Badajoz
English: Badajoz

Disambig grey.svg Nota: Este artigo é sobre a cidade e município. Para a província, veja Badajoz (província).
Espanha Badajoz 
  Município  
De cima para baixo e da esquerda para a direita: 1) Praça Alta; 2) Ayuntamiento (Praça de Espanha); 3) Porta de Palmas; 4) Estátua de ibne Maruane na Alcáçova de Badajoz; 5) Torre de Espantaperros; 6) Ponte Real, Ponte da Universidade e edifício-sede da Caja Badajoz.
De cima para baixo e da esquerda para a direita: 1) Praça Alta; 2) Ayuntamiento (Praça de Espanha); 3) Porta de Palmas; 4) Estátua de ibne Maruane na Alcáçova de Badajoz; 5) Torre de Espantaperros; 6) Ponte Real, Ponte da Universidade e edifício-sede da Caja Badajoz.
Bandeira de Badajoz
Bandeira
Brasão de armas de Badajoz
Brasão de armas
Badajoz está localizado em: Espanha
Badajoz
Localização de Badajoz na Espanha
Badajoz está localizado em: Estremadura (Espanha)
Badajoz
Localização de Badajoz na Estremadura
Coordenadas38° 53' N 6° 58' O
Comunidade autónomaEstremadura
ProvínciaBadajoz
ComarcaTerra de Badajoz
Fundação875 (1 144 anos)
FundadorIbne Maruane
- AlcaideFrancisco Javier Fragoso (2013, PP)
Área
- Total1 470 km²
Altitude184 m
População (2016) [1]
 - Total149 946
    • Densidade102 hab./km²
Gentílicopacense
badajocense
badajocenho(a)
Código postal06001–06012
OragoSão João (devoção popular)
• São José (historicamente)

Nossa Senhora da Soledade
Websitewww.aytobadajoz.es

Badajoz é uma cidade e município raiano da Espanha na província homónima, da qual é capital. Faz parte da comunidade autónoma da Estremadura e da comarca da Terra de Badajoz. Tem 1 470 km² de área e em 2016 tinha 149 946 habitantes (densidade: 102 hab./km²), que representa aproximadamente 20% da população da província e 7% da Estremadura.[1]

Batizada pelos seus fundadores muçulmanos Batalyaws (em árabe: ﺑﻂﻠﻴﻮﺱ), a sua designação em português vernáculo era Badalhouce até ao período da dinastia filipina,[2] um termo que persiste ainda hoje em galego.[3] Além de ser a maior cidade da Estremadura, é também o principal centro económico da região. Situa-se a um par de quilómetros da fronteira com a cidade portuguesa de Elvas, à beira do rio Guadiana, um dos rios mais importantes da Península Ibérica, que atravessa a cidade de leste para oeste, virando em seguida para sul. Apesar da dimensão do município ser bastante menor do que no passado, Badajoz é o terceiro maior município de Espanha em área, a seguir a Cáceres e Lorca. Tem 10 núcleos populacionais, dentre os quais se destacam, além da cidade, Gévora, Valdebótoa e Villafranco del Guadiana, todos com mais de mil habitantes.

A cidade foi fundada em 892 por Ibne Maruane,[nt 1] durante a ocupação muçulmana da Península Ibérica, num local habitado desde os tempos pré-históricos mais remotos e sobre um povoado visigodo já então desaparecido ou pelo menos muito degradado, no cimo de uma das duas colinas que dominam a cidade: o Cabeço da Muela ou o Cabeço do Montúrio. Em frente, na margem direita do Guadiana, situam-se as Cuestas (encostas) de Orinaza ou Cerro de San Cristóbal, também conhecidas antigamente como Baxernal ou Baxarnal. A fundação da cidade é comemorada pelos seus habitantes, denominados pacenses,[nt 2] na festa Almossasa Batalyaws, realizada em finais de setembro.

