Civilização maia

Nota: Se procura pelo livro de Eça de Queirós, consulte Os Maias; para outros significados do termo, veja Maia (desambiguação).



Maias
2 600 a.C. – 1697
Localização de Maias
Extensão máxima da civilização maia na Mesoamérica.
El Castillo Stitch 2008 Edit 1.jpg
O Templo de Kukulcán em Chichén Itzá.
ContinenteMesoamérica
CapitalNão especificada
Língua oficialLínguas maias
ReligiãoPoliteísmo maia
GovernoCidades-Estado
Período históricoAntiguidade e Era Moderna
 • 2 600 a.C.Primeiros assentamentos
 • 750 a.C.Início da construção de cidades
 • 1697Tomada de Tayasal pelo Império Espanhol

A civilização maia foi uma cultura mesoamericana pré-colombiana, notável por sua língua escrita (único sistema de escrita do novo mundo pré-colombiano que podia representar completamente o idioma falado no mesmo grau de eficiência que o idioma escrito no velho mundo), pela sua arte, arquitetura, matemática e sistemas astronômicos. Inicialmente estabelecidas durante o período pré-clássico (1000 a.C. a 250 d.C.), muitas cidades maias atingiram o seu mais elevado estado de desenvolvimento durante o período clássico (250 d.C. a 900 d.C.), continuando a se desenvolver durante todo o período pós-clássico, até a chegada dos espanhóis. No seu auge, era uma das mais densamente povoadas e culturalmente dinâmicas sociedades do mundo.[1]

A civilização maia compartilha muitas características com outras civilizações da Mesoamérica, devido ao alto grau de interação e difusão cultural que caracteriza a região[2]. Avanços como a escrita, epigrafia e o calendário não se originaram com os maias; no entanto, sua civilização se desenvolveu plenamente. A influência dos maias pode ser detectada em países como Honduras, Guatemala, El Salvador e na região central do México, a mais de 1 000 km da área maia.[3]. Muitas influências externas são encontrados na arte e arquitetura Maia, o que acredita-se ser resultado do intercâmbio comercial e cultural, em vez de conquista externa direta[3]

Os povos maias nunca desapareceram, nem na época do declínio no período clássico, nem com a chegada dos conquistadores espanhóis e a subsequente colonização espanhola das Américas. Hoje, os maias e seus descendentes formam populações consideráveis em toda a área antiga maia e mantêm um conjunto distinto de tradições e crenças que são o resultado da fusão das ideologias pré-colombianas e pós-conquista (e estruturado pela aprovação quase total ao catolicismo romano). Muitas línguas maias continuam a ser faladas como línguas primárias ainda hoje; o Rabinal Achí, uma obra literária na língua achi, foi declarada uma obra-prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura em 2005. A arquitetura maia era bastante desenvolvida e ostentava obras grandiosas,tecnicamente qualificadas e com grande variedade e beleza de formas.

História

Ver artigos principais: Era pré-colombiana e Mesoamérica

Período pré-clássico

Mapa histórico dos territórios habitados por povos de língua maia

Os estudiosos continuam a discutir quando esta civilização começou. Descobertas de ocupação maia em Cuello, no Belize, foram datadas de cerca de 2600 a.C, através da datação por carbono.[4][5] O calendário maia, que se baseia no chamado calendário de contagem longa mesoamericano, começa em uma data equivalente a 11 de agosto de 3114 a.C.

Desde 2010, a teoria mais aceita é a de que os primeiros assentamentos claramente maias foram estabelecidos por volta de 1800 a.C. na região de Soconusco, na costa do Pacífico. Esse período, conhecido como o início do período pré-clássico,[6] foi caracterizado por comunidades sedentárias e com a introdução de obras com cerâmica.[7]

Entre os locais mais importantes nas terras maias mais baixas do sul da Península de Iucatã estão Nakbé, El Mirador, Cival e San Bartolo. Nas áreas mais altas da Guatemala, a cidade de Kaminaljuyu surgiu por volta de 800 a.C. Por muitos séculos, controlou as fontes de jade e obsidiana das regiões de Petén e e do Pacífico. Os importantes sítios iniciais de Izapa, Takalik Abaj e Chocolá, em torno de 600 a.C. eram os principais produtores de cacau. As comunidades maias de médio porte também começaram a se desenvolver nas terras baixas maias do norte durante o meio e o final do período pré-clássico, ainda que estas ainda não tinham o tamanho, a escala e a influência dos grandes centros urbanos das terras baixas do sul. Entre os dois sítios arqueológicos mais importantes do norte pré-clássico estão Komchen e Dzibilchaltun. A primeira inscrição escrita em hieróglifos maias também remonta a esse período (c. 250 a.C.).[8]

Estudiosos divergem sobre os limites que definem a extensão física e cultural do início da civilização maia e das civilizações mesoamericanas pré-clássicas vizinhas, como a cultura dos olmecas, os povos de línguas mixe-zoqueanas e zapotecas de Chiapas e sul de Oaxaca, respectivamente. Muitos dos primeiros edifícios e inscrições mais significativas apareceram nesta zona de sobreposição e as evidências sugerem que essas culturas externas e os maias influenciaram a formação um do outro.[9]

