Henrique I de Inglaterra

Henrique I
Rei dos Ingleses e Duque dos Normandos
Rei da Inglaterra
Reinado2 de agosto de 1100
a 1 de dezembro de 1135
Coroação5 de agosto de 1100
Antecessor(a)Guilherme II
Sucessor(a)Estêvão
Duque de Normandia
Reinado28 de setembro de 1106
a 1 de dezembro de 1135
PredecessorRoberto II
SucessorEstêvão
 
EsposasEdite da Escócia (1100–1118)
Adeliza de Lovaina (1121–1135)
DescendênciaMatilde de Inglaterra
Guilherme Adelino
CasaNormandia
Nascimentoc. 1068
 Selby, North Yorkshire, Inglaterra
Morte1 de dezembro de 1135 (67 anos)
 Lyons-la-Forêt, França
EnterroAbadia de Reading, Reading, Berkshire, Inglaterra
ReligiãoCatolicismo
PaiGuilherme I de Inglaterra
MãeMatilde de Flandres

Henrique I (Selby, c. 1068Lyons-la-Forêt, 1 de dezembro de 1135), também conhecido como Henrique Beauclerc, foi o Rei da Inglaterra de 1100 até sua morte em 1135. Era o quarto filho de Guilherme I de Inglaterra e foi educado em latim e artes liberais. Quando seu pai morreu em 1087, seus irmãos mais velhos Guilherme, o Ruivo e Roberto Curthose herdaram a Inglaterra e a Normandia, respectivamente, e nada ficou com Henrique. Ele acabou comprando de Roberto o Condado de Cotentin no leste da Normandia, porém seus irmãos o depuseram em 1091. Henrique gradualmente reconstruiu seu poder em Cotentin e aliou-se com Guilherme contra Roberto. Ele estava presente quando o irmão morreu em um acidente de caça em 1100, tomando rapidamente o trono inglês e prometendo corrigir muitas das políticas impopulares de Guilherme. Henrique casou-se com Edite da Escócia, porém continuou a ter várias amantes, com quem teve vários filhos ilegítimos.

Roberto disputou o trono com Henrique, invadindo a Inglaterra em 1101. Essa campanha militar terminou com um acordo que confirmava Henrique como rei. A paz durou pouco, desta vez com o rei invadindo o Ducado da Normandia em 1105 e 1106, finalmente derrotando Roberto na Batalha de Tinchebray. Ele manteve o irmão como prisioneiro pelo resto da vida. Seu controle da Normandia foi desafiado por Luís VI de França, Balduíno VII de Flandres e Fulque V de Anjou, que incentivaram a pretensão de Guilherme Clito, filho de Roberto, e apoiaram uma grande rebelião no ducado entre 1116 e 1119. Um favorável acordo de paz foi estabelecido com Luís em 1120 após a vitória de Henrique na Batalha de Brémule.

Considerado por seus contemporâneos como um governante severo e eficiente, Henrique habilidosamente manipulou os barões ingleses e normandos. Na Inglaterra, ele se baseou no já existente sistema jurídico anglo-saxão, nos governos locais e nos impostos, porém também fortaleceu outras instituições, como o erário público real e as justiças itinerantes. A Normandia também era governada através de um sistema de justiças e um erário público. Muitos dos oficiais que cuidavam do sistema de Henrique eram "homens novos", indivíduos de nascimento relativamente baixo que subiram na sociedade como administradores. O rei encorajava a reforma eclesiástica, porém ficou envolvido em 1101 em uma séria disputa com o arcebispo Anselmo da Cantuária, algo que foi resolvido em 1015 através de uma solução de compromisso. Ele apoiava a Ordem de Cluny e teve papel importante na escolha do alto clero na Inglaterra e Normandia.

Guilherme Adelino, o único filho e herdeiro legítimo de Henrique, morreu no Barco Branco em 1120, colocando em dúvida a sucessão real. Henrique casou-se novamente na esperança de ter outro filho, porém não conseguiu. Em resposta, o rei declarou sua filha Matilde como herdeira e a casou com Godofredo V de Anjou. A relação de Henrique com o casal ficou ruim e um confronto começou na fronteira de Anjou. Henrique I morreu em 1 de dezembro de 1135 depois de ter ficado doente por algumas semanas. Apesar de seus planos para Matilde, ele foi sucedido como rei por Estêvão de Blois, seu sobrinho, resultando no período de guerra civil conhecido como a Anarquia.

