Godos

Godos

Os godos (em gótico Gut-þiuda; em nórdico antigo Gutar/Gotar) eram um povo germânico originário, segundo Jordanes, das regiões meridionais da Escandinávia. Nenhuma outra fonte primária menciona esta longa migração, que se pode ter tido início no mar Báltico ou no mar Negro e é possível que os godos tenham se desenvolvido como um povo distinto dos demais bárbaros nas fronteiras do Império Romano.[1] Os godos, segundo Jordanes, distinguiam-se por usarem escudos redondos e espadas curtas e por obedecerem fielmente a seus reis.

A única fonte da história inicial dos godos é a Gética de Jordanes (publicada em 551), resumo de uma obra anterior chamada Libri XII De Rebus Gestis Gothorum,[2] escrita em doze volumes pelo escritor romano Cassiodoro por volta de 530. A obra de Cassiodoro perdeu-se e Jordanes nem mesmo a devia ter em mãos para consulta, portanto essa fonte primária deveria ser considerada com cuidado. O próprio Cassiodoro estava no lugar certo para escrever sobre os godos, por ser ele um dos principais ministros de Teodorico, o Grande, que certamente havia ouvido algumas das canções góticas que falavam de suas origens tradicionais.

Outras fontes principais para a sequência da história gótica incluem a História de Amiano Marcelino, que menciona o envolvimento gótico na guerra civil entre os imperadores Procópio e Valente em 365 e relata a crise dos refugiados e a guerra gótica de 377-382 e o De Bello Gothico de Procópio de Cesareia, que descreve as Guerras Góticas de 535-554.

Beowulf, o herói do poema épico homónimo, era um godo.

História

Origens

Possíveis locais de origem dos godos, 200

O historiador gótico-bizantino Jordanes no século VI aponta a região de origem dos Godos como sendo a ilha chamada de Scandza - talvez a atual Suécia ou a Gotlândia, de onde os Godos teriam emigrado por volta de 1490 a.C.[3][4][5][6]
A primeira referência histórica aos Godos é feita pelo historiador romano Tácito em 98 d.C. que os coloca na região do Vístula (atual Polónia).[7]
No século II, os Godos migram sucessivamente e em pequenos grupos para as margens do mar Negro, para aquilo que hoje é a Roménia, a Moldávia e a Ucrânia.[8]
Aí eles se dividiram em dois grupos: os tervíngios, povo gótico do qual possivelmente se originaram os visigodos, residentes nas margens do rio Danúbio e os grutungos, povo gótico do qual possivelmente se originaram os ostrogodos, nas margens do rio Dnestr.[9]
Alguns povos como os vândalos e os gépidas tinham parentesco com os godos.
A arqueologia revela que um povo se deslocou da região da Polónia para as margens do mar Negro, havendo semelhanças importantes entre a Cultura de Vilemberga, e a Cultura de Cherniachov.[10]

A substituição aconteceu quando um assentamento escandinavo foi estabelecido na zona de separação entre a cultura Oksywie e a provavelmente a cultura Przeworsk vândala.[11]

Todavia, durante o final da Idade do Bronze Nórdica e o começo da Idade do Ferro pré-romana (1 300-300 a.C.), esta região sofreu influências do sul da Escandinávia.[12] De fato, a influência escandinava na Pomerânia e no actual norte da Polónia a partir de 1 300 a.C. foi a partir daí tão considerável que esta região é às vezes incluída na cultura da Idade do Bronze Nórdica.[13]

Acredita-se que os godos tenham cruzado o mar Báltico em algum momento entre o fim da Idade do Bronze Nórdica (300 a.C.) e o ano 100 de nossa era. De acordo com pesquisas antigas, na tradicional província sueca de Gotlândia Oriental, evidências arqueológicas mostram que houve uma despovoação geral durante este período.[14] No entanto, isto não é confirmado nas publicações recentes.[15]

Territórios originais dos godos e culturas arqueológicas góticas entre os séculos III-IV

Os assentamentos na actual Polónia provavelmente correspondem à introdução de tradições funerárias escandinavas, tais como círculos de pedra e menires, que indicam que os primeiros godos preferiam sepultar seus mortos de acordo com as tradições escandinavas. O arqueólogo polaco Tomasz Skorupka afirma que a migração a partir da Escandinávia é uma questão confirmada:

