Che Guevara

Ernesto Guevara
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Che Guevara (fotografia de Alberto Korda intitulada Guerrilheiro Heroico)
Nome completoErnesto Guevara
Nascimento14 de junho de 1928[1]
Rosário, Província de Santa Fé, Argentina Argentina
Morte9 de outubro de 1967 (39 anos)
La Higuera, Bolívia Bolívia
OcupaçãoMédico, fotógrafo, guerrilheiro, político, jornalista, escritor
Assinatura
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Ernesto Guevara, conhecido como "Che" Guevara (Rosário, 14 de junho de 1928[1]La Higuera, 9 de outubro de 1967)[nota 1], foi um guerrilheiro, político, jornalista, escritor e médico argentino-cubano.[3] Foi um dos ideólogos e comandantes que lideraram a Revolução Cubana (1953-1959) que levou a um novo regime político em Cuba. Ele participou desde então, até 1965, da reorganização do Estado cubano, desempenhando vários altos cargos da sua administração e de seu governo, principalmente na área econômica, como presidente do Banco Nacional e como Ministro da Indústria, e também na área diplomática, encarregado de várias missões internacionais. Convencido da necessidade de estender a luta armada revolucionária a todo o Terceiro Mundo, Che Guevara impulsionou a instalação de grupos guerrilheiros em vários países da América Latina. Entre 1965 e 1967, lutou no Congo e na Bolívia, onde foi capturado e assassinado de maneira clandestina e sumária pelo exército boliviano, em colaboração com a CIA, em 9 de outubro de 1967.

A sua figura desperta grandes paixões, a favor e contra, na opinião pública, e converteu-se em um símbolo de importância mundial. Foi considerado pela revista norte-americana Time uma das cem personalidades mais importantes do século XX.[4] Para muitos dos seus partidários, representa a rebeldia, a luta contra a injustiça social e o espírito incorruptível. Em contrapartida, muitos dos seus opositores o consideram um criminoso, responsável por assassinatos em massa, e acusam-no de má gestão como ministro da Indústria. Seu retrato fotográfico, obra de Alberto Korda, é uma das imagens mais reproduzidas do mundo e um dos ícones do movimento contracultural. Tanto a fotografia original como suas variantes, algumas apenas com o contorno do seu rosto, têm sido intensamente reproduzidas, para uso simbólico, artístico ou publicitário.

Guevara foi também um grande intelectual. Aprendeu o xadrez de seu pai e começou a participar de torneios locais aos 12 anos de idade. Durante a adolescência e ao longo de sua vida, ele se apaixonou por poesia, especialmente a de Pablo Neruda, John Keats, Antonio Machado, Federico García Lorca, Gabriela Mistral, César Vallejo e Walt Whitman. Ele também podia recitar o " If- " de Rudyard Kipling e o Martín Fierro de José Hernández de cor.[5] A casa de Guevara continha mais de 3.000 livros, o que permitiu que Guevara fosse um leitor entusiasmado e eclético, com interesses em Karl Marx, William Faulkner, André Gide, Emilio Salgari e Jules Verne.[6] Além disso, Che Guevara apreciou as obras de Jawaharlal Nehru, Franz Kafka, Albert Camus, Vladimir Lenin e Jean-Paul Sartre; bem como Anatole France, Friedrich Engels, HG Wells e Robert Frost.[7]

Biografia

Acta de nacimento de Ernesto Guevara.
O pequeno Ernesto, em 1929.

Muitas biografias dizem que Ernesto Che Guevara nasceu no dia 14 de junho de 1928, mas segundo outras fontes, nasceu no dia 14 de maio de 1928, exatamente um mês antes[1].

