Henrique VIII de Inglaterra

Henrique VIII
Rei da Inglaterra e Lorde/Rei da Irlanda
Reinado21 de abril de 1509
a 28 de janeiro de 1547
Coroação24 de junho de 1509
Antecessor(a)Henrique VII
Sucessor(a)Eduardo VI
 
EsposasCatarina de Aragão (1509–1533)
Ana Bolena (1533–1536)
Joana Seymour (1536–1537)
Ana de Cleves (1540)
Catarina Howard (1540–1541)
Catarina Parr (1543–1547)
DescendênciaMaria I de Inglaterra
Isabel I de Inglaterra
Eduardo VI de Inglaterra
CasaTudor
Nascimento28 de junho de 1491
 Palácio de Placentia, Greenwich, Inglaterra
Morte28 de janeiro de 1547 (55 anos)
 Palácio de Whitehall, Londres, Inglaterra
EnterroCapela de São Jorge, Windsor, Berkshire, Inglaterra
 4 de fevereiro de 1547
PaiHenrique VII de Inglaterra
MãeIsabel de Iorque
ReligiãoAnglicanismo
anteriormente Catolicismo
AssinaturaAssinatura de Henrique VIII

Henrique VIII (28 de junho de 149128 de janeiro de 1547) foi o Rei da Inglaterra de 1509 até sua morte, e também Lorde e depois Rei da Irlanda. Henrique foi o segundo monarca inglês da Casa de Tudor, a ocupar o trono, sucedendo a seu pai Henrique VII.

Henrique é conhecido como o fundador da Igreja Anglicana. Suas lutas contra Roma ocasionaram a renúncia da Inglaterra à autoridade papal, a Dissolução dos Mosteiros e seu próprio estabelecimento como Chefe Supremo da Igreja de Inglaterra. Ainda assim continuou a acreditar nos principais ensinamentos católicos, mesmo após sua excomunhão.[1] Henrique supervisionou a união legal da Inglaterra e Gales com os Atos das Leis em Gales de 1535 e 1542.

Em 1513, Henrique aliou-se com Maximiliano I, Sacro Imperador Romano-Germânico, e invadiu a França com um exército numeroso e bem equipado, porém pouco realizou com o enorme custo financeiro. Por outro lado, Maximiliano usou a invasão inglesa para seu próprio benefício, prejudicando a capacidade da Inglaterra de derrotar os franceses. Esse incidente marcou o início de uma obsessão de Henrique, que invadiu o país novamente em 1544. Desta vez, suas forças capturaram a importante cidade de Bolonha-sobre-o-Mar, porém o imperador Carlos V apoiou Henrique até onde julgava necessário e a Inglaterra, esgotada pelos custos da guerra, entregou a cidade de volta após pagamento de resgate.

Seus contemporâneos, durante seu auge, consideraram Henrique um rei atraente, bem educado e realizado, e ele já foi descrito como "um dos governantes mais carismáticos a ocupar o trono inglês".[2] Além de reinar com poder considerável, Henrique também escrevia e compunha. Seu desejo de ter um herdeiro homem – em parte por causa de sua vaidade pessoal, por acreditar que uma mulher não seria capaz de consolidar a dinastia Tudor e também pela frágil paz existente após a Guerra das Rosas[3] – levou às duas coisas pelas quais Henrique é mais lembrado: seus seis casamentos e a Reforma Inglesa. Ele tornou-se obeso mórbido e com saúde fraca, o que contribuiu para sua morte em 1547. Ele é frequentemente caracterizado ao final de sua vida como concupiscente, egoísta, severo e inseguro.[4] Henrique VIII foi sucedido por seu filho Eduardo VI, fruto de seu casamento com Joana Seymour.

Biografia

Início de vida

Escudo como Duque de Iorque
Brasão como Príncipe de Gales.

Henrique nasceu no Palácio de Placentia, terceiro filho de Henrique VII e Isabel de Iorque.[5] Dos seus seis irmãos, apenas três – Artur, Margarida e Maria – sobreviveram à infância.[6] Foi batizado por Ricardo Foxe, Bispo de Exeter, numa igreja franciscana próxima do palácio. Em 1493, aos dois anos de idade, Henrique foi nomeado Condestável do Castelo de Dover e Lorde Guardião dos Cinco Portos. Ele depois foi nomeado Conde Marechal da Inglaterra e Lorde-Tenente da Irlanda com três anos, entrando para a Ordem do Banho em seguida. No dia da cerimônia ele foi criado Duque de Iorque e um mês depois Lorde Guardião das Marchas Escocesas. Em maio de 1495, Henrique foi nomeado para a Ordem da Jarreteira.[7] Ele recebeu uma educação de primeira qualidade de grandes tutores, tornando-se fluente em latim e francês além de aprender um pouco de italiano.[8][9] Pouco se sabe sobre o começo de sua vida – com exceção de alguns fatos isolados – já que não era esperado que se tornasse rei.[7] Em novembro de 1501, Henrique participou consideravelmente das cerimônias do casamento de seu irmão Artur com Catarina de Aragão, filha mais nova de Fernando II de Aragão e Isabel I de Castela.[10]

Catarina de Aragão, c. 1502.

