Anatomia

De humani corporis fabrica, um influente manual ilustrado de anatomia do século XVI da autoria de Andreas Vesalius.

Anatomia (do grego ἀνατέμνω anatemnō "cortar em partes") é o campo da biologia que estuda a organização estrutural dos seres vivos, incluindo os sistemas, órgãos e tecidos que os constituem, a aparência e posição das várias partes, as substâncias de que são feitos, a sua localização e a sua relação com outras partes do corpo.[1] O termo anatomia é geralmente usado como sinónimo de anatomia humana. No entanto, as mesmas estruturas e tecidos podem ser observadas em praticamente todo o reino animal, pelo que o termo também se refere à anatomia dos outros animais, sendo neste caso por vezes usado o termo zootomia. Por outro lado, a estrutura e tecidos das plantas são de natureza diferente e são estudados pela anatomia vegetal.[2]

A anatomia distingue-se da fisiologia e da bioquímica, que estudam respetivamente as funções dessas partes e os processos químicos envolvidos. Está ligada à embriologia, à anatomia comparada, à biologia evolutiva e à filogenia, uma vez que são estes os processos que geram a anatomia.[3] A disciplina da anatomia pode ser dividida em vários ramos, incluindo anatomia macroscópica e microscópica.[4] A anatomia macroscópica é o estudo de estruturas anatómicas suficientemente grandes para poderem ser observadas a olho nu e engloba a anatomia de superfície. A anatomia microscópica é o estudo das estruturas a uma escala microscópica e engloba a histologia (o estudo dos tecidos) e a embriologia (o estudo de um organismo ainda imaturo).[3]

A história da anatomia caracteriza-se pela progressiva compreensão das funções dos órgãos e estruturas do corpo humano. Nos últimos séculos, os métodos de observação evoluíram de forma significativa, desde a dissecação de carcaças e cadáveres até às técnicas modernas de imagiologia médica, entre as quais radiografia, ecografia e ressonância magnética.

Tecidos animais

Ver artigos principais: Tecido e Histologia
Estrutura de uma célula animal.

O reino Animalia, ou metazoários, é constituído por organismos multicelulares que são heterotróficos e móveis (embora alguns tenham evoluído para um estilo de vida estático). O corpo da maior parte dos animais apresenta tecidos diferenciados, sendo por isso denominados eumetazoários. Os animais deste grupo apresentam câmara digestiva interna com uma ou duas aberturas, os gâmetas são produzidos em órgãos sexuais multicelulares e os zigotos apresentam estágio de blástula durante o desenvolvimento embrional. Os eumetazoários não incluem as esponjas, uma vez que não têm células diferenciadas.[5] Ao contrário das células vegetais, as células animais não têm parede celular nem cloroplastos. Quando estão presentes, os vacúolos nas células animais são em maior número e muito mais pequenos do que nas plantas.[6]

Os tecidos do corpo, incluindo os dos músculos, nervos e pele, são constituídos por células de vários tipos diferentes. Geralmente, cada célula é formada por um núcleo, citoplasma e uma membrana celular constituída por fosfolípidos. Todas as diferentes células de um animal têm origem na camada germinativa embrionária. Os animais invertebrados mais simples são formados a partir de duas camadas germinativas – ectoderme e endoderme – e são denominados diblásticos. Nos animais mais complexos, as estruturas e os órgãos são formados a partir de três camadas germinativas – ectoderme, endoderme e mesoderme – sendo por isso denominados triblásticos.[6] Os tecidos animais podem ser agrupados em quatro tipos básicos: conjuntivo, epitelial, muscular e nervoso:

Tecido conjuntivo

Ver artigo principal: Tecido conjuntivo
Tecido conjuntivo (a azul) a sustentar o epitélio (a violeta).