Era o mais velho dos cinco filhos de Ernesto Guevara Lynch (1901–1997) e de Celia de la Serna y Llosa (1906–1965), ambos pertencentes a famílias da classe alta argentina. Um bisavô paterno, Patricio Julián Lynch y Roo (1789 - 1881), grande estancieiro e armador, foi considerado, em seu tempo, como um dos homens mais ricos da América do Sul.[8]

Seus pais alternavam a sua residência da capital de Buenos Aires com a de Caraguatay, na província de Misiones, separados por 1.800 km de hidrovia, onde as plantações de erva mate estavam em sua propriedade. É a partir daqui que se aproxima o momento do nascimento, os pais de Ernesto decidiram voltar a Buenos Aires para que foi devidamente testemunhado, utilizando linhas de navegação que operam no rio Paraná. No entanto, a entrega foi em frente e tiveram que descer no porto de Rosário, onde, no Hospital Centenário, Che Guevara nasceu[9].

O filho foi registrado no dia seguinte com o nome de Ernesto Guevara e depois que a mãe recebeu alta, se hospedaram por alguns dias em um apartamento, até que ambos fossem capazes de continuar a viagem para Buenos Aires.

Nos Primeiros anos de Ernesto, ele ia viajando entre as casas que seus pais tinham em Buenos Aires e Caraguatay, indo e vindo em barcos a vapor do rio Paraná, conforme as necessidades de produção de erva-mate e do clima. Ernesto foi apelidado pelos seus pais de Ernestito, para diferenciá-lo do pai, depois de Tete, pelo qual foi apelidado e indistintamente chamado pela sua família e pelos seus amigos de infância.

Em Buenos Aires, moraram em áreas nobres e de alto padrão, primeiro no bairro de Palermo (Santa Fe e Guise), em seguida, na cidade de San Isidro (Calle Alem) e, finalmente, no bairro da Recoleta (Sanchez de Bustamante 2286). Vivendo em San Isidro, com dois anos de idade teve o primeiro ataque de asma, uma doença que iria sofrer por toda sua vida e que iria levar a família para ir a Córdoba. O pai sempre culparia a mãe pela asma de Ernesto, atribuindo isso à bronquite agravada pela falta de atenção para com este em uma manhã fria enquanto nadava no aristocrático Clube Náutico San Isidro![10]

Em Caraguatay, os pais de Ernesto contrataram uma babá para seu filho, Carmen Arias, uma galega que viveria com a família até 1937 e que foi quem lhe deu o apelido de Tete. Da erva dos pais de Ernesto e da estância em Misiones, adquiriu um gosto para mate, que foi sua paixão em toda a sua vida.[11]

Devido à gravidade e persistência da asma afetando Ernesto, a família tentou achar um lugar com um clima mais adequado. Seguindo as recomendações dos médicos, decidiu se mudar para a província de Córdoba, um destino clássico na época para as pessoas com problemas respiratórios, devido às condições meteorológicas e as altitudes mais elevadas. Após passar um tempo na cidade de Córdoba, capital da província, a família estabeleceu-se em Alta Gracia.

Em 1944, os empreendimentos da família de Che vão mal e Ernesto emprega-se como funcionário da Câmara de uma vila, nos arredores de Córdoba, para ajudar as finanças em casa, sem deixar, contudo, de estudar. Em 1946, terminou o liceu. Os Guevara mudaram-se para Buenos Aires e Ernesto ingressou na universidade, estudando medicina. Na capital, Ernesto empregou-se outra vez como funcionário municipal e mais tarde numa tipografia, continuando, não obstante, o curso de medicina.[12]

Che em 1945, com dezessete anos.

Em 1 de Janeiro de 1951, seis meses antes de se formar em Medicina, decide iniciar uma viagem por grande parte do território argentino em uma bicicleta adaptada com um motor cucciolo italiano[13], o que lhe rendeu uma foto com a seguinte publicação em uma revista da época que se chamava "Gráfico":[14]

"El estudiante de medicina argentino Ernesto Guevara de la Serna en su bicicleta con motor Cucciolo, ha recorrido con ella toda la República[15]"

Em 4 de Janeiro de 1952, com Alberto Granado, antes mesmo de ser conhecido como "Chê", inicia uma nova grande viagem, desta vez, pelo continente, de Buenos Aires a Caracas, na velha motocicleta do companheiro, uma Norton 500 cc, fabricada em 1939 e apelidada de La Poderosa II.[16]

Fez uma viagem, começada de moto e terminada a pé, pelas províncias argentinas de Tucumán, Mendoza, Salta, Jujuy e La Rioja, na qual percorreu diversos resorts Andinos. Nessa viagem, Guevara começa a ver a América Latina como se fosse uma única entidade económica e cultural. Visita minas de cobre, povoações indígenas e leprosarias. De volta à Argentina em 1953 acaba os estudos de Medicina e passa a dedicar-se à política.