Em 1502, Artur morreu aos 15 anos, vinte semanas depois de se casar com Catarina.[11] Sua morte colocou todos seus deveres em Henrique, então com dez anos. Após um pequeno debate, ele se tornou Duque da Cornualha em outubro e o novo Príncipe de Gales e Conde de Chester em fevereiro de 1504.[12] Henrique VII deu ao menino poucas tarefas. O príncipe era rigidamente supervisionado e não aparecia em público. Como resultado, Henrique mais tarde ascenderia ao trono "destreinado na arte exata de ser rei".[13]

Henrique VII renovou seus esforços para selar uma aliança com a Espanha ao oferecer Henrique para se casar com a viúva Catarina.[11] Tanto o rei quanto Isabel gostavam da ideia, que apareceu pouco depois da morte de Artur.[14] Em 23 de junho de 1503, um tratado foi assinado para o casamento dos dois e eles foram prometidos dois dias depois. Uma dispensa papal era necessária apenas para o "impedimento de honestidade pública" se o casamento com Artur não tivesse sido consumado como Catarina afirmava, porém Henrique VII e o embaixador espanhol queriam conseguir a dispensa por "afinidade", que levava em conta a possibilidade de consumação.[15] Por Henrique ter apenas onze anos, os dois não podiam viver juntos.[14] A morte de Isabel em 1504 e os problemas da sucessão em Castela complicaram as coisas. Fernando II preferia que a filha permanecesse na Inglaterra, porém suas relações com Henrique VII pioraram.[16] Dessa forma Catarina permaneceu no limbo por algum tempo, culminando com o príncipe Henrique rejeitando o casamento aos quatorze anos. A solução de Fernando II foi fazer de sua filha uma embaixadora, permitindo que ela ficasse na Inglaterra indeterminadamente. Muito devota, ela passou a acreditar que era a vontade de Deus que se casasse com Henrique mesmo ele sendo contra isso.[17]

Início de reinado

Henrique em 1509.

Henrique VII morreu em 21 de abril de 1509 e o jovem príncipe ascendeu ao trono como Henrique VIII. Logo após o enterro do pai em 10 de maio, o novo rei repentinamente declarou que se casaria com Catarina, deixando questões não resolvidas sobre a dispensa papal e uma parte faltante na porção do casamento.[15][18] Henrique afirmou que era o último desejo de seu pai seu casamento com Catarina.[17] Sendo isso verdade ou não, era certamente conveniente. Maximiliano I do Sacro Império Romano-Germânico estava tentando casar sua neta Leonor da Áustria (sobrinha de Catarina) com Henrique.[19] Seu casamento com Catarina foi discreto e foi realizado em Placentia.[18] Em 23 de junho de 1509, Henrique levou a esposa da Torre de Londres até a Abadia de Westminster para sua coroação, que aconteceu no dia seguinte. O evento foi grandioso: a passagem do rei foi forrada com tapeçarias de fino tecido.[20] Depois da cerimônia, houve um grande banquete no Palácio de Westminster.[21] Como Catarina escreveu ao pai, "nosso tempo é gasto em contínuas festas".[18]

Dois dias depois da coroação, Henrique prendeu dois dos mais impopulares ministros de seu pai: sir Ricardo Empson e Edmundo Dudley. Eles foram acusados de traição e executados em 1510. O historiador Ian Crofton diz que tais execuções se tornariam a principal tática de Henrique para lidar com opositores; as duas execuções certamente não foram as primeiras.[5] Ele também deu ao povo parte do dinheiro supostamente extorquido pelos ministros.[22] Em contraste, sua visão da Casa de Iorque – potencial reivindicante ao trono – era mais moderada. Muitos daqueles que foram presos por Henrique VII foram perdoados.[23] Outros (mais notavelmente Edmundo de la Pole) permaneceram sem reconciliação; de la Pole acabou sendo decapitado em 1513, uma execução causada por seu irmão Ricardo alinhando-se contra o rei.[24]

Pouco tempo depois Catarina engravidou, porém a criança foi uma menina que nasceu e morreu no dia 31 de janeiro de 1510. Quatro meses depois a rainha estava grávida novamente.[25] No dia de ano novo de 1511, a criança – Henrique – nasceu. Depois da dor de terem perdido a primeira, o casal ficou feliz de terem um menino e houve festividades para celebração, incluindo um torneio de justas.[26] Entretanto, o menino morreu sete semanas depois.[25] Foi revelado em 1510 que o rei estava tendo um caso com uma das irmãs de Eduardo Stafford, 3.º Duque de Buckingham, Isabel ou Ana Hastings, Condessa de Huntingdon.[27] Catarina teve um aborto em 1514, porém deu à luz Maria em fevereiro de 1516. As relações entre o casal haviam sido tensas, porém melhoraram após o nascimento da menina[28] e há poucos indícios que sugerem que o casamento não era "excepcionalmente bom" na época.[29]

Começando em 1516, a mais importante amante de Henrique por três anos foi Isabel Blount.[28] Ela é uma das duas únicas amantes completamente incontestáveis, poucas para um rei jovem e viril.[30][31] Exatamente quantas ele teve não é certo: David Loades acredita que Henrique teve amantes "apenas de forma muito limitada",[31] enquanto Alison Weir acredita que houve vários casos.[32] Catarina não protestava, engravidando novamente em 1518 com outra menina natimorta. Blount deu à luz em junho de 1519 a Henrique FitzRoy, filho ilegítimo do rei.[28] O menino foi feito Duque de Richmond em junho de 1525 em um ato que foi visto como o primeiro passo rumo sua legitimação.[33] FitzRoy se casou em 1533 com Maria Howard, porém morreu sem filhos três anos depois.[34] Na época de sua morte, o parlamento tinha aprovado o Segundo Decreto de Sucessão, que poderia permitir que ele se tornasse rei.[35]

França e os Habsburgos

Henrique c. 1520.