A parte mais antiga da cidade é chamada Casco Antigo ou bairro histórico. Aí se encontram vários edifícios classificados como "Bem de Interesse Cultural", nomeadamente a catedral, a alcáçova, as muralhas de estilo Vauban, a Igreja de São Domingos e o Real Mosteiro de Santa Ana.[5] Na década de 2000, a Praça Alta (Plaza Alta) e a Praça de Espanha, dois dos locais mais emblemáticos de Badajoz, foram restauradas em larga escala. A última é onde se encontra o ayuntamiento, a catedral, o Arquivo Histórico Municipal, o Museu Catedralício, a Casa del Cordón e a Casa Buiza. Outra praça importante em termos de património é a da Soledad, onde se encontram edifícios como a La Giralda, Las Tres Campnas e o Conservatório de Música. A quarta praça monumental da cidade é a de San Andrés, onde se situam a igreja homónima, o Hotel Cervantes a Casa Regionalista e a Casa Puebla. A cidade dispõe de vários parques e jardins.

História

Lendas

Como é comum para tantas localidades ibéricas, alguns historiadores do passado — neste caso o primeiro parece ter sido do século XVI — avançaram com versões que têm tanto ou mais de fantasia como de fiabilidade histórica sobre a origem de Badajoz. Segundo Rodrigo Dosma, o fundador da cidade teria sido Tubal, neto de Noé, que 143 anos depois do Dilúvio Universal se instalou nas proximidades ou praticamente no local onde é a cidade.[6]

Outra versão lendária da fundação da cidade está relacionada com São Hermenegildo, o príncipe visigodo do século VI, que abjurou o arianismo, a religião oficial visigótica, e abraçou o catolicismo, persuadido pelo seu tio São Leandro, arcebispo de Sevilha. Esta conversão provocou uma guerra com o pai de Hermenegildo, o rei Leovigildo. O filho foi derrotado pelo pai perto de Badajoz, tendo sido deportado. Posteriormente, Hermenegildo abandonou a luta com o pai e retirou-se com trezentos cavaleiros para o castelo de Osset, que é identificado com a atual aldeia portuguesa raiana de Ouguela, que nessa altura pertencia à cidade de Badajoz. Uma versão ampliada desta história é contada por Solano de Figueroa, que também fala de uma fonte milagrosa em Osset e dos prodígios que nela se passavam.[7]

Outra história relacionada com os visigodos envolve o último bispo godo de Badajoz, Benedito, que se juntou com os seus cavaleiros às tropas que tinham sido reunidas em Mérida pelo Conde Tendero, governador da cidade, e Máximo, o bispo local, para ajudar o rei D. Rodrigo contra a invasão islâmica da Península, iniciada com o desembarque em Tarifa em 711. Tendo sido derrotado na batalha travada junto ao rio Guadalete, Benedito retirou para Mérida e depois para Badajoz, onde permaneceu escondido durante algum tempo, indo de seguida para Alcobaça, onde morreu passado pouco tempo.[8]

Pré-história e Antiguidade

Os vestígios arqueológicos na área remontam ao Paleolítico Inferior.[9][10] No Museu Arqueológico Provincial de Badajoz estão guardados achados que que atestam que diversos grupos humanos habitaram há meio milhão de anos zonas muito próximas do território da cidade atual, mas sabe-se muito pouco sobre o seu modo de vida.[11] Não se conhecem vestígios de ocupação humana entre o 40º e o 6º milénio a.C., mas a partir deste último há sinais da presença de grupos humanos em áreas próximas de Badajoz, como artefatos de pedra talhada do Musteriense (em La Corchuela, Dehesilla de Calamón, Torrequebrada, etc.), pinturas rupestres (em cavernas e zonas resguardadas das serranias de Alburquerque, La Zarza e outros locais).[12]monumentos megalíticos que datam pelo menos de 4 000 a.C.[13]