Ernesto Guevara, em 1951, seis meses antes de sua viagem pelo continente.

Em 1953, Guevara atuou como repórter fotográfico cobrindo os Jogos Pan-Americanos do México, por uma agência de notícias argentina. Ainda em julho de 1953, inicia sua segunda viagem pela América Latina. Nessa oportunidade visita Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Panamá, Costa Rica, El Salvador e Guatemala.

Diante da miséria que presenciou em suas viagens, Ernesto Guevara concluiu que a única maneira de acabar com a desigualdade social era promovendo o comunismo. [17]

Em sua passagem pela Guatemala, onde chegou em dezembro de 1953, Che presencia a luta do recém-eleito presidente Jacob Arbenz Guzmán, que liderava um governo socialista, na tentativa de realizar reformas de base e eliminar o latifúndio.

O governo americano se opunha a Arbenz e, através da CIA, coordenou várias ações, incluindo o apoio a grupos paramilitares, contra o então governo socialista da Guatemala. As experiências na Guatemala são importantes na construção de sua consciência política. Lá, Che Guevara autodefine-se um revolucionário e posiciona-se contra o suposto imperialismo americano.

Nesse meio tempo, Che conhece Hilda Gadea, com quem se casa e de cuja união nasce sua primeira filha, Hildita.

Che em 1958

Em 1954, no México através de Ñico López, um amigo de guerrilha na Guatemala, ele conhece Raúl Castro que logo o apresentaria a seu irmão mais velho, Fidel Castro. Esse organiza e lidera o movimento guerrilheiro 26 de Julho, ou M26, em referência ao assalto ao Quartel Moncada, onde em 26 de julho de 1953, Fidel Castro liderou um ataque militar na qual tentava tomar a principal prisão de presos políticos em Santiago. Guevara faz parte dos 72 homens que partem para Cuba em 1956 com Fidel Castro e dos quais só 12 sobreviveriam. É durante esse ataque que Che larga a maleta médica por uma caixa de munição de um companheiro abatido, um momento que tempos depois ele iria definir como o marco divisor na sua transição de doutor a revolucionário. Em seguida eles se instalam nas montanhas da Sierra Maestra de onde iniciam o golpe contra o presidente cubano Fulgencio Batista, que era apoiado pelos Estados Unidos.

Os rebeldes lentamente se fortalecem, aumentando seu armamento e angariando apoio e o recrutamento de muitos camponeses, intelectuais e trabalhadores urbanos. Guevara toma a responsabilidade de médico revolucionário, mas, em pouco tempo, foi se tornando naturalmente líder e seguido pelos rebeldes.

Após a vitória da guerrilha em 1959, Batista exila-se em São Domingos e instaura-se um novo regime em Cuba, de orientação socialista. Mas teria sido a hostilidade dos Estados Unidos que levou Fidel Castro ao seu alinhamento com a URSS. "Eu tinha a maior vontade de entender-me com os Estados Unidos. Até fui lá, falei, expliquei nossos objetivos. (…) Mas os bombardeios, por aviões americanos, de nossas fazendas açucareiras, das nossas cidades; as ameaças de invasão por tropas mercenárias e a ameaça de sanções econômicas constituem agressões à nossa soberania nacional, ao nosso povo".[nota 2]

Governo cubano

Che Guevara em Moscovo

Guevara, então braço direito de Fidel, torna-se um dos principais dirigentes do novo estado cubano: Embaixador, Presidente do Banco Nacional, Ministro da Indústria.