Em 1510, com uma frágil aliança com o Sacro Império Romano-Germânico na Liga de Cambrai, a França estava vencendo uma guerra contra Veneza. Henrique renovou a aliança de seu pai com Luís XII da França, uma questão que dividiu seu conselho. Certamente uma guerra contra o poder combinado das duas potências seria extremamente difícil. Pouco tempo depois, ele assinou um pacto contraditório com Fernando contra a França. O problema foi resolvido em outubro de 1511 com a criação da anti-francesa Liga Santa pelo Papa Júlio II, levando Luís a entrar em conflito com Fernando.[36] Henrique colocou a Inglaterra na Liga Santa pouco depois, com um ataque inicial conjunto anglo-espanhol a Aquitânia planejado para a primavera. Parecia que os sonhos de Henrique começariam a se tornar realidade e ele governaria a França.[37] A declaração formal de guerra ocorreu em abril, porém o rei não liderou pessoalmente o ataque.[38] A ação foi um grande fracasso; Fernando a usou para alcançar seus próprios objetivos, prejudicando a aliança anglo-espanhola. Mesmo assim, os franceses rapidamente foram expulsos da Itália e a aliança ressurgiu, com os dois lados querendo outras vitórias.[38][39] Henrique então realizou um golpe diplomático ao convencer o imperador a entrar na Liga Santa.[40] Extraordinariamente, Henrique também garantiu a promessa do título "O Rei Mais Cristão da França" e uma possível coroação pelo papa em Paris se Luís fosse derrotado.[41]

Henrique invadiu a França em 30 de junho de 1513 e suas tropas venceram a Batalha de Guinegate – um resultado pequeno, porém que foi pego pelos ingleses para motivos de propaganda. Eles tomaram Thérouanne pouco depois e entregaram para Maximiliano; seguiu-se Tournai.[42] Henrique liderou o exército pessoalmente, acompanhado por uma grande comitiva.[43] Sua ausência do país induziu seu cunhado Jaime IV da Escócia a invadir a Inglaterra a mando de Luís.[44] O exército inglês, supervisionado pela rainha Catarina, derrotou os escoceses na Batalha de Flodden em 9 de setembro de 1513. Entre os mortos estava Jaime, terminando o breve envolvimento escocês na guerra.[45] Essas campanhas deram a Henrique o gosto do sucesso militar que tanto desejava. Porém, apesar de indícios que iria prosseguir com uma campanha no ano seguinte, o rei decidiu não realizar o movimento. Ele estava apoiando Fernando e Maximiliano financeiramente, porém pouco recebeu em troca; os cofres ingleses estavam vazios.[46] Com a morte de Júlio II e a eleição de Leão X, que estava inclinado a negociar a paz com a França, Henrique assinou seu próprio tratado com Luís: sua irmã Maria se tornaria a esposa do rei francês, tendo sido anteriormente prometida a Carlos da Áustria, e a paz seguiu-se por oito anos.[47]

O encontro de Francisco I e Henrique VIII no Campo do Pano de Ouro em 1520.

Carlos da Áustria ascendeu aos tronos espanhol e imperial após a morte de seus avôs, Fernando e Maximiliano, em 1516 e 1519 respectivamente; Francisco I tornou-se rei da França depois da morte de Luís.[48] A cuidadosa diplomacia do cardeal Tomás Wolsey resultou no Tratado de Londres em 1518, que tinha a intenção de unir os reinos do oeste europeu contra a nova ameaça otomana; a paz parecia ter sido assegurada. Henrique se encontrou com Francisco em 7 de junho de 1520 no Campo do Pano de Ouro perto de Calais para uma quinzena de luxuosos entretenimentos. Os dois esperavam relações amistosas ao invés de guerras na década seguinte. O grande ar de competitividade acabou com as esperanças de renovação para o Tratado de Londres, com o conflito sendo inevitável.[49] Henrique tinha mais em comum com Carlos. O Sacro Império Romano-Germânico foi para uma guerra contra a França em 1521; Henrique se ofereceu para ser o mediador, porém pouco foi alcançado e ele alinhou a Inglaterra com Carlos no final do ano. Ele ainda queria restaurar as terras inglesas na França, porém também queria garantir uma aliança com Borgonha e continuar a ter o apoio imperial.[50] Um pequeno ataque inglês no norte francês alcançou pouco. Carlos derrotou e capturou Francisco em Pavia, podendo ditar a paz; ele achava que não devia nada a Henrique. O rei inglês decidiu tirar seu reino da guerra antes de seu aliado, assinando o Tratado de More em 30 de agosto de 1525.[51]

Divórcio de Catarina de Aragão

Catarina de Aragão, c. 1525.