Palácio dos Duques de Feria, onde está instalado o Museu Arqueológico Provincial

Há uma grande quantidade de dados arqueológicos relativos ao início do Calcolítico (ca. 3 000 a.C.) nas imediações de Badajoz. Estes dados indicam que nas veigas do Guadiana existiam vários assentamentos de população estável,[14] cujos habitantes realizavam mais trabalhos ao ar livre do que os seus antecessores de épocas mais recuadas, cuja presença se verifica principalmente em cavernas. Tal leva a supor que o clima era mais benigno e mais propício para trabalhar no campo. Encontraram-se vestígios de choças rudimentares, mas bem isoladas e formando povoados cujo número de habitantes não deve ter ultrapassado o milhar. O modo de subsistência passou da caça para a agricultura e pecuária realizadas de forma estável. É também neste período que surgem as primeiras atividades mineiras e metalúrgicas, que consistem principalmente na extração, fundição e manipulação de cobre. Há também restos de cerâmica, como pratos e panelas, peças de metal elaborado, fossas de enterramentos comuns, que evidenciam assentamentos estáveis do Eneolítico e Calcolítico, que foram datados entre 2 700 e 1 700 a.C. Destacam-se pela sua relevância principalmente os achados do sítio arqueológico de El Lobo, na margem esquerda do Guadiana, num local que atualmente é praticamente dentro da cidade. Outras estações arqueológicas importantes são os de Las Crispitas e de o de Céspedes, ambos na mesma margem do rio, mas a jusante; o primeiro situa-se em frente ao atual bairro de São Roque, perto dos restantes.[15]

Há também vestígios arqueológicos da Idade do Bronze, nomeadamente estelas do final desse período.[16] Outros achados incluem armas como machados e espadas, objetos de uso quotidiano, como cerâmica e utensílios, e joalheria, como pulseiras.[9][10] Entre estes achados destaca-se o jarro encontrado em La Zarza, datada do século VII a.C. que, como grande parte das restantes peças, se encontra no Museu Arqueológico Provincial.[12] Do período romano, há foram encontrados alguns artefatos no local conhecido como Colónia Pacense (Colonia Pacencis), situada perto de Badajoz, embora em muito menor número do que na não muito distante Mérida.[9][10]

Colar de ouro que faz parte do chamado Tesouro de Sagrajas, um dos mais ricos achados arqueológicos do final da Idade do Bronze na Estremadura; do acervo do Museu Arqueológico de Espanha

Para alguns autores, nos cimos do cerros da Muela e de San Cristóbal, que hoje constituem a parte mais antiga da cidade, já existiria uma povoação pré-romana, que seria a Bada, Badia, Badya ou Budua referida por Valério Máximo e Plutarco como o lugar em que Cipião Africano sitiou durante os combates contra Viriato.[nt 3] [17] Há (ou houve) também alguns autores locais que identificam Badajoz com a cidade onde foi assinado um tratado de paz entre esse Viriato e Quinto Fábio Máximo, que foi rebatizada "Cidade da Paz" (Civitas Pacis) após esse tratado. Fábio Máximo foi enviado por Roma para a Lusitânia para vencer definitivamente os últimos resistentes lusitanos, o que conseguiu. Como contrapartida da capitulação, Viriato recebeu o título de amicus populi romani ("amigo do povo romano").[18][19][20] Outros autores situam o tratado de paz em Bácia ou Bátia, que depois seria Badia e posteriormente Badajoz.[21] Em 1901, Thous Moncho estimava que «o ilustre Viriato era estremenho, ou melhor dito pacense».[22][nt 4] No entanto, face à escassez de dados da última fase da época pré-romana, alguns alguns estudiosos consideram que, a existir alguma localidade, ela não deveria ter sido mais do que uma modesta aldeia.[23]

Com a invasão da Península Ibérica pelos romanos, iniciada em 218 a.C., durante a Segunda Guerra Púnica, Badajoz e o que é hoje a Estremadura espanhola passaram a fazer parte da divisão administrativa romana chamada Hispânia Ulterior ("Espanha Distante"), que foi depois dividida pelo imperador Augusto (r. 14 a.C.–27 d.C.) nas províncias da Hispânia Ulterior Bética e Hispânia Ulterior Lusitânia. A região de Badajoz fazia parte desta última, a qual tinha a sua capital em Mérida (Emérita Augusta).[24] Embora não haja documentos históricos romanos que mencionem claramente localidades no que é hoje Badajoz, foram descobertas villas romanas na área, como a de La Cocosa. Também há restos de construções do período visigótico (séculos V–VIII).[25] Por vezes se tem associado o topónimo "Augustóbriga" citado por André de Resende com Badajoz.[26]