Che esteve oficialmente no Brasil em agosto de 1961, quando foi condecorado pelo então presidente, Jânio Quadros, com a Grã Cruz da ordem Nacional do Cruzeiro do Sul.[18] A outorga dessa condecoração foi o desfecho de uma articulação diplomática, iniciada pelo Núncio apostólico no Brasil, monsenhor Armando Lombardi, seguindo as instruções da Santa Sé, solicitando a ajuda do governo do Brasil para fazer cessar a perseguição movida contra a Igreja Católica em Cuba. Jânio Quadros solicitou a mediação de Che junto a Fidel. Guevara atendeu ao pedido de Jânio e concordou em ser o intermediário do apelo do Vaticano junto ao governo cubano.[19]

Jânio Quadros condecora Ernesto Guevara com a Ordem do Cruzeiro do Sul, 1961. Arquivo Nacional.

Meses antes alertara Fidel da existência da "operação Magusto", a invasão da Baía dos Porcos tentada por 1.297 anticastristas exilados, oriundos do governo de Fulgêncio Batista. A "operação Magusto" foi uma operação militar planejada pela Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA), autorizada pelo presidente John Kennedy, que ocorreu em 17 de abril de 1961 e foi derrotada três dias depois. Em 1° de maio (ou 16 de abril, segundo outras fontes) Fidel Castro declarou que Cuba se tornaria um país socialista, e buscou apoio militar de Moscovo para se defender das tentativas de invasões americanas e de ameaças representadas por planos dos militares norte-americanos, do tipo da "Operação Mongoose", autorizada em 4 de novembro de 1961 por Kennedy,[20] ou da "Operação Northwoods" de 1962.[21][22][23] Em 1° de dezembro de 1961 Fidel Castro declarou que a revolução cubana se tornara marxista-leninista.[24]

Em 8 de agosto de discursou numa reunião da OEA em Punta del Este. Em 1964 Ernesto Che Guevara representou oficialmente Cuba nas Nações Unidas, tendo pronunciado um discurso em francês por ocasião da sua 19ª Assembleia Geral, em 11 de dezembro de 1964.[25] Participou do Seminário Econômico de Solidariedade Afro-asiática entre 22 e 27 de fevereiro de 1965 em Alger, quando criticou publicamente, pela primeira vez, a política externa da União Soviética. Nesse mesmo ano, Guevara, deixa Cuba para propagar os ideais da revolução cubana pelo mundo com ajuda de voluntários de vários países latino americanos, contra os conselhos dos soviéticos mas com o apoio de Fidel Castro. Em 4 de outubro de 1965 Fidel Castro anunciou que Ernesto Che Guevara deixara a ilha para lutar contra o denominado "imperialismo".

Retorno à guerrilha e morte

Ele parte primeiramente para o Congo com um grupo de 100 cubanos "internacionalistas", tendo chegado em abril de 1965. Comandante supremo da operação, atuou com o codinome Tatu (do suaíle), e encontrou-se com Kabila. Por seu total desconhecimento da região, dos seus costumes, das suas crenças religiosas, das relações intertribais e da psicologia de seus habitantes, o "delírio africano" de Che resultou numa total decepção. Em seguida parte para a Bolívia onde tenta estabelecer uma base guerrilheira para lutar pela unificação dos países da América Latina e de onde pretendia invadir a Argentina. Enfrenta dificuldades com o terreno desconhecido, não recebe o apoio do partido comunista boliviano e não consegue conquistar a confiança dos poucos camponeses que moravam na região que escolheu para suas operações, quase desabitada. Nem Che nem nenhum de seus companheiros falavam a língua indígena local. É cercado e capturado em 8 de outubro de 1967 e morto no dia seguinte pelo soldado boliviano Mario Terán, a mando do Coronel Zenteno Anaya e também do vice-presidente René Barrientos, na aldeia de La Higuera. Os boatos que cercaram a execução de Che Guevara levantaram dúvidas sobre a identidade real do guerrilheiro,[26] que se utilizou de uma miríade de documentos falsos, de vários países, para entrar e viver na Bolívia. A pedido de Juan Coronel Quiroga, amigo pessoal do então ministro da defesa da Bolívia, as mãos de Ernesto Che Guevara foram cortadas, mantidas em formol e entregues a ele. Segundo ele, «Por anos guardei as mãos de Che Guevara debaixo de minha cama, em um grande pote de vidro.»[27]