Nessa época, Henrique teve um caso com Maria Bolena, dama de companhia de Catarina. Há especulações que Maria teve dois filhos de Henrique, Catarina e Henrique Carey, porém isso nunca foi provado e o rei nunca os reconheceu como havia feito com Henrique FitzRoy.[52] Em 1525, enquanto ficava cada vez mais impaciente com a incapacidade de Catarina de gerar o herdeiro homem que tanto desejava,[53][54] ele ficou enamorado com a irmã de Maria, Ana Bolena, então uma jovem carismática na comitiva da rainha.[55] Porém, Ana resistiu as tentativas de sedução e se recusou a se tornar uma amante como a irmã.[56] Foi nesse contexto que Henrique considerou suas três opções para conseguir seu sucessor e assim resolver aquilo que a corte passou a descrever como sua "grande questão". As opções eram legitimizar Henrique FitzRoy, que necessitaria da intervenção do papa e estaria aberto a contestações; casar Maria o mais rápido possível e esperar que um neto herdasse a coroa diretamente, porém ela era uma criança e era improvável que ficasse grávida antes da morte do rei; ou divorciar-se de Catarina de alguma forma e se casar com alguém na idade de ter filhos. Provavelmente vendo a possibilidade de se casar com Ana, a terceira alternativa foi a mais atrativa.[57] Assim o anulamento do casamento com Catarina se tornou o maior desejo do rei.[58]

Henrique, c. 1531.

As reais motivações e intenções de Henrique sobre os anos seguintes não são totalmente claras.[59] Ele mesmo, pelo menos no início de seu reinado, era um católico devoto e bem informado a ponto de publicar em 1521 a dissertação Assertio Septem Sacramentorum, ganhando o título de Fidei Defensor ("Defensor da Fé") do Papa Leão X. O trabalho representava uma cerrenha defesa da supremacia papal, embora um redigida em termos um tanto contingentes.[60] Não está claro quando Henrique mudou seu ponto de vista sobre a questão enquanto cresciam suas intenções para um segundo casamento. Certamente, por volta de 1527, ele se convenceu que havia quebrado o Levítico 20:21 ao se casar com a viúva de seu irmão, uma autoridade que o papa nunca teve (na visão do rei) para dispensar. Foi esse argumento que Henrique levou até o Papa Clemente VII na esperança de ter seu casamento com Catarina anulado, renunciando uma linha de ataque menos abertamente desafiadora.[59] Ao ir a público, toda esperança de Catarina se retirar para um convento e ficar quieta foi perdida.[61] O rei enviou Guilherme Knight, seu secretário, para apelar diretamente na Santa Sé por meio de um projeto aparentemente redigido por bula papal. Knight não foi bem sucedido; o papa não podia ser enganado tão facilmente.[62]

Outras missões concentravam-se em organizar uma corte eclesiástica na Inglaterra com um representante de Clemente VII. Apesar do papa concordar com a criação de tal corte, ele nunca teve a intenção de capacitar seu legado Lorenzo Campeggio em decidir a favor de Henrique. Esse viés talvez tenha sido uma pressão de Carlos V, sobrinho de Catarina, apesar de não ser claro quanto isso influenciou Clemente e Campeggio. Depois de menos de dois meses de audiências, Clemente chamou o caso de volta para Roma em julho de 1529, ficando claro que nunca mais re-emergiria. Perdida a possibilidade de divórcio e o lugar da Inglaterra na Europa, Wolsey recebeu a culpa; foi acusado de praemunire em outubro do mesmo ano, com sua queda sendo "súbita e total".[62] Ele brevemente se reconciliou com o rei (e oficialmente perdoado) na primeira metade de 1530, porém foi acusado novamente em novembro, desta vez por traição, mas morreu esperando julgamento.[62][63] Depois de um curto período em que Henrique assumiu o governo pessoalmente,[64] sir Tomás More foi nomeado Lorde Chanceler e principal ministro do rei. More, inteligente e capacitado, porém católico devoto e oponente do divórcio, inicialmente cooperou com a nova política de Henrique, denunciando Wolsey ao parlamento.[65]

Catarina foi banida da corte um ano depois, com seus aposentos sendo entregues a Ana. Ela era uma mulher extraordinariamente educada e intelectual para o seu tempo, fortemente absorvendo e envolvendo-se com as ideias reformistas, apesar do quanto a própria era uma protestante comprometida ainda ser muito debatido.[66] Quando Guilherme Warham, o Arcebispo da Cantuária, morreu, a influência de Ana e a necessidade de encontrar um apoiador de confiança no divórcio fez Tomás Cranmer ser nomeado para o cargo. Isso foi aprovado pelo papa, desconhecedor dos crescentes planos de Henrique para a igreja.[67]

Casamento com Ana Bolena

Ana Bolena, c. 1534.

No inverno de 1532, Henrique se encontrou com Francisco I em Calais e pediu seu apoio para o novo casamento.[68] Imediatamente depois de voltar para Dover, Henrique e Ana se casaram secretamente.[69] Ela logo engravidou e houve um segundo casamento em Londres no dia 25 de janeiro de 1533. Em 23 de maio, Cranmer, julgando em uma corte especial reunida no Priorado de Dunstable para decidir sobre a validade do casamento do rei com Catarina de Aragão, declarou a união nula e sem efeito. Cinco dias depois ele declarou que o casamento de Henrique e Ana era válido.[70] Catarina foi despojada de seus títulos de rainha, tornando-se "princesa viúva" como esposa de Artur. Ana foi coroada rainha consorte em 1 de junho de 1533.[71] Ela deu à luz uma filha um pouco prematura em 7 de setembro do mesmo ano. A criança foi batizada de Isabel, em homenagem à mãe de Henrique, Isabel de Iorque.[72]

