Graciosa

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A Graciosa vista do espaço.
Localização da Graciosa.

A Graciosa é uma ilha situada no extremo noroeste do Grupo Central do arquipélago dos Açores, 37 km a nordeste da ilha de São Jorge e 60 km a noroeste da Terceira, com centro aproximadamente nas coordenadas geográficas 28° 05’ W e 39° 05’ N. Tem uma área aproximada de 60,66 km² e formato grosseiramente oval, com 12,5 km de comprimento e 7,5 km de largura máxima. É a menos montanhosa das ilhas açorianas, atingindo 405 metros de altitude máxima no bordo sul da Caldeira. Esta baixa elevação confere à ilha um clima temperado oceânico, caracterizado pela menor pluviosidade do arquipélago. A baixa pluviosidade leva à relativa secura da ilha, o que lhe dá no fim do estio uma tonalidade esbranquiçada, que associada ao casario branco das povoações lhe deu o epíteto de "ilha Branca", que lhe foi atribuído por Raul Brandão na obra "As Ilhas Desconhecidas" (1926).

Tem 4 391 habitantes (2011), na maioria concentrados na sede do único concelho da ilha, a vila de Santa Cruz da Graciosa, cujo centro histórico constitui, pela riqueza e equilíbrio da sua arquitectura, uma zona classificada. No passado, quando a população foi muito superior à actual, a falta de água constituiu um sério problema, levando à construção de reservatórios (tanques) e cisternas de vária natureza e aos emblemáticos tanques ("pauis") que são hoje a marca da principal praça de Santa Cruz da Graciosa.

A paisagem da Graciosa é de grande beleza, conjugando o verde das pastagens com o branco das casas isoladas e das povoações. Um dos "ex libris" da ilha é uma formação rochosa de grandes dimensões, em frente ao farol da Ponta da Barca, com uma configuração muito parecida com uma baleia vista de perfil. Possui campos férteis e aplainados que produzem milho, hortícolas, fruta (principalmente a meloa) e vinho e onde se cria gado bovino, hoje a principal fonte de riqueza da ilha.

Geomorfologia e geologia

A ilha Graciosa vista da ilha de São Jorge.
Graciosa vista do Toledo, ilha de São Jorge.
Graciosa vista do sul: ao centro, a freguesia da Luz; no extremo direito, o Maciço da Caldeira.
Graciosa: falésias da serra Branca vista de SE. A povoação na outra costa é Santa Cruz da Graciosa.
Graciosa: baleia de pedra da Ponta da Barca.
Graciosa: moinhos de vento (Vila da Praia, junto ao Porto).

A Graciosa situa-se no extremo noroeste da estrutura tectónica designada por rifte da Terceira, no fundo daquela zona do oceano Atlântico, com uma direcção geral sudeste-noroeste, coincidente com o eixo geral do arquipélago. Essa estrutura geológica conferiu à ilha uma configuração alongada ao longo do eixo do rifte, formando uma ovóide com 12,5 km de comprido por 7,5 km de largura máxima.

A linha de costa, muito acidentada e recortada por pequenas calhetas, é em geral baixa, com excepção do troço noroeste, correspondente à Serra Branca, onde a falésia excede os 300 metros de altura. Na costa abrem-se duas baías pouco profundas, a sueste surge a baía da Praia, onde se situa o porto da Vila da Praia, porto comercial e de pescas da ilha, e a sudoeste surge a baía do Filipe. A nordeste na zona de Santa Cruz da Graciosa abrem-se algumas pequenas calhetas, muito expostas ao mar, onde se anicham o porto de Santa Cruz, hoje zona balnear, e o cais da Barra, antigo porto baleeiro e comercial, hoje reduzido ao recreio náutico.

O território da ilha apresenta um relevo em geral aplainado, marcado por numerosos cones de escórias que lhe dão um carácter marcadamente vulcânico, com um relevo mais acentuado na parte meridional. A ilha pode ser dividida em cinco[1]

  • O Complexo da Serra das Fontes, ao longo da costa nordeste, muito escarpada e muito alterada pela tectónica local;
  • O Complexo da Baía do Filipe, é apenas identificado em pequenos afloramentos rochosos, na base da encosta da Baía do Filipe, na base da encosta do Quitadouro e na localidade de Pedras Brancas.
  • O Complexo da Serra Branca e da Serra Dormida, ocupando o terço centro-meridional da ilha, também muito desmantelado e alterado pela tectónica local;
  • O Complexo de Cobertura Basáltica (ex. Complexo Vulcânico da Vitória ou Plataforma de Santa Cruz), ocupando a metade noroeste da ilha, caracterizado por um relevo adoçado, com altitude máxima em torno dos 50 metros e pontuado por numerosos cones de escórias.
  • O Vulcão central (Maciço da Caldeira), no extremo sueste da ilha, constituído por um vulcão bem conservado, com uma caldeira central bem definida;