Em 1997 seus restos mortais foram encontrados por pesquisadores numa vala comum, junto a outras ossadas, na cidade de Vallegrande, a cerca de 50 km de onde ocorreu a sua morte. Sua ossada estava sem as mãos, que foram amputadas logo após a sua morte.[27] Seus restos mortais foram transferidos para Cuba, onde, em 17 de outubro do mesmo ano, foram sepultados com honras de Chefe de Estado, na presença de membros da sua família e do líder cubano e antigo companheiro de revolução Fidel Castro. Seu corpo encontra-se no Mausoléu Guevara, em Santa Clara, província de Villa Clara.[28]

Guevara em selo postal da Federação Russa de 2009, em comemoração aos 50 anos da Revolução Cubana.

Execução de Eutimio Guerra

Em 17 de fevereiro de 1957, Che executou de maneira sumária o camponês Eutimio Guerra, considerado o primeiro traidor do grupo guerrilheiro em Sierra Maestra:

“Era uma situação incômoda para as pessoas e para [Eutimio], de modo que acabei com o problema dando-lhe um tiro com uma pistola calibre 32 no lado direito do crânio, com o orifício de saída no lobo temporal direito. Ele arquejou um pouco e estava morto. Ao tratar de retirar seus pertences, não consegui soltar o relógio, que estava preso ao cinto por uma corrente e então ele me disse, numa voz firme, destituída de medo: ‘Arranque-a fora, garoto, que diferença faz...’. Assim fiz e seus bens agora me pertenciam.”[29][30]

No entanto, a narrativa do episódio pelo próprio Che Guevara no capítulo "Morte de um Traidor" de sua obra Reminiscências da Guerra Revolucionária de Cuba, diverge desta versão. No diário, o revolucionário argentino-cubano afirma:[31]

Fomos avisados, entretanto, a redobrar a guarda quando Eutimio estivesse na área; Almeida recebeu a ordem de encontrá-lo e levá-lo preso. Julito Díaz, Ciro Frías, Camilo Cienfuegos e Efigenio Ameijeiras também estavam na patrulha. Foi Ciro Frías que prendeu Eutimio facilmente, e ele foi trazido para os revolucionários. Junto a ele foi encontrada uma pistola .45, três granadas e um salvo conduto de Casillas. Uma vez capturado com esta evidência incriminadora, ele não tinha como negar. (...)

O momento era extremamente tenso. Fidel repreendeu-o duramente por sua traição e Eutimio só queria receber o tiro, reconhecendo sua culpa. Nenhum de nós vai esquecer quando Ciro Frías, um amigo próximo de Eutimio, começou a falar. Ele lembrou Eutimio de tudo o que ele tinha feito por ele, dos pequenos favores que ele e seu irmão tinham feito para a família de Eutimio, e de como Eutimio havia traído, em primeiro lugar, causando a morte do irmão de Ciro - que Eutimio tinha entregue ao exército e que tinha sido morto por eles, alguns dias antes - e depois por tentar destruir todo o grupo. Foi um discurso longo, emocional, que Eutimio escutou em silêncio, de cabeça baixa. Foi perguntado a ele se queria alguma coisa e ele respondeu que sim, disse-nos para cuidar de seus filhos.


Che Guevara. Reminiscências da Guerra Revolucionária de Cuba [31]

Eric Luther afirma que Eutímio Guerra tinha feito uma negociação com o Exército para trair os rebeldes. Segundo Luther (ob.cit. p. 97), as tropas teriam prometido a ele dez mil pesos e um lugar no Exército por prover informações sobre os movimentos dos rebeldes e, eventualmente, por matar Fidel Castro. Com a informação provida por Eutímio Guerra, o Exército incendiava as casas dos camponeses aliados dos revolucionários. Ainda segundo Eric Luther, quando Eutimio Guerra queria sair para contar ao Exército do acampamento rebelde próximo ao Monte Caracas, ele inventou uma história sobre precisar visitar sua mãe doente. Fidel Castro não apenas acreditou na história contada por Guerra, como também deu a ele dinheiro para ajudá-lo em sua viagem. Logo em seguida à saída de Guerra, houve o ataque da Força Aérea.