Houve um período de consolidação após o casamento na forma de uma série de estatutos do Parlamento da Reforma que procuravam encontrar soluções para problemas específicos, ao mesmo tempo que protegiam as novas reformas de objeção, convenciam o povo de sua legitimidade e expunham e lidavam com opositores.[73] Apesar do direito canônico ter sido cuidado por Cranmer e outros, os decretos foram lidados por Tomás Cromwell, Tomás Audley e Tomás Howard, 3.º Duque de Norfolk, além do próprio Henrique.[74] Após o decretos, More renunciou ao cargo de Lorde Chanceler, deixando Cromwell como o principal ministro do rei.[75] Com o Decreto de Sucessão de 1533, Maria, filha de Catarina, foi declarada ilegítima, o casamento de Henrique com Ana foi legitimado e os seus descendentes foram colocados como os próximos na linha de sucessão.[76] Com o Decreto de Supremacia, o parlamento reconheceu o rei como o chefe da Igreja da Inglaterra, enquanto que o Estatuto em Restrição de Recursos aboliu o direito de apelação a Roma.[77] Foi apenas nesse momento que Clemente excomungou Henrique e Cranmer, apesar disso ter sido oficializado apenas algum tempo depois.[1][78][79]

O rei e a rainha não ficaram satisfeitos com a vida de casados. O casal tinha períodos de calma e afeição, porém Ana se recusava interpretar o papel submisso que lhe era esperado. A vivacidade e intelecto opinativo que a fizeram tão atraente como um amor ilícito também a deixaram muito independente para o papel principalmente cerimonial de consorte, dado ainda que Henrique esperava obediência absoluta daqueles com quem interagia em capacidade oficial na corte. Ela criou muitos inimigos. Por sua vez, o rei não gostava da irritabilidade constante e temperamento violento da esposa. Depois de uma falsa gravidez ou aborto em 1534, Henrique considerou sua falha em lhe dar um herdeiro homem como uma traição. No Natal de 1534, ele já estava discutindo com Cranmer e Cromwell as chances de deixar Ana sem precisar voltar para Catarina.[80] Acreditava-se que Henrique teve com caso com Margarida Sheldon em 1535, porém a historiadora Antonia Fraser afirma que o caso foi com a irmã Maria Sheldon.[30]

As oposições contra suas políticas religiosas foram rapidamente suprimidas na Inglaterra. Vários monges dissidentes, incluindo os primeiros Mártires Cartuxos, foram executados ou levados ao pelourinho. Os opositores mais proeminentes incluíam João Fisher, Bispo de Rochester, e sir Tomás More, ambos tendo recusado prestar juramento de lealdade ao rei. Tanto Henrique quanto Cromwell não queriam que os homens fossem executados; ao invés disso, eles esperavam que os dois mudassem de opinião e se salvassem. Fisher abertamente rejeitou Henrique como o chefe supremo da igreja, porém More teve mais cuidado para evitar o Decreto de Traição, que (diferentemente de outros decretos) não proibia o silêncio. Entretanto, ambos foram subsequentemente condenados por alta traição – More apenas com a evidência de uma conversa com Ricardo Rich, o procurador-geral. Os dois foram executados no verão de 1535.[81]

Essas supressões, junto com o Decreto dos Mosteiros Menores de 1536, contribuíram para a resistência geral às reformas de Henrique, mais notavelmente a Peregrinação da Graça, um grande levante no norte da Inglaterra em outubro de 1536.[82] Por volta de vinte a quarenta mil rebeldes foram liderados por Roberto Aske, junto com parte da nobreza local.[83] O rei prometeu perdão total e agradecimento aos rebeldes por levantarem as questões até sua atenção. Aske disse aos rebeldes que eles haviam sido bem sucedidos e que poderiam dispersar e voltar para casa.[84] Henrique via todos como traidores e não se sentia obrigado a seguir suas promessas; por isso, quando mais violências estouraram após a oferta de perdão, ele foi rápido para quebrar sua clemência.[85] Os líderes, incluindo Aske, foram presos e executados por traição. Por volta de duzentos rebeldes foram executados, com as perturbações terminando.[86]

Execução de Ana Bolena

Henrique, c. 1537.

Notícias chegaram ao rei e a rainha em 8 de janeiro de 1536 que Catarina de Aragão havia morrido. Henrique convocou demonstrações públicas de alegria. Ana estava grávida novamente e sabia das consequências se não conseguisse dar à luz um menino. Mais tarde no mesmo mês, o rei caiu de um cavalo em um torneio de justas e foi seriamente ferido, parecendo por um tempo que sua vida estava em perigo. Quando as notícias do acidente chegaram em Ana, ela entrou em choque e abortou um menino de quinze semanas, exatamente no dia do funeral de Catarina em 29 de janeiro.[87] Para a maioria dos observadores, essa perda pessoal foi o começo do fim do casamento.[88] Dado o desejo desesperado do rei por um herdeiro homem, a sequência de gravidezes de Ana atraiu muito interesse. O escritor Mike Ashley especulou que Ana teve dois natimortos após o nascimento de Isabel e antes do aborto do menino em 1536.[89] A maioria das fontes falam apenas do nascimento de Isabel em setembro de 1533, um possível aborto no verão de 1534 e o aborto do menino, após quase quatro meses de gestação, em janeiro de 1536.[90]

Apesar de a família Bolena ainda possuir posições importantes no Conselho Privado, Ana tinha muitos inimigos como Carlos Brandon, 1.º Duque de Suffolk. Até seu próprio tio, Tomás Howard, veio a ressentir-se de sua atitude no poder. Os Bolena preferiam Francisco I como potencial aliado ao invés de Carlos V, com o favor do rei pendendo para o segundo (parcialmente por causa de Cromwell), danificando a influência da família.[91] Também eram contra Ana os apoiadores de uma reconciliação com a princesa Maria (entre os quais os antigos apoiadores de Catarina), que já tinha chegado na maturidade. Um segundo divórcio era agora uma possibilidade real, apesar de acreditar-se que foi a influência anti-Bolena de Cromwell que levou os oponentes a procurarem um modo de fazê-la ser executada.[92]