Idade Média

Estátua de Ibne Maruane nos jardins da alcáçova (Alcazaba) de Badajoz, a antiga fortaleza construída originalmente pelos muçulmanos
Porta da cripta e órgão da Catedral de Badajoz, um edifício cuja construção foi iniciada na segunda metade do século XIII

Badajoz tornou-se uma cidade importante durante o período muçulmano (Alandalus). Do século VIII até ao início do século XI a região fez parte do Califado de Córdova.[27] A data oficial da fundação da cidade é 875,[28] ano em que o nobre muladi rebelde Ibne Maruane ali se instalou quando foi expulso da sua terra natal, Mérida.[29] Sob o governo de Ibne Maruane, Batalyaws, como era então conhecida, foi a capital de um estado rebelde praticamente independente que só foi extinto no século X.[30]

Em 1021 ou talvez em 1031,[30] quando se estima que tivesse 25 000 habitantes,[10] tornou-se a capital do reino taifa de Badajoz.[10] Em contraste com a generalidade das taifas ibéricas, quase todas de pequena dimensão territorial, a Taifa de Badajoz chegou a ter 90 000 km² (um pouco mais do que Portugal atualmente), estendendo-se por praticamente tudo o que é atualmente a Estremadura espanhola, parte de Castela quase até Leão e, a ocidente ocupava grande parte do que é hoje Portugal, desde o rio Douro, até praticamente todo o Alentejo, incluindo ainda Lisboa e Santarém. Principalmente durante os reinados dos reis aftássidas al-Muzzaffar (ou Modafar I) e al-Mutawakkil, Badajoz foi um centro de cultura e ciência elogiado pelos cronistas islâmicos.[31][32]

A primeira taifa de Badajoz sucumbiu perante as invasões dos Almorávidas vindos do Norte de África a partir de 1067. Em 1086, durante o reinado de Afonso VI de Leão, Badajoz foi conquistada brevemente pelo Reino de Leão. Seguiu-se a invasão dos Almóadas em 1147.[33] Foi temporariamente dominada pelos portugueses em 1168, mas voltaria a ser independente (ou semi-independente sob os Almóadas) pouco depois.[30] O domínio dos mouros terminaria definitivamente com a tomada por Afonso IX de Leão em 19 de março de 1230.[34] Pouco depois da conquista, durante o reinado de Afonso X, o Sábio (r. 1252–1284), foi criada uma diocese e foi iniciada a construção da catedral.[30][33]

Em 1336, durante o reinado de Afonso XI, as tropas do rei Afonso IV de Portugal cercaram a cidade, mas pouco depois as tropas castelhanas e leonesas, entre as quais se encontravam Pedro Ponce de León, o Velho, Juan Alonso Pérez de Guzmán y Coronel, derrotaram as tropas portuguesas na batalha de Villanueva de Barcarrota. Esta derrota forçou o rei de Portugal a abandonar o cerco[35][36][37]

A região foi um feudo da família Sánchez de Badajoz, senhores de Barcarrota, a partir de 1369, quando o rei Henrique II a deu a Fernán Sánchez de Badajoz como recompensa pelos seus serviços nas guerras com Portugal. Barcarrota esteve temporariamente sob domínio português pouco depois disso, após umas escaramuças, mas foi retomada, pois o neto homónimo de Fernán Sánchez aparece como senhor de Barcarrota e alcaide-mor de Badajoz em 1434. O primeiro Fernán Sánchez de Badajoz foi sucedido pelo filho Garci Sánchez de Badajoz, que foi ferido mortalmente na batalha de Aljubarrota (1385). O poeta Garci Sánchez de Badajoz era provavelmente filho do segundo Fernán Sánchez.[38] Devido à sua posição junto à fronteira, Badajoz foi alvo de vários ataques portugueses nos séculos seguintes à sua integração no reino castelhano, tendo sido cercada em 1385, 1396 e 1542.[33]