Por volta de 100 d.C, um declínio generalizado e abandono das cidades maias ocorreu, o que ficou conhecido como "colapso do pré-clássico", o que marcou o fim do período.[10]

Período clássico

Ruínas de El Caracol, no Belize
Tulum, antiga cidade maia localizada no México

O período clássico (c. 250-900 d.C.) foi um dos picos da construção em grande escala e do urbanismo, com a gravação de inscrições em monumentos e um desenvolvimento intelectual e artístico significativo, em particular nas regiões de planície do sul.[11]

As pessoas desenvolveram uma civilização centrada em cidades e baseada na agricultura, composta por várias cidades-Estados independentes entre si, mas algumas subservientes a outras.[10] Isto inclui cidades bem conhecidas, como El Caracol, Tikal, Palenque, Copán, Xunantunich e Calakmul, mas também menos conhecidas, como Lamanai, Dos Pilas, Cahal Pech, Uaxactun, Altun Ha e Bonampak, entre outras. A distribuição dos assentamentos do início do período clássico nas planícies do norte não é tão claramente conhecida como das regiões ao sul, mas inclui uma série de centros populacionais, como Oxkintok, Chunchucmil e a ocupação antecipada de Uxmal. Durante este período, a população maia chegava a milhões. Eles criaram uma multidão de pequenos reinos e impérios, construíram palácios e templos monumentais, cerimônias ritualísticas altamente sofisticadas e desenvolveram um elaborado sistema de escrita hieroglífica.[12]

A base social dessa exuberante civilização era uma grande rede política e econômica interligada que se estendia por toda a região maia e para além do mundo mesoamericano. As unidades políticas, econômicas e culturais dominantes "centrais" do sistema maia clássico estavam localizadas nas planícies centrais, enquanto as correspondentes unidades maias dependentes ou "periféricas" eram encontradas ao longo das margens do altiplano sul e de áreas de várzea do norte. Mas, como em todos os sistemas do mundo, os principais centros principais maias mudaram através do tempo, começando durante a era pré-clássica em terras altas do sul, quando se deslocaram para as terras baixas centrais durante o período clássico e, finalmente, quando mudaram para o norte da península durante o período pós-clássico. Neste sistema político, as unidades semi-periféricas maias geralmente tomavam a forma de centros comerciais.[13]

Os monumentos mais notáveis ​​são as pirâmides escalonadas que construíram em seus centros religiosos e os palácios que abrigavam seus governantes. O palácio em Cancuén é o maior em área feito pelos maias, mas o sítio arqueológico não tem pirâmides. Outros vestígios arqueológicos importantes incluem lajes de pedra esculpidas, geralmente chamados de estelas (os maias chamava tétum, ou "árvore-pedra"), que retratam os governantes junto com textos hieróglifos descrevendo sua árvore genealógica, vitórias militares e outras realizações.[14]

A civilização maia participava do comércio de longa distância com muitas das outras culturas mesoamericanas, incluindo o povo da cidade de Teotihuacan, os zapotecas e outros grupos na região central e do golfo da costa do atual México. Além disso, eles mantinham comércio e intercâmbio com grupos mais distantes, não mesoamericanas, por exemplo, os taínos das ilhas do Caribe. Arqueólogos encontraram ouro do Panamá no Cenote Sagrado de Chichén Itzá. Bens comerciais importantes incluíam o cacau, sal, conchas, jade e obsidiana.[15]

Decadência e colapso

Ver artigo principal: Colapso maia
As ruínas de Tikal, na Guatemala, cobertas pela mata

Os centros urbanos maias das terras baixas do sul entraram em declínio durante os séculos VIII e IX e foram abandonados pouco tempo depois. Este declínio foi associado com uma cessação das inscrições monumentais e da construção arquitetônica em larga escala.[16] A teoria universalmente aceita explica este colapso.

As teorias não-ecológicas sobre o declínio maia são divididas em várias subcategorias, como superpopulação, invasão estrangeira, revolta camponesa e colapso de rotas comerciais importantes. As hipóteses ecológicas incluem desastre ambiental, doenças epidêmicas e mudanças climáticas. Há evidências de que a população maia ultrapassou a capacidade do ambiente a sua volta, com o esgotamento do potencial agrícola do solo e a caça excessiva de megafauna.[17] Alguns estudiosos recentemente teorizaram que uma intensa seca de 200 anos na região levou ao colapso da civilização maia.[18] Esta teoria foi criada a partir de pesquisas realizadas por cientistas que estudaram leitos de lagos,[19] pólen antigo e outros dados e não da comunidade arqueológica.