Che Guevara, citado na obra de Eric Luther (ob. cit, p. 98), afirmou que, de repente, eles haviam escutado o barulho de um avião de caça, o estampido de metralhadoras e, logo após, bombas e tiros por todos os lados de balas calibre .50 atingindo o solo. Che ainda relembra que os atacantes davam a impressão de aparecerem do nada, entre os arbustos.

Luther diz que Eutímio Guerra continuou no seu padrão de engano e os rebeldes continuamente enfrentaram ataques surpresa do Exército[32].

A narrativa de Luther também é confirmada pela escritora e historiadora brasileira Claudia Furiati[33], segundo a qual Eutímio Guerra teria recebido a arma do exército e a ordem de executar Castro enquanto este dormia, não logrando êxito em razão de sempre haver sentinelas de plantão nos acampamentos rebeldes.

Outras fontes porém afirmam que as acusações de que ele se havia convertido em um informante do exército eram falsas,[34] e que houve pelo menos 22 execuções na Sierra Maestra entre 1957 e 1958. Quase todas as vitimas eram do próprio grupo rebelde, três acusados de querer abandonar a luta, oito como prováveis informantes do exército e outros 11 por causas diversas.[35][36] A sangue fria execução do pobre lavrador eliminou qualquer dúvida sobre o desejo de Che de morrer ou matar pela revolução.[37]

Finalmente, de rigor observar-se que o autor Alejandro Pietro Blanco, em seu livro, não atribui a execução de Eutímio a Che Guevara. (ob. cit, pp. 189-195).

O campo de Guanahacabibes

De acordo com Jon Lee Anderson, Guanahacabibes "era um campo de reabilitação na extremidade ocidental de Cuba, uma zona isolada, pedregosa e infernalmente quente (...) Ali tinham que se submeter a períodos de trabalho físico impessoal, a fim de se redimirem antes de retornarem ao trabalho. As sanções deviam ser aceitas voluntariamente e podiam durar de um mês a um ano, dependendo da falta, geralmente de tipo ético.”[38]

Segundo Tirso Saenz, o local se chamava de fato Uvero Quemado e ficava na península de Guanahacabibes. Era um acampamento, dentro de uma plantação de eucaliptos. De acordo com o autor, se uma pessoa se recusasse a aceitar a sanção, podia não ir para lá, mas também não poderia mais trabalhar no ministério.[39]

Segundo Jorge G. Castañeda, foi o Che quem criou esse que foi o primeiro campo de trabalho em Cuba. "Embora ele próprio tenha passado alguns dias ali, voluntariamente, estava estabelecendo um dos mais odiosos precedentes da Revolução Cubana: o confinamento de dissidentes(...)."[40] Sua justificação:

"Só em casos duvidosos se envia a Guanahacabibes gente que deveria ir para a cadeia. Eu acredito que quem deve ir para a cadeia deve ir para a cadeia, de qualquer maneira. Seja um velho militante, seja quem for, deve ir para a cadeia. Para Guanahacabibes enviam-se pessoas que não devem ir para a cadeia, gente que atentou contra a moral revolucionária, em maior ou menor grau, com sanções simultâneas de privação de cargos, em outros casos não, sempre como um tipo de reeducação por meio do trabalho. Trabalho duro, não trabalho bestial, mas condições de trabalho duras sem serem bestiais [...]”[41]Segundo o escritor estadunidense Paul Berman, Che Guevara liderou pessoalmente os primeiros pelotões de fuzilamento da Revolução Cubana.[42]

Fruto da admiração de Ernesto Che Guevara pela URSS e pela China, Régis Debray, antigo guerrilheiro de Che na Bolívia, fez notar: "Foi ele, e não Fidel, que inventou, em 1960, na península de Guanaha, o primeiro 'campo de trabalho corretivo'."[43]

Ele mesmo afirmou, em carta de 5 de fevereiro de 1959, a Luis Paredes López, de Buenos Aires:

"Os fuzilamentos não são apenas uma necessidade do povo de Cuba, mas também uma imposição desse povo."[44]