Início de vida

Infância

Henrique provavelmente nasceu na Inglaterra em 1068, no verão ou nas últimas semanas do ano, possivelmente na cidade de Selby em Yorkshire.[nota 1][1] Seu pai era Guilherme, originalmente Duque da Normandia e então Rei da Inglaterra após a invasão de 1066, com suas terras chegando até o País de Gales. A invasão criou uma elite anglo-normanda, muitos com propriedades dos dois lados do Canal da Mancha.[2] Esses barões anglo-normandos tinham ligações com o Reino da França, que na época era uma coleção de condados e organizações públicas menores sob o controle mínimo de um rei.[3] Matilde de Flandres, a mãe de Henrique, era a neta de Roberto II de França, e provavelmente nomeou o filho em homenagem ao seu sobrinho Henrique I de França.[4]

Henrique era o filho mais novo de Guilherme e Matilde. Fisicamente era parecido com seus irmãos mais velhos, Roberto Curthose, Ricardo e Guilherme, o Ruivo; o historiador David Carpenter o descreve como sendo "baixo, encorpado e de peito largo" e com cabelos pretos.[5] Henrique provavelmente conviveu pouco com os irmãos por causa da diferença de idade e pela morte prematura de Ricardo.[6] Ele provavelmente era mais próximo de sua irmã Adela já que tinham quase a mesma idade.[7] Existem poucos documentos sobre sua infância; os historiadores Warren Hollister e Kathleen Thompson sugerem que ele cresceu principalmente na Inglaterra, enquanto que Judith Green fala que ele inicialmente cresceu na Normandia.[8] Ele provavelmente foi educado pela igreja, possivelmente pelo Bispo Osmundo, o chanceler do rei, na Catedral de Salisbúria; não é claro se isso indica uma intenção por parte de seus pais que Henrique entrasse para o clero.[nota 2][9] Também não é claro a extensão de sua educação, porém provavelmente sabia ler latim e tinha algum conhecimento de artes liberais.[10] Ele foi treinado em artes militares por Roberto Arcardo, sendo feito cavaleiro pelo pai em 24 de maio de 1086.[11]

Herança

Representação do século XIII de Henrique.

Em 1087, Guilherme foi fatalmente ferido em campanha na região de Vexin.[12] Em setembro, Henrique encontrou com o pai em Ruão, onde o rei partilhou suas posses com os filhos.[13] As regras de sucessão no oeste da Europa não eram claras na época; em algumas partes da França, a primogenitura estava ganhando popularidade. Em outras partes da Europa, como na Normandia e na Inglaterra, a tradição mandava as terras serem divididas, com o filho mais velho recebendo as terras patrimoniais – geralmente consideradas as mais valiosas – e os mais novos recebiam terras e propriedades menores ou recém adquiridas.[14]

Ao dividir suas terras, Guilherme aparentemente seguiu a tradição normanda, fazendo uma distinção entre a Normandia, que ele herdou, e a Inglaterra, que ele conquistou através da guerra.[15] O segundo filho de Guilherme, Ricardo, havia morrido em um acidente de caça, deixando Henrique e seus irmãos para herdar as propriedades do rei. Roberto, o mais velho, apesar de travar uma rebelião armada contra o pai na época de sua morte, recebeu a Normandia. A Inglaterra foi entregue a Guilherme, o Ruivo, que era mais bem visto pelo pai.[16] Henrique recebeu uma grande quantia, supostamente cinco mil libras, com a expectativa de também receber as terras modestas da mãe em Buckinghamshire e Gloucestershire.[nota 3][18] O funeral de Guilherme em Caen foi marcado por reclamações de um homem furioso, e Henrique supostamente foi o responsável por resolver a disputa ao pagar prata para o homem ir embora.[19]