Pesquisas de 2011, com o uso de modelos climáticos de alta resolução e novas reconstruções de paisagens do passado, sugere que a conversão de grande parte das florestas por áreas agrícolas maias pode ter levado a uma redução da evapotranspiração e, portanto, de chuvas, o que pode ter ampliado a seca natural.[20] Um estudo publicado na revista Science em 2012 descobriu que reduções modestas das precipitação, de apenas 25 a 40% da precipitação anual, podem ter sido o ponto de inflexão para o colapso da civilização maia. Com base em amostras de sedimentos do lago e cavernas nas áreas circundantes das principais cidades maias, os pesquisadores foram capazes de determinar a quantidade de precipitação anual na região. As secas leves que ocorreram entre 800 d.C. e 950 foram suficientes para reduzir rapidamente o suprimento de água.[21][22] Uma outra publicação na mesma revista apoia e estende essa conclusão com base em análise de isótopos de minerais em uma estalagmite. Ela argumenta que a alta taxa de pluviosidade entre 440 e 660 d.C. permitiu aos maias florescerem e que secas leves nos anos seguintes levaram a uma extensa guerra e ao declínio da civilização, um período prolongado de seca entre 1020 e 1100 acabou por ser fatal.[23]

Período pós-clássico

Chichén Itzá, um dos principais centros do período pós-clássico

Durante o período pós-clássico posterior (do século X ao início do século XVI), o desenvolvimento dos centros das terras do norte persistiu, caracterizado por uma crescente diversidade de influências externas. As cidades maias das planícies do norte da Península de Iucatã continuou a florescer durante séculos depois; alguns dos locais importantes nesta época eram Chichén Itzá, Uxmal, Edzná e Cobá. Após o declínio das dinastias de Chichen e Uxmal, Mayapan governou toda Iucatã até uma revolta em 1450. (O nome desta cidade pode ser a origem da palavra "maia", que tinha um significado mais geograficamente restrito e só cresceu ao seu significado atual nos séculos XIX e XX). A área então degenerou em cidades-Estado concorrentes até a península ser conquistada pelo Império Espanhol.

Os povos maias itza, ko'woj e yalain de Petén Central sobreviveram ao "colapso do período clássico" em pequenas quantidades e por volta de 1250 se reconstituíram para formar cidades-Estados concorrentes. Os itza mantiveram sua capital em Tayasal (também conhecida como Noh Petén), um sítio arqueológico que acredita-se ser subjacente à moderna cidade de Flores, Guatemala, no Lago Petén Itzá. Ela governou sobre uma área que se estendia através da região dos Lagos Petén, abrangendo a comunidade de Eckixil, no Lago Quexil. Os ko'woj tinha sua capital em Zacpeten. Os Estados maias pós-clássicos também continuaram a sobreviver nas terras altas do sul. Uma das nações maias nesta área, o Reino de Gumarcaj, é responsável pelo trabalho mais conhecido da historiografia e mitologia maia, o Popol Vuh. Outros reinos das terras altas incluíam os povos mames, baseados em Huehuetenango; os kaqchikels, baseado em Iximche; os chajoma, baseados em Mixco Viejo[24] e os chuj, sediados em San Mateo Ixtatán.

Domínio espanhol

Desenho de Frederick Catherwood das ruínas do complexo de Uxmal
Ver artigo principal: Conquista do Iucatã
Ruínas de uma antiga igreja cristã construída pelos espanhóis com as pedras de antigos templos maias localizados no sítio arqueológico de Dzibilchaltún (ca. 1590–1600)

Pouco depois de suas primeiras expedições à região, os espanhóis iniciaram uma série de tentativas de subjugar os maias, que eram hostis ao domínio espanhol, e estabeleceram uma presença colonial nos territórios maias da península de Iucatã e nas terras altas da Guatemala. Esta campanha, às vezes chamada de "conquista espanhola de Iucatã", viria a ser um exercício demorado e custoso para os conquistadores desde o início e demandaria cerca de 170 anos e dezenas de milhares de soldados indígenas antes de os espanhóis terem controle substancial sobre todo o território maia.

Ao contrário dos impérios inca e asteca, não havia um único centro político que, uma vez derrubado, apressasse o fim da resistência coletiva dos povos maias. Em vez disso, as forças dos conquistadores tiveram que subjugar as várias entidades políticas independentes maias quase uma a uma, muitas das quais mantiveram uma resistência feroz ao domínio espanhol. A maioria dos conquistadores eram motivados pelas perspectivas de grande riqueza a ser obtida a partir da apreensão de metais preciosos, como ouro ou prata; no entanto, os maias eram pobres nesses recursos. Isto viria a ser um outro fator que retardaria projetos espanhóis de conquista da região, já que os espanhóis foram, inicialmente, atraídos para os relatos de grandes riquezas em outras regiões: a região central do México e o Peru.

A igreja e funcionários do governo espanhol destruíram textos maias e, com eles, o conhecimento da escrita tradicional, mas, por acaso, três dos livros pré-colombianos datados do período pós-clássico foram preservados.[25] Estes são conhecidos como Códice de Madrid, Códice de Dresden e Códice de Paris.[26] Os últimos Estados maias, a cidade itza de Tayasal e a cidade ko'woj de Zacpeten, foram continuamente ocupados e mantiveram-se independentes do Império Espanhol até o final do século XVII. Por fim, foram derrotados pelos espanhóis no ano de 1697.