A queda de Ana ocorreu pouco depois de ela ter se recuperado de seu último aborto. Ainda é debatido entre os historiadores se isso ocorreu primariamente por causa das alegações de conspiração, adultério ou bruxaria.[66] Os primeiros sinais de um desfavorecimento incluíam a nova amante do rei, Joana Seymour, sendo colocada em novos aposentos[93], e Jorge Bolena, irmão de Ana, sendo recusado como membro da Ordem da Jarreteira, com seu lugar sendo entregue a sir Nicolau Carew.[94] Entre 30 de abril e 2 de maio, cinco homens, incluindo Jorge Bolena, foram presos pelas acusações de adultério e por terem tido relações sexuais com a rainha. Ana também foi presa, acusada de adultério e incesto. Apesar das evidências serem pouco convincentes, os acusados foram condenados e sentenciados a morte. Jorge Bolena e os outros homens foram executados em 17 de maio.[95] Ana foi executada na Torre Verde da Torre de Londres às 9h do dia 19 de maio de 1536.[96]

Joana Seymour e questões políticas

Joana Seymour em 1536 e o jovem Eduardo com Henrique e Joana, c. 1545. Na época em que esta pintura foi feita, Henrique já estava casado com sua sexta esposa.

Um dia depois da execução de Ana, Henrique ficou noivo de Joana Seymour, que tinha sido uma das damas de companhia da antiga rainha. Eles se casaram dez dias depois.[97] Joana deu à luz em 12 de outubro de 1537 um filho, o príncipe Eduardo.[98] O parto foi difícil e ela morreu em 24 de outubro de uma infecção, sendo enterrada na Capela de São Jorge, Castelo de Windsor.[99] A euforia que acompanhou o nascimento de Eduardo se transformou em luto, porém foi apenas com o tempo que Henrique passou a lamentar pela esposa. Na época ele se recuperou rapidamente do choque.[100] Medidas foram tomadas para encontrar uma nova esposa para o rei, que, pela insistência de Cromwell e da corte, foram focadas no continente europeu.[101]

Com Carlos V distraído por políticas internas em seus muitos reinos e ameaças externas, e Henrique e Francisco em relações relativamente boas, questões internas passaram a ser a prioridade do rei na primeira metade da década de 1530. Por exemplo, em 1536 ele deu seu consentimento para os Atos das Leis em Gales de 1535, que legalmente anexavam o País de Gales a Inglaterra e criavam uma única nação. Seguiu-se o Segundo Decreto de Sucessão, que declarava os filhos de Henrique com Joana os próximos na linha de sucessão e declarava Maria e Isabel como ilegítimas, excluindo-as do trono. O rei também recebeu o poder de determinar a linha de sucessão à sua própria vontade, caso não tivesse mais nenhum descendente.[102] Entretanto, Henrique ficou cada vez mais apreensivo quando Carlos e Francisco fizeram a paz em 1539. Cromwell passava ao rei uma lista constante de ameaças ao reino (reais ou imaginárias, pequenas ou grandes) e assim Henrique ficou paranóico.[103] Enriquecido pela Dissolução dos Mosteiros, ele usou algumas de suas reservas financeiras para construir uma série de defesas costais em caso de uma invasão franco-germânica.[104]

Ana de Cleves

Ana de Cleves em 1539.

Nessa época, Henrique estava querendo se casar novamente para garantir a sucessão. Cromwell, agora Conde de Essex, sugeriu Ana, irmã do Duque de Cleves, que era visto como um importante aliado em caso de um ataque católico a Inglaterra, já que o duque estava dividido entre o luteranismo e o catolicismo.[105] Hans Holbein, o Jovem, foi enviado até Cleves a fim de pintar um retrato de Ana para o rei (à esquerda).[106] Apesar de especulações que Holbein pintou Ana de maneira muito lisonjeira, é mais provável que o retrato fosse fiel; Holbein permaneceu bem visto na corte.[107] Depois de considerar a pintura de Holbein e ouvir boas descrições dadas por cortesãos, Henrique concordou em se casar com Ana.[108] Porém, ele logo passou a querer anular o casamento.[109][110] Ela não protestou e confirmou que o casamento jamais fora consumado.[111] O caso do arranjo de casamento anterior que Ana tinha com o filho do Duque de Lorena eventualmente deu a resposta, uma complicada o suficiente para que os impedimentos restantes ao anulamento fossem removidos.[112] O casamento foi dissolvido e Ana recebeu o título de "A Amada Irmã do Rei", duas residências e uma generosa pensão.[111] Estava claro que o rei estava interessado em Catarina Howard, sobrinha de Tomás Howard, algo que preocupava Cromwell já que ele era um oponente.[113]

Pouco depois, os protegidos de Cromwell e religiosos reformistas Roberto Barnes, Guilherme Jerome e Tomás Gerrard foram queimados como hereges.[111] Cromwell enquanto isso caiu em desgraça apesar de não se saber exatamente o motivo, já que existem poucas evidências de diferenças nas políticas internas e externas; apesar de seu papel, ele não foi oficialmente acusado de ser o responsável no casamento mal sucedido de Henrique.[114] Cromwell estava agora entre inimigos na corte, com Howard conseguindo usar a posição de sua sobrinha.[113] Ele foi acusado de traição, venda de licenças de exportação, concessão de passaportes e formação de comissões sem permissão, e também pode ter sido acusado pelo fracasso no casamento com Ana e no fracasso da política externa que isso acarretou.[115][116] Cromwell acabou sendo preso e decapitado.[114] Ele não foi substituído como Vice-regente em Espirituais, um cargo criado especificamente para ele.[117]

Catarina Howard

Catarina Howard em 1540 e Catarina Parr c. 1545, respectivamente a quinta e a sexta esposas de Henrique.

