrita japonesa, enquanto outros queriam eliminar completamente o uso de kanji, adotando apenas o kana.

“Em 1884, Romajikai, o primeiro lobby a promover a romanização do japonês, foi estabelecido, e influenciou a política da língua japonesa na Era Meiji. Havia outro grupo que valorizava a cultura japonesa inerente e tinha uma forte ligação ao Kana como substituto do Kanji. No último período da Era Edo, Maejima Hisoka submeteu um relatório ao último Shogun Tokugawa Yoshinobu, no qual, ele defendia a abolição do Kanji e a sua substituição pelo Kana.”[16]

A partir do final dos anos 80, o governo cria uma reforma onde a utilização de kanji, hiragana e katakana é standardizada, com o nome de Kanji-Kana Majiri Bun:

“O debate aceso entre Kanji e Kana foi naturalmente extinguido quando o Kanji-Kana Maijiri Bun, uma mistura entre Kanji e Kana, foi estabelecido como a forma base da escrita japonesa. Na fase seguinte, depois de 1890, a discussão evoluiu para a reforma do estilo de escrita literário, e muitos trabalhos experimentais por, principalmente, escritores realistas, começaram a aparecer uns atrás dos outros.”[17]

Isto permitiu o desenvolvimento de novos estilos literários, devido ao facto de a eliminação do chinês clássico, em abundância, permitir um novo desenvolvimento do estilo coloquial, que ainda não era respeitado como estilo literário “sério”. É então que em 1887 surge um dos grandes clássicos japoneses, escrito em genbun-itchi (junção entre o estilo literário e o estilo coloquial), Ukigumo[18]. Não se pode afirmar que existe uma grande mudança a nível de alteração do estilo de carateres, mas a maior diferença é no facto de o número de carateres em kanji ser reduzido, introduzindo mais carateres japoneses. Algo bastante importante como refere Scott Miller, pois o japonês clássico continuava a ser inacessível para vários grupos:

“Estes trabalhos, escritos no estilo e na linguagem do japonês clássico, eram elegantes, mas inacessíveis às massas, as quais, o discurso coloquial tinha derivado das formas escritas do japonês de séculos anteriores. Um dos desafios centrais, na altura, para uma literatura japonesa moderna, especificamente, e cultura, no geral, era como unificar a linguagem falada e escrita.”[19]

Com esta simplificação da escrita, vários autores seguiram esta corrente, no entanto continuaram a existir vários grupos contra este estilo literário mais “leve”:

“Outros escritores rapidamente juntaram-se ao movimento chamado genbun itchi (unificação da escrita e linguagem), onde havia oposição ao longo da década de 1910. Editoras adotaram o novo estilo para jornais literários para as crianças, como Akai Tori, e para as outras publicações para as massas, o que levou à sua adoção geral. No entanto, A utilização dos estilos clássicos continuaram entre alguns autores, por várias décadas”.[20]

É de ressaltar a importância dos contadores profissionais de histórias que inspiraram, em grande parte, esta massificação da literatura japonesa:

“Futabatei Shimei é geralmente creditado pelo primeiro uso, com sucesso, do estilo vernacular, na sua novela Ukigumo (1887; tr. The Drifting Clouds, 1967). No entanto, Futabatei dá crédito ao seu modelo de narrativa coloquial, o contador de histórias rakugo, San’yuutei Enchoo, o qual, com a sua colaboração com Takusari Kooki (inventor de sokki, taquigrafia japonesa), permitiu aos contadores de histórias rakugo terem as suas obras publicadas nos jornais.”[21]

Kokugo (língua nacional do Japão)

Através de uma modernização da língua japonesa criou-se o que se chama de kokugo – língua nacional do Japão. Esta criação foi feita por educadores e linguistas ocidentais. B.H. Chamberlain, um filologista britânico, foi um dos responsáveis por esta evolução, ao defender uma aproximação ao estilo coloquial da linguagem, em 1883.[22]

“Inicialmente, os pensadores japoneses achavam difícil conceber tal língua. No entanto, a união da língua japonesa precisava de ser assumida antes, para que a língua e a nação pudessem ser unidas.”[23]

Kokugo já era utilizado desde a época Edo, mas pretendia apenas referir-se à língua japonesa como forma de se diferenciar das línguas estrangeiras, não detinha ainda um sentido nacionalista, como veio a ter a partir desta época.