O tecido conjuntivo é fibrosos e constituído por células dispersas ao longo de uma substância inorgânica denominada matriz extracelular. É o tecido conjuntivo que forma os órgãos e que os mantém no lugar. Os principais tipos de tecido conjuntivo são o tecido conjuntivo frouxo, tecido adiposo, tecido conjuntivo fibroso, cartilagem e osso. A matriz extracelular contém proteínas, das quais a principal e mais abundante é o colagénio. A função do colagénio é organizar e manter os tecidos. A matriz pode formar um esqueleto, que suporta e protege o organismo. Em alguns animais este esqueleto é externo, denominado exosqueleto,

Nos animais mais desenvolvidos e em alguns dos menos desenvolvidos, este esqueleto é interno e denominado endosqueleto. Nos animais mais simples, o esqueleto é geralmente externo e denominado exosqueleto. O exosqueleto é uma cutícula rígida e espessa, endurecida através de mineralização, como no caso dos crustáceos, ou de ligação cruzada entre proteínas, como no caso dos insetos.[6]

Tecido epitelial

Ver artigo principal: Tecido epitelial
Mucosa gástrica a baixa ampliação.

O tecido epitelial é constituído por células compactas, com pouco espaço intercelular, e ligadas entre si por moléculas de adesão celular. As células epiteliais podem ser escamosas, cubóides ou colunares e assentam sobre uma lâmina basal. Esta lâmina é a camada superior da membana basal, sendo a inferior a lâmina reticular que se encontra na proximidade do tecido conjuntivo na matriz extracelular segregada pelas células epiteliais.[7]

Existem vários tipos diferentes de tecido epitelial, o qual se encontra modificado de modo a corresponder a uma função em particular. No trato respiratório encontra-se um tipo de revestimento epitelial ciliado. No revestimento epitelial do intestino delgado existem microvilos, enquanto no do intestino grosso existem vilosidades intestinais. A pele que reveste o corpo dos vertebrados é constituída por uma camada exterior de epitélio escamoso estratificado e queratinizado, enquanto 95% das células da epiderme são queratinócitos.[8] As células epiteliais na superfície exterior do corpo geralmente segregam matriz extracelular na forma de uma cutícula. Em animais mais simples isto pode ser apenas um revestimento de glicoproteínas.[6] Em animais mais avançados, formam-se glândulas nas células epiteliais.[9]

Tecido muscular

Ver artigo principal: Tecido muscular
Corte transversal de um músculo esquelético e um pequeno nervo com elevada ampliação.

O tecido ativo e contráctil do corpo é formado por miócitos, ou células musculares. A função do tecido muscular é produzir força e movimento, tanto o movimento de locomoção como movimentos dos órgãos internos. O músculo é formado por miofibrilhas contractéis e divide-se em três tipos principais: músculo liso, músculo esquelético e músculo cardíaco. O músculo liso não apresenta estrias quando observado ao microscópio. Contrai-se lentamente, mas é capaz de manter a contração ao longo de uma grande extensão. Pode ser observado em órgãos como os tentáculos das anémonas e na parede do corpo dos pepinos-do-mar.[10]

O músculo esquelético contrai-se rapidamente, mas tem pouca amplitude de extensão. É o responsável pelo movimento dos membros e das mandíbulas. O músculo de estrias oblíquas, em que os filamentos se encontram alternados, é um intermédio entre os outros dois. Pode ser observado, por exemplo, em minhocas, que são capazes tanto de se alongar lentamente como de se contrair rapidamente.[10]

Tecido nervoso

Ver artigo principal: Tecido nervoso

O tecido nervoso é constituído por várias células nervosas que transmitem informação denominadas neurónios. Em alguns animais marinhos de locomoção lenta e radialmente simétricos, como os ctenóforos e os cnidários, os nervos formam uma rede nervosa. No entanto, na maior parte dos animais estão organizados em grupos longitudinais. Em animais mais simples, são os neurónios recetores na parede do corpo que reagem diretamente aos estímulos. Em animais mais complexos existem células recetoras especializadas, como os quimiorrecetores ou os fotorreceptores, que formam grupos e enviam mensagens ao longo de redes neurais para outras partes do organismo. Os neurónios podem estar ligados entre si em gânglios nervosos.[11]

Nos animais mais evoluídos, os recetores especializados constituem a base dos órgãos dos sentidos. Estes animais possuem um sistema nervoso central (cérebro e espinal medula) e um sistema nervoso periférico. Este último consiste em nervos sensoriais que transmitem informação a partir dos órgãos dos sentidos e nervos motores que influenciam os órgãos de destino.[12][13] O sistema nervoso periférico divide-se no sistema nervoso somático, que transmite as sensações e controla os músculos voluntários, e o sistema nervoso autónomo ,que controla de forma involuntária o músculo liso, algumas glândulas e os órgãos internos.[14]