Roberto voltou para a Normandia, tendo esperado receber a Inglaterra também, descobrindo que Guilherme havia cruzado o Canal da Mancha e fora coroado rei como Guilherme II.[20] Os dois irmãos discutiram sobre a herança e Roberto começou a plenajar uma invasão, auxiliado por uma rebelião de nobres contra o novo rei.[21] Henrique ficou na Normandia e assumiu um papel na corte do Roberto, possivelmente por não querer se aliar abertamente com Guilherme ou porque Roberto poderia aproveitar para roubar seu dinheiro se ele partisse.[nota 4][20] Guilherme tomou as terras de Henrique na Inglaterra, deixando o irmão sem propriedades.[23]

Em 1088, os planos de Roberto para invadir a Inglaterra começaram a ruir, e ele pediu ajuda a Henrique, propondo que o irmão lhe emprestasse parte de sua herança; Henrique disse não. Os dois então bolaram um novo acordo, em que Roberto nomearia Henrique conde do oeste da Normandia em troca de três mil libras.[nota 5][25] As terras de Henrique eram um novo condado baseado numa delegação da autoridade ducal em Cotentin, porém se estendia por Avranchin, controlando bispados dos dois.[26] Isso também lhe dava influência sobre dois grandes líderes normandos, Hugo d'Avranches e Ricardo de Redvers, além da abadia de Monte Saint-Michel, cujas terras se espalhavam por todo o ducado.[27] A força de invasão de Roberto não conseguiu deixar a Normandia e Guilherme ficou seguro na Inglaterra.[28]

Conde de Cotentin

Representação de Odão de Bayeux, que aprisionou Henrique entre 1088–89.

Henrique rapidamente se estabeleceu e construiu um rede de seguidores que ia do oeste da Normandia até o leste da Bretanha; o historiador John Le Patourel chamou esses homens de a "Gangue de Henrique".[29] Seus primeiros apoiadores incluíam Rogério de Mandeville, Ricardo de Redvers, Ricardo de Avranches e Roberto FitzHamon, além do clérigo Rogério de Salisbury.[30] Roberto tentou voltar atrás no acordo e retomar o condado, porém Henrique já era forte o bastante para impedí-lo[31] O reinado de Roberto no ducado foi caótico e certas terras de Henrique se tornaram praticamente independentes do controle central em Ruão.[32]

Parece que Guilherme e Roberto nunca confiaram em Henrique nesse período.[33] Este voltou a Inglaterra em julho de 1088 depois do fim da rebelião contra o rei.[34] Ele se encontrou com Guilherme, porém não conseguiu persuadi-lo a entregar as propriedades da mãe e voltou para a Normandia no outono.[35] Entretanto, enquanto esteve fora, o bispo Odão de Bayeux, que o considerava um competidor em potencial, convenceu Roberto que o irmão estava conspirando contra ele junto com Guilherme.[36] Henrique foi preso por Odão ao desembarcar e levado até Neuilly-la-Forêt, e Roberto tomou de volta o Condado de Cotentin.[37] Ele ficou preso durante o inverno, porém os nobres normandos prevaleceram sobre Roberto e Henrique foi solto na primavera de 1089.[38]

Henrique continuou a controlar o oeste da Normandia apesar de não ser mais oficialmente o Conde de Cotentin.[39] A luta entre Henrique e seus irmãos continuou. Guilherme continuou a derrotar suas resistências na Inglaterra e começou a construir várias alianças com barões normandos contra Roberto.[40] Robertou se aliou a Filipe I de França.[41] No final de 1090, Guilherme convenceu Conan Pilatos, um poderoso burguês de Ruão, a se rebelar contra Roberto; ele foi apoiado pela maior parte da cidade e apelou para que as guarnições ducais vizinhas trocassem de lado também.[42]

Roberto pediu ajuda aos barões, e Henrique foi o primeiro a chegar em Ruão no mês de novembro. A violência começou, levando a lutas nas ruas enquanto os dois lados tentavam tomar a cidade.[43] Roberto e Henrique deixaram o castelo para entrarem na batalha, porém Roberto recuou e Henrique continuou lutando. A batalha foi vencida pelas forças ducais e Henrique prendeu Conan.[44] Ele ficou furioso porque Conan se rebelou contra seu lorde feudal. Henrique o levou para o topo do Castelo de Ruão e o atirou para a morte, mesmo Conan se oferecendo a pagar uma grande quantia em dinheiro.[45] Contemporâneos consideram que ele fez a coisa certa ao transformar Conan em exemplo, e Henrique acabou ficando famoso por suas proezas na batalha.[46]

Ascensão e queda

Monte Saint-Michel, local do cerco de 1091.

