Historicismo
English: Historicism

Disambig grey.svg Nota: Se procura o estilo arquitectónico, veja arquitetura historicista. Se procura escola de interpretação, veja historicismo (escatologia).
Em L.H.O.O.Q., Marcel Duchamp propõe uma releitura do significado da Mona Lisa de Leonardo da Vinci, enfatizando o caráter mutável da obra de arte

Historicismo ou historismo é uma forma de abordagem dos fenômenos e das culturas humanas. A partir dela, abre-se uma nova percepção, que rechaça a existência de leis para a compreensão dos diversos fenômenos políticos, sociais ou culturais e afirma que tudo deve ser entendido levando em consideração sua história. Ao longo dos séculos, os termos foram empregados com múltiplos significados, muitas vezes discordantes. O historicismo constitui a base de uma visão de mundo (Weltanschauung) tipicamente moderna e ocidental. Esta fundamenta-se na noção de que as configurações do mundo humano, num dado momento, sempre são resultado de processos históricos de formação passíveis de serem mentalmente reconstruídos e, portanto, compreendidos.

Possui cinco diferentes características: o historicismo genético afirma a totalidade de sentido da história e compreende que os diversos fenômenos podem ser conhecidos através da investigação de sua história no tempo; o historicismo metafísico, de forma semelhante, procura compreender a ordem e a racionalidade dos processos históricos, porém, detém um olhar providencialista de viés protestante; o historicismo tradicionalista possui um posicionamento exaltador do passado e crítico a tudo que é novo, projetando seu tradicionalismo na apologia às tradições locais; o historicismo metódico desenvolveu-se enquanto prática científica e deu seguimento à racionalidade metódica do Iluminismo ao elencar a especialização disciplinar como fundamental ao pensamento histórico; por fim, o historicismo ético relativiza os valores humanos a fim de enfatizar a importância do tempo histórico para a análise dos fenômenos.

A perspectiva historicista surgiu na Europa ocidental na segunda metade do século XVIII, sendo decisiva para a configuração da ciência histórica (Geschichtswissenschaft). Ao longo do século XIX e até as primeiras décadas do século XX, o historicismo teve forte impacto social, sobretudo na Alemanha, cujos pensadores iluministas são suas principais influências, embora também se valha das ideias de pensadores britânicos e franceses. Sua origem relaciona-se à formação dos Estados Nacionais, podendo ser entendida como uma reação à crise das sociedades europeias frente aos impactos da Revolução Francesa. A partir do século XX, diferentes contestações sobre a visão de mundo historicista se destacaram e compuseram aquilo que foi denominado como a crise do historicismo. As principais críticas opunham-se ao historicismo enquanto um viés relativista e à atribuição do historicismo como alicerce do surgimento da História enquanto disciplina acadêmica. Além disso, o historicismo também foi acusado de acreditar na objetividade do conhecimento histórico, livre de interferências de valor ou preconceitos. Para alguns historiadores, a crise do historicismo esteve ligada à impossibilidade de achar significado e progresso na história após o desastre humano da Primeira Guerra Mundial.

Diversos autores interpretam que o historicismo clássico ganhou uma nova onda de adeptos na passagem do século XIX para o XX caracterizados como neo-historicistas. Esses pensadores, como Benedetto Croce e Robin George Collingwood, reafirmaram a importância e centralidade do conhecimento histórico historicamente relacionado e, como o filósofo Wilhelm Dilthey, colocam em relevo o primado da razão histórica em oposição à razão científica. Com algumas poucas referências às discussões do historicismo europeu, o novo historicismo estadunidense enfatiza a importância dos contextos sociais na leitura de obras literárias.

Historicismo ou historismo?

Não há consenso entre os estudiosos no tema para a tradução da palavra alemã Historismus, podendo ora aparecer como "historicismo", ora como "historismo". Autores importantes, como Georg Iggers, defendem ser mais correto chamar a descoberta da historicidade do mundo realizada pelos alemães no século XIX de "historismo" por causa da multiplicidade de significados que, com o passar do tempo, foi dada à palavra "historicismo".[1] Outros autores argumentam que as imprecisões do termo já estão presentes nos usos mais antigos feitos pelos escritores românticos Friedrich Schlegel e Novalis.[2] É importante salientar que a palavra alemã Historismus possui conotação fortemente pejorativa e, muitas vezes, é associada a uma prática histórica ingênua e relativista.[3] Há, ainda, aqueles que preferem restringir o emprego do termo "historismo" às proposições críticas de Karl Popper em relação às teorias sociais evolucionistas, não importando muito se essas tinham como ponto central a busca pela historicidade dos fenômenos.[4] De qualquer forma, a distinção entre historicismo e historismo pode ser considerada frágil, tendo em vista que, na língua alemã, só existe uma palavra para ambos os termos: Historismus.[5] Não obstante o caloroso debate linguístico, o mais comum é Historismus ser traduzido por "historicismo" em diversas línguas,[1] como no contexto brasileiro, apesar do historiador Sérgio Buarque de Holanda ter preferido o uso de "historismo" em importantes trabalhos sobre o tema.[6]