Complexo da Serra das Fontes

A Serra das Fontes ocupa a face norte da região central da ilha, apresentando um relevo complexo, muito alterado pela tectónica, com escarpas abruptas nos seus limites sudoeste e leste, sugerido a existência de falhas com um grande rejeito vertical. A altitude máxima deste maciço, 375 m apenas, é atingida no Pico do Facho, um cone de escórias bem conservado.

O litoral sueste do maciço é marcado pelo Quitadouro, um cone de bagacina em parte desmantelado pela erosão marinha. Ao longo do vale que separa a Serra das Fontes do Maciço da Caldeira existe uma escoada basáltica recente (<3 900 anos)[2] que forma o mistério que marca a periferia norte da vila da Praia.

A complexidade do relevo e a pequenez das bacias hidrográficas leva a que nesta região a rede de drenagem superficial seja incipiente, não apresentado qualquer curso estruturado. A zona mais alta da Serra apresenta algumas camadas superficiais relativamente impermeáveis, resultantes de paleo-solos soterrados e da formação de horizontes plácicos cimentados por óxidos de ferro e de manganésio. Estas camadas menos permeáveis constituem os aquitardos que permitem o aparecimento de múltiplas pequenas nascentes, muito valorizadas dada a escassez hídrica da ilha, que deram ao maciço o nome de Serra das Fontes, dado seu aproveitamento para abastecimento de água.

Complexo da Baía do Filipe

O Complexo da Baía do Filipe desenvolveu-se entre 472 000 e 433 000 anos de duas maneiras diferentes: a sudoeste (no mar) como um vulcão principal, e a noroeste, sobre os resquícios subaéreos do Complexo da Serra das Fontes, como edifícios vulcânicos secundários[1]. As erupções foram inicialmente efusivas e produziram fluxos de lavas basálticas, e posteriormente evoluíram para fluxos de lavas traquíticas. Podemos observar resquícios de rochas traquíticas, testemunhos deste complexo vulcânico, na localidade de Pedras Brancas.

Complexo da Serra Branca e Serra Dormida

O maciço da Serra Branca e da Serra Dormida é formado por duas linhas de relevo, as duas serras que lhe dão o nome, separadas por uma depressão quase linear de orientação noroeste-sueste.

A Serra Dormida, que constitui o flanco norte do maciço, é um alinhamento de cones vulcânicos, com as respectivas crateras, formados essencialmente por bagacinas basálticas avermelhadas, que atinge a sua maior altitude no Pico Timão (398 m), um grande cone detrítico encimado por uma cratera bem definida.

O flanco sul do maciço constitui a Serra Branca, também esta um conjunto de estruturas vulcânicas grosseiramente agrupadas em torno de um alinhamento paralelo ao eixo do Rifte da Terceira, com a sua cota máxima (375 m) na elevação onde se situa o Parque Eólico da Graciosa.

As escarpas da Serra Branca constituem o troço mais elevado da costa da ilha, com uma falésia com mais de 300 m de altura, em grande parte compostas por depósitos espessos de traquito esbranquiçado, que dá o nome à Serra.

A rede de drenagem desta região, apesar da pequenez das bacias drenantes, apresenta algum grau de organização.

Complexo de Cobertura Basáltica (ex. Complexo Vulcânico da Vitória ou Plataforma de Santa Cruz)

A plataforma de Santa Cruz é uma região aplainada, com cotas médias em torno dos 50 m, pontuada por cerca de 40 cones vulcânicos de bagacina basáltica, com grandes declives e crateras bem definidas. O mais alto desses cones é o pico das Caldeiras (181 m). De entre os cones destacam-se o Pico do Jardim e o Monte de Nossa Senhora da Ajuda, que flanqueiam a vila de Santa Cruz da Graciosa.

Devido ao seu fraco declive, esta região da ilha é desprovida de rede de drenagem superficial, sendo uma área de grande infiltração, contribuindo para a produtividade do aquífero basal da ilha, o qual aflora ao longo do litoral e é captado em múltiplos poços de maré.

