História global

Mapa-múndi em dois hemisférios criado pelos japoneses Shincho Kurihara e Heibe Chojiya no ano de 1848.

História global é um campo recente de estudos que analisa fenômenos, eventos e processos históricos inserindo-os em contextos globais. Dentro dele são investigados os processos de conexão e interação entre a comunidade humana, trazendo a perspectiva de que as histórias nacionais ou regionais estão conectadas. Surgiu no fim do século XX em meio aos debates sobre globalização e as críticas acadêmicas voltadas às histórias nacionais e ao eurocentrismo presente na historiografia. O estabelecimento do campo se deu principalmente a partir das produções historiográficas da França, Inglaterra e Estados Unidos, consolidando-se na década de 1990. Foram decisivas para a história global as diversas tradições historiográficas e influências de movimentos de países da América Latina, África e Ásia. O Estudos subalternos foi um dos grupos situados nesses países que teve influência decisiva no desenvolvimento do campo a partir dos estudos pós-coloniais. Este grupo de investigação contra-hegemônico criticou enfaticamente as historiografias positivistas, nacionalistas e colonialistas, argumentando que o processo de globalização e o neoliberalismo reproduziriam a exclusão social das classes subalternas.

O século XX viu decolar uma série de formas alternativas de escrita da história que cruzaram as fronteiras do nacional. Exemplos destas alternativas metodológicas e que não devem ser confundidas com a história global são as histórias conectadas e a história mundo. As histórias conectadas surgem como alternativas ao método da história comparada, buscando conectar diferentes conjunturas e pensando a escrita da história para além das fronteiras regionais, nacionais ou continentais. Atrelado aos diversos acontecimentos históricos e ao avanço da globalização que marcavam o mundo contemporâneo houve também a superação da história universal.

Desde seu estabelecimento, a história global tornou-se um dos campos de maior crescimento historiográfico nos ambientes acadêmicos de diversos lugares do mundo, alcançando espaços de projeção nas discussões acadêmicas, por meio de novas pesquisas, congressos e seminários. A pesquisa de temas correlacionados à história global vem crescendo nos últimos anos na América Latina, principalmente com influencias dos estudos decoloniais, tornando-se tema central nas discussões da pesquisa histórica brasileira, com uma relevante quantidade de trabalhos a respeito.

Origem

O mundo contemporâneo do século XX presenciou diversas mudanças sociais, políticas e econômicas que incentivaram a historiografia a desenvolver novas abordagens epistemológicas, preocupações e problemas que respondessem aos diversos fenômenos que surgiam, superando formas passadas de escrita da história.[1] Em paralelo às novas preocupações historiográficas, manifestou-se a necessidade de descentralização da escrita da História.[2] Segundo a historiadora Natalie Zemon Davis a descentralização da História deve ser uma postura necessária ao historiador pois ela não se restringisse às narrativas de grupos dominantes, permitindo que diversos passados históricos sejam representados e ouvidos, dando vozes a diferentes sujeitos, de diferentes espaços e grupos socioculturais.[3] A descentralização da escrita da história começou a ser explorada principalmente após a Primeira Guerra Mundial, caracterizada por Davis como a primeira onda social na qual sujeitos de classes exploradas e marginalizadas começaram a adquirir protagonismo na escrita da História.[3] Uma segunda onda social teria acontecido na década de 1960 com a emergência das discussões acerca da história das mulheres e, consequentemente, dos estudos de gênero, incorporando também esses outros sujeitos à narrativa histórica.[3]

O processo de globalização que caracterizou o século XX fez emergir novas discussões nas ciências sociais e na historiografia, sobretudo ligadas a novos métodos e categorias de análise que pudessem abranger uma história-mundo, [4] que fosse capazes de abandonar o viés generalizador eurocêntrico e etnocêntrico, levando em consideração as possíveis interações e conexões dos diferentes espaços.[4] Como consequência da globalização e do avanço tecnológico presente nas últimas décadas do século em questão, ocorreu a sensação de aproximação dos espaços geográficos.[5] O fim da chamada Guerra Fria, a queda do Muro de Berlim e o desmantelamento da União Soviética foram considerados marcos para o surgimento e crescimento de novas abordagens historiográficas. Segundo o historiador Georg Iggers, o fim da década de 1980 travou novas novas condições de vida, havendo a demanda por abordagens historiográficas que dessem conta de todos estes novos fenômenos.[6] É neste contexto que surge a institucionalização da chamada história global com o intuito de considerar o fenômeno da globalização para entendimento do presente.[7]