Império Português



O Império Português ou Império Colonial Português [nota 1] foi o primeiro império global[1] da história,[2][3][4] sendo considerado o mais antigo dos impérios coloniais europeus modernos, abrangendo quase seis séculos de existência, a partir da Conquista de Ceuta, em 1415, até a devolução da soberania sobre Macau à China, em 1999. O império espalhou-se ao longo de um vasto número de territórios que hoje fazem parte de 53 países diferentes. É importante ressaltar que, seja durante o regime monárquico, seja durante o regime republicano, Portugal jamais se autodenominou oficialmente como um "império".

Marinheiros portugueses começaram a explorar a costa da África em 1419, utilizando os recentes desenvolvimentos em áreas como a navegação, a cartografia e a tecnologia marítima, como a caravela, com o objetivo de encontrar uma rota marítima para o lucrativo comércio de especiarias do oriente. Em 1488, Bartolomeu Dias dobrou o Cabo da Boa Esperança e, em 1498, Vasco da Gama chegou à Índia. Em 1500, Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil, na costa atlântica sul-americana. Nas décadas seguintes, os marinheiros lusitanos continuaram a explorar o litoral e as ilhas do leste da Ásia, estabelecendo fortes e feitorias. Em 1571, uma série de postos avançados ligava Lisboa a Nagasáqui, no Japão, ao longo das costas da África, Médio Oriente, Índia e Ásia. Esta rede comercial trouxe grande riqueza para o Reino de Portugal.

Entre 1580 e 1640, o Reino de Portugal e o Império Espanhol compartilharam os mesmos reis, em uma união pessoal das coroas dos dois países. Embora os dois impérios tenham continuado a ser administrados separadamente, as colónias portuguesas se tornaram alvo de ataques de três potências europeias rivais e hostis à Espanha, que ambicionavam os sucessos ibéricos no exterior: a Holanda, a Grã-Bretanha e a França. Com uma população menor, Portugal não foi capaz de defender eficazmente sua sobrecarregada rede de postos comerciais e o império começou a entrar em um longo e gradual processo de declínio.[5] Perdas significativas para os holandeses na Índia Portuguesa e no sudeste da Ásia durante o século XVII trouxeram fim ao monopólio do comércio português no Oceano Índico. O Brasil, que havia se tornado a colónia mais valiosa de Portugal, tornou-se independente em 1822, como parte de uma onda de movimentos independentistas que varreu a América no início do século XIX. O Império Português então foi reduzido às suas colónias no litoral africano (que foram expandidas para o interior durante a Partilha de África, no final do século XIX), Timor-Leste e enclaves na Índia (Goa, Damão e Diu) e na China (Macau).

Após a Segunda Guerra Mundial, o então líder de Portugal, António Salazar, tentou manter intacto o que restava do império pluricontinental, num momento em que outros países europeus estavam já a iniciar a descolonização dos seus territórios. Em 1961, as tropas portuguesas em Goa foram incapazes de impedir o avanço das tropas indianas que marcharam para a colónia em número superior. Salazar deu início a uma guerra (a Guerra Colonial Portuguesa) com o objectivo de eliminar as forças anticoloniais em África, a qual durou até à queda do regime em 1974. O novo governo, instalado após a Revolução dos Cravos, imediatamente tornou lei o princípio de autodeterminação dos povos, mudando radicalmente a política abrindo a possibilidade de independência de todas as colónias, terminando de facto com o "império português". A exceção foi Macau, território devolvido à China somente em 1999, marcando simbolicamente, o fim do Império Português. Atualmente, os arquipélagos dos Açores e da Madeira são os únicos territórios ultramarinos que permanecem ligados politicamente a Portugal, mas deve-se considerar que eram ilhas inabitadas antes da ocupação portuguesa. A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) é a sucessora cultural do Império.

Antecedentes

A Conquista de Ceuta, em 1415, foi liderada pelo Infante D. Henrique e iniciou o Império Português

A origem do Reino de Portugal está na Reconquista, a gradual reconquista da Península Ibérica dos mouros.[6] Depois de se estabelecer como um reino separado em 1139, Portugal completou a sua reconquista do território mouro ao chegar ao Algarve em 1249, mas a sua independência continuou a ser ameaçada pela vizinha Castela até à assinatura do Tratado de Ayllón em 1411.[7]

Livre das ameaças à sua existência e não contestada pelas guerras travadas por outros estados europeus, a atenção portuguesa virou-se para o exterior e para uma expedição militar às terras muçulmanas do norte da África.[8] Houve vários motivos prováveis ​​para o seu primeiro ataque, no Império Merínida (no atual Marrocos). Ofereceu a oportunidade de continuar a cruzada cristã contra o Islão; para a classe militar, prometia glória no campo de batalha e nos despojos da guerra;[9] e, finalmente, era também uma oportunidade para expandir o comércio português e enfrentar o declínio económico de Portugal.[8]

Em 1415, um ataque foi feito em Ceuta, um enclave muçulmano norte-africano estrategicamente localizado ao longo do Mar Mediterrâneo, e um dos portos terminais dos comércios de ouro e escravos trans-saharianos. A conquista foi um sucesso militar e marcou um dos primeiros passos da expansão portuguesa para além da Península Ibérica,[10] mas custou caro defender-se das forças muçulmanas que logo a sitiaram. Os portugueses foram incapazes de usá-lo como base para uma expansão adicional no interior[11] e as caravanas transaarianas apenas mudaram suas rotas para contornar Ceuta e / ou usar portos muçulmanos alternativos.[12]