Henrique se casou com a jovem Catarina Howard, que também era prima e dama de companhia de Ana Bolena, em 29 de julho de 1540, mesmo dia da execução de Cromwell.[118] Ele ficou absolutamente encantado com sua nova rainha, dando-lhe as terras de Cromwell e várias jóias.[119] Entretanto, Catarina teve um caso com o cortesão Tomás Culpeper pouco depois do casamento. Ela empregou Francisco Dereham, com quem teve um caso e noivado informal antes de se casar com o rei, como secretário. A corte soube de seu caso anterior com Dareham enquanto Henrique estava fora; Cranmer foi enviado para investigar e levou evidências do caso de Howard e Dareham ao conhecimento do rei.[120] Apesar de Henrique inicialmente se recusar a acreditar nas alegações, Dareham confessou. Porém, foi apenas na reunião seguinte do conselho que o rei acreditou e teve um ataque de raiva, culpando o conselho antes de sair pra caçar.[121] Catarina, ao ser questionada, poderia ter admitido ter um acordo anterior com Dareham, que faria com que seu casamento com Henrique fosse inválido, porém ela afirmou que o homem a forçou a ter uma relação adúltera. Dareham acabou revelando o caso da rainha com Culpeper. Os dois homens foram executados e Catarina foi decapitada em 13 de fevereiro de 1542.[122]

Em 1540, Henrique sancionou a destruição de relicários de santos. Os últimos mosteiros da Inglaterra foram dissolvidos e suas propriedades transferidas à coroa. Abades e priores perderam seus lugares na Câmara dos Lordes; apenas bispos e arcebispos permaneceram como os únicos eclesiásticos na câmara. Os Lordes Espirituais, como o clero na câmara era conhecido, foi superado em números pela primeira vez pelos Lordes Temporais.

"Rude Cortejo" e segunda invasão da França

Henrique c. 1540.

A aliança entre Francisco e Carlos se dissolveu em 1539, eventualmente degenerando até uma guerra. Com Catarina de Aragão e Ana Bolena mortas, as relações entre Carlos e Henrique melhoraram muito, com o rei inglês concluindo uma aliança secreta com o imperador. Ele decidiu intervir na Guerra Italiana ao lado de seu novo aliado. Uma invasão da França foi preparada para 1543.[123] Em preparação, Henrique moveu-se para eliminar a potencial ameaça escocesa sob o jovem Jaime V. Isso continuaria a reforma na Escócia, que ainda era católica, e Henrique esperava unir as duas coroas ao casar a filha de Jaime, Maria da Escócia, com Eduardo. Ele fez guerra contra os escoceses por vários anos tentando alcançar esse objetivo, uma campanha que ficou conhecida como o "Rude Cortejo".[124] A Escócia foi derrotada na Batalha de Solway Moss em 24 de novembro de 1542,[125] e Jaime morreu menos de um mês depois. Jaime Hamilton, 2.º Conde de Arran, regente escocês, concordou com o casamento no Tratado de Greenwich em 1 de julho de 1543.[126]

Apesar do sucesso na Escócia, Henrique hesitou em atacar a França, irritando Carlos. Ele finalmente seguiu em frente em junho de 1544 com um ataque em dois frontes. Uma força liderada por Tomás Howard cercou, sem sucesso, Montreuil. A outra sob o comando de Carlos Brandon cercou Bolonha-sobre-o-Mar. Henrique posteriormente assumiu o comando pessoal, com Bolonha caindo em 18 de setembro.[127][128] Porém, ele havia recusado os pedidos do imperador para marchar contra Paris. A própria campanha de Carlos desandou e ele fez as pazes com a França no mesmo dia. Henrique ficou sozinho contra a França, incapaz de fazer a paz. Francisco tentou invadir a Inglaterra no verão de 1545, porém foi um fiasco. Com os dois reinos sem dinheiro, ambos assinaram o Tratado de Ardres em 7 de junho de 1546. Henrique garantiu a posse de Bolonha por oito anos, então a devolveu para a França por £750 000. Ele precisava do dinheiro; a campanha havia custado £650 000 e a Inglaterra estava novamente falida.[129]

Enquanto isso, os escoceses repudiaram o Tratado de Greenwich em dezembro de 1543. Henrique lançou outra guerra contra os escoceses, enviando um exército para queimar Edimburgo e devastar o interior. Apesar disso, a Escócia não se submeteu. A derrota na Batalha de Ancrum Moor levou a uma segunda invasão. A guerra terminou nominalmente no Tratado de Ardres. Desordens na Escócia, incluindo intervenções tanto inglesas quanto francesas, continuaram até a morte de Henrique.[128][129]

Catarina Parr

Henrique se casou pela sexta e última vez em julho de 1543 com Catarina Parr, uma rica viúva.[130] Reformista, ela discutia sobre religião com o rei. No final, Henrique permaneceu comprometido com uma mistura idiossincrática de catolicismo e protestantismo; o estado de espírito reacionário que tinha ganhado terreno após a queda de Cromwell não eliminou seu traço protestante nem foi superado por ele.[131] Parr ajudou Henrique a se reconciliar com suas filhas Maria e Isabel.[132] Em 1543, o Terceiro Decreto de Sucessão colocou suas filhas de volta na sucessão, atrás de Eduardo. O mesmo decreto permitiu que ele determinasse a sucessão conforme sua vontade.[133]

Declínio físico

Henrique em 1542.