O primeiro hospital da cidade foi fundado por iniciativa de Frei Pedro de Silva, bispo de Badajoz entre 1462 e 1479.[nt 5] Ali foram tratados em 1506 os afetados pela epidemia de peste.[39]

Idade Moderna (séculos XVI – XVIII)

Virgem e o Menino, do pintor pacense do século XVI Luis de Morales, Museu do Prado, Madrid

Durante o século XVI, nasceram na cidade ou a ela estiveram ligados alguns grandes vultos da cultura espanhola de então, como o pintor Luis de Morales ("El Divino"),[40] o compositor Juan Vásquez,[41] o humanista Rodrigo Dosma,[42] o poeta e dramaturgo Joaquin Romero de Cepeda[43][44] ou o dramaturgo Diego Sánchez de Badajoz.[45][46]

Em 1524 teve lugar uma cimeira no ayuntamiento de Badajoz entre os representantes de Espanha e Portugal para esclarecer o estado dos acordos territoriais. Entre os participantes na cimeira estiveram Fernando Colombo, João Vespúcio, Sebastião Caboto, Juan Sebastián Elcano, Diogo Ribeiro e Estêvão Gomes.[47] Em agosto de 1580, o rei Filipe II transferiu temporariamente a sua corte para Badajoz para fazer valer os seus direitos à coroa portuguesa. A sua esposa Ana de Áustria morreu na cidade dois meses depois e a 5 de dezembro de 1580 Filipe II saiu da cidade.[48] Durante a União Ibérica, de 1580 a 1640, a cidade floresceu novamente devido à inexistência de guerra. Segundo o historiador Vicente Navarro del Castillo, 428 residentes de Badajoz contribuíram para a conquista espanhola das Américas, entre eles Pedro de Alvarado, o seu sobrinho Luis de Moscoso, Sebastián Garcilaso de la Vega y Vargas (pai do cronista mestiço Inca Garcilaso de la Vega) e Hernán Sánchez de Badajoz.[49]

Em 1640 Badajoz foi atacada durante a Guerra da Restauração portuguesa.[49] Os combates pelo controlo da cidade e da sua fortaleza continuaram com ataques dos portugueses em 1660.[10][30] No verão de 1703, durante a Guerra da Sucessão Espanhola, o rei Pedro II de Portugal, que em 1701 tinha garantido o seu apoio a Filipe V de Espanha como herdeiro da coroa espanhola no Tratado de Lisboa, passou a integrar aliança anglo-austríaca que apoiava as pretensões ao trono espanhol de Carlos, o filho de Leopoldo I, Sacro Imperador Romano-Germânico, em troca da cedência a Portugal, não só da Colónia do Sacramento, que o tratado de 1701 já previa, mas também algumas praças na Galiza e na Estremadura, entre as quais Badajoz.[50] Em 1705 Badajoz foi tomada por tropas anglo-lusas.[10][30] Em 1715 Portugal assinou um acordo de paz pelo qual renunciava às suas pretensões sobre Badajoz e obtinha a confirmação da posse da Colónia do Sacramento.[51]

Século XIX

Gravura de Badajoz de Eugène-Ferdinand Buttura (1812–1852)
Aguarela de Richard Caton Woodville representando o 88º Regimento de Infantaria do Exército Britânico (alcunhado "The Devil's Own", "O próprio Diabo") no cerco de Badajoz de 1812, uma das batalhas mais sangrentas da Guerra Peninsular

Em 6 de junho de 1801 foi assinado o Tratado de Badajoz, que pôs fim à Guerra das Laranjas, um conflito no contexto da Guerra da Segunda Coligação, entre os aliados e oponentes da Primeira República Francesa. Tendo sido negociado com Portugal numa posição muito desfavorável, devido aos desaires militares e aos receios de que estivesse eminente um ataque das tropas francesas estacionadas em Cidade Rodrigo,[52] nele se estipulava, entre outras disposições, a devolução a Portugal das praças e territórios de Juromenha, Arronches, Portalegre, Castelo de Vide, Barbacena, Campo Maior e Ouguela.[53] O tratado foi revogado por Portugal em 1807, pois os seus termos foram desrespeitados pelo Tratado de Fontainebleau assinado entre a Espanha e a França em 27 de outubro desse ano, no qual se acordava a partição do território português entre os dois signatários.[54]