Apesar das muitas hipóteses controversas quanto à localização da Escândia (por exemplo, na ilha de Gotlândia e nas províncias de Gotlândia Ocidental e Gotlândia Oriental), o facto é que os godos chegaram ao que hoje é a Polónia vindos do norte cruzando o mar Báltico em barcos.[16]

No entanto, a cultura gótica também parece ter tido continuidade a partir das antigas culturas da região,[17] o que sugere que os imigrantes se mesclaram com as populações nativas, talvez fornecendo sua aristocracia em separado. O académico de Oxford, Heather, sugere que foi uma migração relativamente pequena a partir da Escandinávia.[18] Este cenário tornaria a migração através do Báltico similar a muitos outros movimentos populacionais na história, tal como a invasão anglo-saxã, onde os imigrantes impuseram suas próprias cultura e língua sobre as locais. A Cultura de Vilemberga deslocou-se para sudeste em direção à região do mar Negro a partir da metade do século II. Foi a parte mais antiga da cultura Vilemberga, localizada a oeste do Vístula e que possuía tradições funerárias escandinavas, que iniciou o deslocamento.[16] Na Ucrânia, eles impuseram-se como governantes da Cultura de Zarubinetse local, provavelmente eslava, formando a cultura Cherniachov.

Invasões góticas (267-269)

Os assentamentos Cherniachov ficavam nos campos abertos nos vales dos rios. As casas incluem residências subterrâneas, residências de superfície e barracas. O maior assentamento conhecido (Budesty) possuía 35 hectares.[19] A maioria dos assentamentos era aberto e não fortificado. Algumas fortalezas são também conhecidas.

Os cemitérios Cherniachov incluem funerais de cremação e de inumação; entre os últimos, a cabeça está para o norte. Alguns túmulos foram deixados vazios. Objetos encontrados nas tumbas incluem cerâmica, pentes de osso e ferramentas de ferro, mas quase nunca qualquer arma.[20]

A partir do século III os godos já estavam bem assentados e a partir dai começaram a fazer incursões para o sul em direção aos Bálcãs. A partir de 263 os godos começaram a penetrar nos Bálcãs e a atacar diversas regiões romanas, saqueando Bizâncio em 267. Dois anos depois, os godos sofreram uma esmagadora derrota na Batalha de Naísso (269) onde acabaram por serem repelidos de volta para o mar Negro.

Apesar da maioria dos guerreiros nômades demonstrarem ser sanguinários, os godos eram temerosos porque os cativos capturados nas batalhas eram sacrificados ao seu deus da guerra, Tyr,[21] e as armas tomadas eram penduradas em árvores como oferendas. Seus reis e sacerdotes eram procedentes de uma aristocracia separada[22] e seus reis míticos do passado eram honrados como deuses.

Reino godo no mar Negro

Ver artigo principal: Cristandade gótica

Durante o governo de Aquiulfo, os godos ocuparam as terras que rodeiam o Volga e submetendo os sármatas, citas e gépidas. Em 350, Aquiulfo foi sucedido por Hermenerico. Hermenerico, foi o último rei dos godos unificados, às vésperas das invasões bárbaras do Império Romano. Embora os limites exatos de seu território ainda sejam obscuros, ele parece ter se estendido a partir do sul dos pântanos de Pripet, entre os rios Don e Dniestre.

Sabe-se com alguma segurança apenas que os feitos militares de Hermenerico fizeram com que ele fosse temido pelos povos vizinhos, e que cometeu suicídio ao desesperar-se por não poder resistir com sucesso aos hunos, que invadiram seu território a partir de 370. Seu reino foi destruído e seu povo acabou dividindo-se em visigodos e ostrogodos. Os visigodos se mantiveram sob o rei Fritigerno e os ostrogodos com o rei Vitimiro.

Tanto os ostrogodos quanto os visigodos nitidamente se romanizaram durante o século IV pela influência do comércio com os bizantinos, e por sua participação em um pacto militar com o Império Bizantino para ajuda militar mútua. Eles se converteram ao arianismo durante esta época.