Henrique se tornou obeso posteriormente em sua vida. Tinha uma medida de cintura de 140 cm e precisava se mover com a ajuda de invenções mecânicas. Era coberto por furúnculos cheios de pus e possivelmente sofria de gota. Sua obesidade e outros problemas médicos podem ser traçados ao acidente de justa que sofreu em 1536, em que teve um ferimento na perna. O acidente reabriu e agravou um ferimento anterior que havia tido anos antes, a ponto de seus médicos encontrarem dificuldades em tratá-lo. O ferimento infeccionou pelo restante de sua vida até ulcerar, algo que o impedia de manter o mesmo nível de atividade que costumava ter. Acredita-se que o acidente tenha sido a causa das mudanças de humor de Henrique, que podem ter tido grande efeito em sua personalidade e temperamento.[134][135]

A teoria que Henrique sofria de sífilis foi desmentida pela maioria dos historiadores.[136] Uma teoria mais recente sugere que seus sintomas médicos são característicos de uma diabetes mellitus tipo 2 não tratada.[135] Como alternativa, o padrão de gravidezes de suas esposas e sua deterioração mental levaram alguns a sugerirem que ele poderia ser Kell positivo e sofredor da síndrome de McLeod.[137] De acordo com outro estudo, o histórico do rei e morfologia de seu corpo eram provavelmente o resultado de uma lesão cerebral traumática após o acidente de justa de 1536, que por sua vez levou a causa de sua obesidade neuroendócrina. A análise identifica deficiência no hormônio de crescimento como a fonte de sua adiposidade cada vez maior e também suas mudanças significativas de comportamento em seus últimos anos, incluindo seus múltiplos casamentos.[138] Outra teoria diz que esses danos cerebrais possivelmente foram causados por outros dois incidentes: o primeiro em 1524 quando uma lança perfurou seu capacete durante uma justa e segundo no ano seguinte quando o rei bateu de cabeça no chão ao tentar cruzar um riacho com uma vara. Alguns dos efeitos colaterais de uma lesão cerebral incluem deficiência hormonal e hipogonadismo, que podem criar disfunções metabólicas e impotência sexual e explicariam seu aumento de peso e dificuldades cada vez maiores de ter relações com suas esposas.[139]

Morte

Caixões de Henrique VIII (centro), Joana Seymour (esquerda) e Carlos I com um filho de Ana (esquerda) na sepultura embaixo do coral da Capela de São Jorge, marcados por uma laje de pedra no chão. Desenho de Alfred Young Nutt em 1888.

A obesidade de Henrique acelerou sua morte aos 55 anos de idade, em 28 de janeiro de 1547, no Palácio de Whitehall, naquele que teria sido o nonagésimo aniversário de seu pai. Suas supostas últimas palavras foram: "Monges! Monges! Monges!", talvez uma referência aos monges que ele fez serem despejados na Dissolução dos Mosteiros.[140] Seu caixão foi velado no Mosteiro de Sião, no caminho para a Capela de São Jorge, Castelo de Windsor. Doze anos antes, em 1535, um frei franciscano chamado Guilherme Peyto pregou ao rei no Palácio de Placentia "que os julgamentos de Deus estavam prontos para recair sobre sua cabeça e que cães lamberiam seu sangue, como haviam feito com Acabe", cuja infâmia está em 1 Reis 16:33: "Acabe fez muito mais para irritar o Senhor Deus de Israel do que todos os reis de Israel que foram antes dele". Diz que profecia foi cumprida durante aquela noite em Sião, quando uma "matéria corrompida de uma cor sangrenta" caiu do caixão e cachorros tentaram lambê-la.[141] Henrique foi enterrado em uma sepultura na Capela de São Jorge ao lado de Joana Seymour.[142] 102 anos depois, em 1649, o rei Carlos I foi enterrado na mesma sepultura.[143]

Sucessão

Após sua morte, seu único filho homem herdou a coroa como rei Eduardo VI. Já que Eduardo tinha apenas nove anos de idade, ele não podia exercer o poder. O testamento de Henrique nomeou dezesseis executores para servirem em um conselho regencial até Eduardo completar dezoito anos. Os executores escolheram Eduardo Seymour, 1.º Conde de Hertford, irmão mais velho de Joana Seymour e tio do novo rei, para ser Lorde Protetor do Reino. Caso Eduardo não tivesse herdeiros, o trono passaria para Maria, filha de Henrique e Catarina de Aragão, e seus descendentes. Caso Maria não tivesse filhos, a coroa iria para Isabel, filha de Henrique com Ana Bolena, e os herdeiros dela. Finalmente, se a linhagem de Isabel fosse extinta, o trono inglês seria herdado pelos Grey, descendentes de Maria, irmã mais nova de Henrique. Os descendentes de sua irmã Margarida, os Stuart da Escócia, foram excluídos da sucessão. Entretanto, Jaime VI da Escócia herdou a Inglaterra após a morte de Isabel em 1603.[144]