Roberto forçou Henrique deixar Ruão, provavelmente porque o papel do irmão na luta foi maior que o dele, possivelmente também porque Henrique pediu para voltar a ser Conde de Cotentin.[47] No começo de 1091, Guilherme invadiu a Normandia com um exército grande o bastante para que Roberto negociasse. Os dois assinaram um tratado em Ruão, garantindo ao rei várias terras e castelos na Normandia. Em troca, ele prometeu ajudar Roberto a reconquistar o condado vizinho de Maine e readquirir o controle do ducado, incluindo as terras de Henrique.[48] Se nomearam herdeiros da Inglaterra e Normandia, excluindo Henrique de qualquer sucessão enquanto ainda eram vivos.[49]

Uma guerra começou entre Henrique e seus irmãos.[50] Esse mobilizou um exército mercenário no oeste da Normandia, porém as forças de Guilherme e Roberto avançaram e sua rede de barões ruiu.[51] Ele centrou suas forças restantes em Monte Saint-Michel, onde foi cercado provavelmente em março de 1091.[52] O local era de fácil defesa, porém não tinha água fresca.[53] O cronista Guilherme de Malmesbury sugeriu que quando a água de Henrique acabou, Roberto deu ao irmão novos suprimentos, gerando conflitos com Guilherme.[54] Não são claros os eventos dos dias finais do cerco: os sitiantes estavam discutindo a estratégia da campanha, porém Henrique abandonou a fortaeza, provavelmente como parte de um acordo de rendição.[nota 6][55] Ele foi para a Bretanha e então para o centro da França.[56]

Seus movimentos seguintes não são bem documentados; o cronista Orderico Vital sugere que ele viajou por mais de um ano com um grupo pequeno de seguidores por Vexin, ao longo da fronteira com a Normandia.[57] No final do ano, Roberto e Guilherme desentenderam-se novamente e o Tratado de Ruão foi abandonado.[58] Em 1092, Henrique e seus seguidores tomaram a cidade normanda de Domfront.[59] Ela era controlada por Roberto de Bellême, porém seus habitantes não gostavam dele e convidaram Henrique a tomar a cidade, que ele fez sem matar ninguém.[60] Nos dois anos seguintes ele restabeleceu sua rede de apoiantes no oeste da Normandia.[61] Em 1094, ele estava distribuindo castelos e terras para seus seguidores como Duque da Normandia.[62] Guilherme passou a apoiá-lo com dinheiro, encorajando uma campanha contra Roberto. Henrique usou parte do dinheiro para construir um castelo em Domfront.[63]

Guilherme foi para a Normandia em 1094 para guerrear com Roberto; quando o avanço parou, ele pediu a ajuda de Henrique.[64] Ele respondeu, mas viajou para Londres ao invés de se juntar à campanha principal no leste da Normandia, possivelmente por pedido do rei, que de qualquer forma abandonou a luta e voltou para a Inglaterra.[nota 7][66] Nos anos seguintes, Henrique fortaleceu sua base de poder na Normandia, visitando a Inglaterra ocasionalmente para participar da corte de Guilherme.[67] Em 1095, o Papa Urbano II convocou a Primeira Cruzada, encorajando cavaleiros de toda a Europa.[65] Roberto se juntou a cruzada com dinheiro emprestado de Guilherme, em troca garantindo ao rei a custódia temporária de parte do ducado.[68] Guilherme parecia confiante em reconquistar o resto da Normandia, e Henrique parecia estar mais próximo do rei. Os dois fizeram campanha por Vexin entre 1097 e 1098.[69]