Análise do discurso

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Análise do discurso é um campo da linguística e da comunicação especializado em analisar construções ideológicas presentes em um texto. É muito utilizada para analisar textos da mídia e as ideologias que os produzem. A análise do discurso é proposta a partir da filosofia materialista, que põe em questão a prática das ciências humanas e a divisão do trabalho intelectual.

A Análise do Discurso possui dois conceitos principais: discurso e texto. O primeiro é a prática social de produção de textos, enquanto o segundo é o produto da atividade discursiva, o objeto empírico, a construção sobre a qual se debruça o analista para buscar, em sua superfície, as marcas que guiam a investigação científica. Para a Análise do Discurso, todo discurso é uma construção social, que reflete uma visão de mundo vinculada à de seus autores e à sociedade em que vivem e que só pode ser analisado considerando seu contexto histórico-social e suas condições de produção.

Conceitos

  • Contexto: situação histórico-social de um texto, envolvendo não somente as instituições humanas, como também outros textos que sejam produzidos em volta e com ele se relacionem. Pode-se dizer que "o contexto é a moldura de um texto". O contexto envolve elementos tanto da realidade do autor quanto do receptor — e a análise destes elementos ajuda a determinar o sentido. A interpretação de um texto deve, de imediato, saber que há um autor, um sujeito com determinada identidade social e histórica e, a partir disto, situar o discurso como compartilhando desta identidade. Salientando que o texto só receberá esta nomenclatura (texto) se o receptor da mensagem conseguir decifrá-la.
  • Ordem de discursos: conjunto ou série de tipos de discursos, definido socialmente (Michel Foucault) ou temporalmente (Norman Fairclough), a partir de uma origem comum. São os discursos produzidos num mesmo contexto de uma instituição ou comunidade, para circulação interna ou externa e que interagem não apenas entre eles, mas também com textos de outras ordens discursivas (intertextualidade). Sua importância para a análise do discurso está em contextualizar os discursos como elementos relacionados em redes sociais e determinados socialmente por regras e rituais, bem como modificáveis na medida em que lidam permanentemente com outros textos que chegam ao emissor e o influenciam na produção de seus próprios discursos.
  • Universo de concorrências: espaço de interação discursiva no qual discursos de diferentes emissores se dirigem ao mesmo público receptor: por exemplo, diferentes marcas de cerveja apelando ao mesmo segmento de mercado (homens entre 20-45 anos, classes A/B, solteiros). A concorrência ocorre quando cada um destes discursos tenta "ganhar" o receptor, "anulando" os demais ou desarticulando seus argumentos ou credibilidade em seu próprio favor. O modo de interpelar o receptor definirá as características do seu discurso (posicionamento competitivo) e determinará seu êxito ou insucesso. Também chamado de "mercado simbólico".
  • Dificuldades da contextualização: a contextualização de um discurso é dificultada por, fundamentalmente, três itens: (1) pela relação de causalidade entre características de um texto e a sociedade não é entre dois elementos distintos A→ B, um causa e outro conseqüência, mas é dialética, ou seja, a continência de um pelo outro é uma relação contraditória; (2) pelo mesmo raciocínio, os discursos (esfera da superestrutura) não sofrem apenas os determinantes econômicos (esfera da infraestrutura), mas também culturais, sexuais, etários etc.; e (3) pelo não-imediatismo da passagem da análise semiológica para a interpretação semântica, ou seja: não basta demarcar e classificar as palavras para imediatamente interpretar seus significados. É preciso considerar o máximo possível de variáveis presentes no contexto.
  • Teoria do Discurso estético: parte do princípio de que, se a imagem também é um texto, e há discurso das imagens, não apenas semântico, deve haver discurso estético, sintático, perceptivel não logicamente, mas esteticamente. Todas as formas existentes são passíveis de percepção estética e, logo, de apreciação e informação. Por isso, o que falamos pode ser chamado de um "discurso estético" ou discurso das imagens, que se dá pela percepção estética, não-lógica, de determinados valores ideológicos inculcados e identificáveis por meio de suas "marcas de enunciação" e "interpelação". Os valores estéticos impregnados num trabalho e o ambiente ideológico estão intrinsecamente ligados, produzindo discursos muito mais do que verbais. Assim, é possível encontrar discursos estéticos nas instituições ("aparelhos ideológicos do Estado", segundo Louis Althusser, ou "aparelhos de hegemonia", segundo Antonio Gramsci), dentro do que se considera "cultura", e pode-se considerar a atividade de comunicação visual como produtora de estética.
  • Ethos: noção que remonta aos retóricos antigos como Aristóteles, que a entendiam como "o carater que o orador deve aparentar em seu discurso para se mostrar crível". Não o que ele é, mas o que ele aparenta ser: honesto, simpático, solidário etc. Oswald Ducrot assimila a noção à sua teoria polifônica da enunciação; Dominique Maingueneau introduz o ethos nas preocupações da Análise do Discurso; Ruth Amossy mostra a amplitude da noção, que considera estar presente em estudos das diferentes ciências humanas, seja na Sociologia da linguagem de Pierre Bourdieu, ou na Linguística de Émile Benveniste, ou na Nova Retórica de Chaïme Perelman; e Patrick Charaudeau desenvolve a noção junto ao que ele denomina estratégias de discurso, um conceito central de sua Teoria Semiolinguística do Discurso. Nessa teoria, o conceito de ethos está ligado ao de credibilidade, já que não basta poder tomar a palavra, é necessário ser levado a sério.
  • Pathos: conceito que, assim como o ethos, faz parte da tradição retórica da antiguidade clássica, e é definido como as emoções (paixões) que o orador provoca em seu auditório para deixá-lo mais apto a receber seus argumentos. Em sua Retórica, Aristóteles descreve algumas emoções e mostra em quais circunstâncias são sentidas. A análise do discurso, seguindo a teoria de Patrick Charaudeau, procura falar em patemização, uma vez que esse termo evita que se caia em problemas terminológicos como: Emoção? Afeto? Sentimento? Sensação?