Durante a Guerra Peninsular, Badajoz foi atacada sem sucesso pelos franceses em 1808 e 1809. No entanto, em 10 de março de 1811, o comandante espanhol José Imaz foi subornado para se render a uma força militar francesa comandada pelo marechal Soult. Um exército luso-britânico, comandado pelo marechal Beresford empenhou-se em retomar a cidade e em 16 de maio derrotou uma força de reforços na batalha de Albuera, mas o cerco foi abandonado no mês seguinte.[30]

Em 1812, Arthur Wellesley, conde e futuro duque de Wellington, comandante do Exército Anglo-Luso, tentou novamente tomar Badajoz, que tinha uma guarnição francesa de cerca de 5 000 homens.[55] As operações de cerco começaram em 16 de março. No início de abril havia duas brechas praticáveis[nt 6] nas muralhas. Estas foram usadas para o assalto de duas divisões britânicas em 6 de abril. Apesar das pesadas baixas que provocou, este assalto fracassou após um combate sangrento de cinco horas, mas as tropas de Wellesley lograram tomar a cidade atacando o castelo e e uma secção não danificada.[56]

O cerco de Badajoz ficou conhecido como o cerco mais sangrento de Wellington, nele tendo perecido quase 5 000 soldados, num total de 15 000.[57] Os franceses perderam cerca de 1 200 homens na batalha.[57] Wellington escreveu a Lord Liverpool que «a captura de Badajos constitui um forte exemplo nunca antes visto da valentia das nossas tropas, mas eu espero ansiosamente nunca mais voltar a ser o instrumento para um teste como o que eles passaram na noite passada».[nt 7] Apesar disso, o assalto de Wellington a San Sebastián em 1813 foi muito semelhante ao de Badajoz.[58]

Em 5 de agosto de 1883, uma época em que ainda se vivia um clima de alguma confusão e caos em Espanha, apesar das Guerras Carlistas terem terminado em 1876, ocorreu uma tentativa de revolta das tropas de Badajoz. Um grupo de militares sublevou-se e proclamou a república, um ato isolado que não ocorreu em mais nenhum lugar de Espanha. O episódio terminou com a fuga dos sublevados para Portugal.[28]

Século XX

Desfile militar em Badajoz no século XX

Durante a Guerra Civil Espanhola, Badajoz foi palco de eventos de extrema violência.[33] A cidade foi tomada pelos nacionalistas no início da guerra na batalha de Badajoz, travada em 14 de agosto de 1936. Uma vez terminados os combates, as forças nacionalistas levaram vários milhares de habitantes da cidade, tanto homens como mulheres, para a praça de touros, onde, depois de montadas metralhadoras em volta da arena, decorreu aquilo que ficou conhecido como os massacres de Badajoz. No dia 14 foram fuzilados centenas de republicanos.[59] Durante a noite foram levados para a praça de touro outros 1 200. No total, estima-se que foram mortas mais de 4 000 pessoas, ou seja, cerca de 10% da população.[60] Aqueles que tentaram passar a fronteira portuguesa foram capturados e enviados de volta para Badajoz.[33] As tropas que executaram as matanças estavam sob o comando do general Juan Yagüe, que ficou conhecido como "o carniceiro de Badajoz" e que depois da guerra civil foi nomeado ministro da aviação por Franco.[61]

A 6 de novembro de 1997 uma cheia de grandes proporções devastou vários bairros na cidade, causando 21 mortos e destruindo propriedades de centenas de pessoas. A catástrofe foi causada por um ciclone extratropical atlântico que atravessou a Península Ibérica e provocou enchentes nas ribeiros de Rivilla e Calamon, que normalmente estão secas. A aldeia de Cerro de los Reyes, junto à confluência de ambas as ribeiras, foi a área mais afetada pela cheia.[62]