Os solos desta região são de grande fertilidade, a que se associa a sua planura e baixa altitude, produzindo condições muito propícias à produção hortícola, com destaque para a produção de meloa e de alhos, produtos que dão fama à ilha. As zonas recobertas por lavas recentes são ocupadas por vinhedos, os quais foram em tempos a principal fonte de riqueza da ilha e que ainda justificam que a Graciosa seja uma região demarcada onde se fabricam vinhos licorosos de qualidade produzido em região determinada.

Vulcão central (Maciço da Caldeira)

O Maciço da Caldeira ocupa o terço sueste da ilha, com uma morfologia nitidamente diferenciada do resto do território, do qual está separado por um longo vale que se estende desde a vila da Praia até à Folga, seguindo pelas localidades da Canada Longa e das Pedras Brancas. Com a sua morfologia bem determinada pelo Rifte da Terceira, a maciço alonga-se ligeiramente no sentido sueste-noroeste, tendo no seu interior uma caldeira de bordos bem marcados, também ela ovóide, com cerca de 1 600 m de comprimento e 900 m de largura. No centro desta caldeira situa-se a Furna do Enxofre, uma cavidade vulcânica de grandes dimensões que contém no seu interior uma lagoa e um pequeno campo fumarólico.

As vertentes do maciço são de forma regular, com um declive que se acentua com a aproximação do bordo da caldeira, o qual é marcadamente assimétrico, atingindo a cota máxima de 405 m (Pico do Coirão) acima do nível do mar no seu extremo sueste (o ponto mais elevado da ilha) contra apenas 250 m no bordo noroeste.[3] Inserem-se nesta unidade geomorfológica os ilhéus da Praia e de Baixo, restos de cones periféricos, fortemente palagonitizados, muito desmantelados pela força erosiva do mar.

Na costa sueste e sul do maciço encontra-se algumas nascentes termais, uma das quais, a do Carapacho, é aproveitada nas Termas do Carapacho, um dos mais antigos estabelecimentos termais dos Açores.

A Furna do Enxofre é acessível por uma das duas aberturas no seu tecto, através de uma torre construída no interior da Furna. O tecto é uma imensa abóbada de basalto, da qual se desprenderam ao longo dos tempos grandes blocos que agora juncam o chão da gruta. O campo fumarólico sito nas imediações da torre, e a lama em ebulição que o rodeia, liberta grandes quantidades de gases, incluindo dióxido de carbono, que já causou algumas mortes entre os visitantes e obrigou à instalação de um sistema de monitorização de gases.


Geologia

A ilha Graciosa é um edifício vulcânico composto por cinco[1], (1) Complexo da Serra das Fontes; (2) Complexo da Baía do Filipe; (3) Complexo da Serra Branca; (4) Complexo de Cobertura Basáltica (ex. Complexo Vulcânico da Vitória) e (5) Vulcão Central. O edifício é predominantemente basáltico, com características que indiciam um vulcanismo predominantemente de baixa explosividade, embora apareçam alguns depósitos de natureza traquítico que indiciam fases de alguma explosividade.

A parte emersa da ilha terá sido iniciada há cerca de 1 050 000 anos[2] ou mais de 700 000 anos[1] com a formação de um vulcão em escudo, que ainda aflora no Complexo da Serra das Fontes, a parte mais antiga da ilha. A essa fase seguiram-se períodos de maior explosividade, associados às fracturas que percorrem a zona, que resultaram a formação de numerosos cones de escórias vulcânicas soldadas que constituem a maior parte das actuais Serra Dormida e Serra das Fontes.

O tipo de vulcanismo alterou-se radicalmente há cerca de 330 000 anos, com a formação de um vulcão de tipo central com caldeira, ligado a uma câmara com magma diferenciado, do qual resultaram erupções de grande explosividade que deram origem aos espessos mantos de traquito que constituem a Serra Branca.

Em período bem mais recente reactivou-se o vulcanismo basáltico, resultando na formação de um novo edifício vulcânico caracterizado pela sua baixa explosividade, que formou a Complexo de Cobertura Basáltica (ex. Complexo Vulcânico da Vitória), com os seus numerosos cones, e os numerosos mantos basálticos subaéreos que recobrem o centro e o norte da ilha. Esta fase evoluiu para sueste da ilha, dando origem ao maciço da Caldeira (Vulcão Central) e às estruturas que lhe estão associadas, bem como a diversas erupções surtseianas na periferia da ilha, das quais resultaram os actuais ilhéus e diversas estruturas submarinas próximas à costa. A última erupção desta fase ocorreu há cerca de 3 900 anos, dando origem ao Pico Timão e às escoadas basálticas que lhe estão associadas.