Alcácer-Ceguer

Marrocos Alcácer-Ceguer

القصر الصغير , al-Qsar as-Seghir

Ksar Sghir, Ksar es-Seghir

 
  Comuna  
Alcácer-Ceguer está localizado em: Marrocos
Alcácer-Ceguer
Localização de Alcácer-Ceguer em Marrocos
Coordenadas35° 50' 30" N 5° 33' 30" O
Região (1997-2015)Tânger-Tetuão
ProvínciaFahs-Anjra
População (2004) [1]
 - Total10 995

Alcácer-Ceguer (em árabe: القصر الصغير; transl.: al-Qsar as-Seghir, "castelo pequeno"), cujo nome oficial em grafia latina é Ksar es-Seghir ou Ksar Sghir, é uma vila costeira do norte de Marrocos, que faz parte da província de Fahs-Anjra e da região de Tânger-Tetuão. Em 2004 tinha 10 995 habitantes.[1]

Situa-se na costa acidentada do estreito de Gibraltar, entre Tânger (30 km a sudoeste por estrada) e Ceuta (30 km a leste por estrada), na região histórica de Jebala, na margem direita da foz do rio Ceguer.

Os espanhóis chamavam-na Alcazarseguir ou, mais arcaicamente, Castillejo. O seu nome "pequeno alcácer" contrasta com o de Alcácer-Quibir (Ksar El Kebir; "grande alcácer"), situada 130 km a sul (por estrada), no interior. O nome antigo, conforme reportado pelo historiador do século XIII Abdelwahid al-Marrakushi, era Ksar Masmuda (Castelo dos Masmudas).

A vila antiga tem forma circular, o que é pouco usual no urbanismo medieval em Marrocos. Era construída em tijolo e silhar e cercada por uma muralha que é flanqueada por torres de alvenaria semicirculares. A muralha tem três portas monumentais, cada uma delas flanqueada por torres quadradas. A Bab al-Bahr (Porta do mar) tem a entrada em cotovelo para reforçar a defesa. As portas eram usada tanto para comunicações como para cobrar taxas.

História

Localizada no estreito de Gibraltar, entre Tânger e Ceuta, esta povoação foi dominada por vários povos. Os fenícios já usam a zona nas sua rotas comerciais mas os romanos foram os primeiros a ocupar a localidade desde o primeiro século e durante o Império Romano, como evidenciado pelos restos de uma fábrica de salga. Para os romanos era conhecida como Lissa ou Exilissa. Durante o Império Bizantino o lugar era conhecido como Exilyssa, sendo uma das localidades mais extremas deste império. A localidade foi conquistada pelos árabes por volta de 708 durante a ocupação muçulmana do Magrebe.

Dificilmente acessível por mar, era dominada pela elevação de Seinal. Durante o Califado Almóada, foi um importante porto de embarque de tropas para a Península Ibérica. Entretanto, no século XV (no fim do Império Merínida) convertera-se num reduto de corsários.

Projeto de couraça (muralha que protegia o acesso à água) para a praça-forte de Alcácer-Céguer (Diogo Boitaca (?), 1502).

Como parte da política de expansão ultramarina portuguesa, foi assaltada e conquistada por uma frota de com 220 embarcações, transportando um exército de 25 mil homens sob o comando de D. Afonso V, "O Africano", após dois dias de combate (23 e 24 de Outubro de 1458).

Na empresa participaram ainda o infante D. Henrique (no comando da Armada do Algarve), o infante D. Fernando, o marquês de Valença (no comando da Armada do Porto) e o marquês de Vila Viçosa. Os ventos desviaram a nau do rei para as águas de Tânger cuja conquista foi cogitada pelo soberano, mas graças à influência do infante D. Henrique, que havia participado no desastre de Tânger em 1437, manteve-se a decisão de atacar Alcácer-Ceguer. A conquista foi possível devido à superioridade da artilharia portuguesa, e à estratégia do rei de Fez, Abdal Haque – que em 1437 havia capturado o Infante Santo -, informado da presença da frota portuguesa nas àguas de Tanger, enquanto preparava um ataque a Tremecém, decidiu deslocar as suas forças para defesa de Tanger.

De imediato foram iniciados trabalhos de recuperação e reforço das defesas. A mesquita da cidade foi transformada em igreja sob a invocação de Santa Maria da Misericórdia, outorgada à Ordem de Cristo por iniciativa do infante D. Henrique.

A retaliação islâmica não se fez esperar. D. Afonso V ainda se encontrava em Ceuta, quando foi informado de que as forças de Abd al-Hakk se preparavam para retomar Alcácer-Ceguer. Afonso V de imediato decidiu acorrer em defesa da praça ameaçada, sendo dissuadido por seus conselheiros. Deliberou-se então desafiar o rei de Fez para uma batalha campal, à maneira da Idade Média, tendo os emissários portugueses sido recebidos a tiros e forçados a retroceder.

A esquadra portuguesa aportou ao largo de Alcácer-Ceguer mas os seus esforços foram em vão, uma vez que os sitiantes não se amedrontaram, não tendo sido possível fazer chegar qualquer tipo de ajuda aos sitiados. Estes, sob o comando de D.Duarte de Menezes - filho do primeiro capitão de Ceuta, D. Pedro de Meneses -, resistiram por 53 dias, infligindo tantas perdas ao inimigo, que este acabou por retirar, a 2 de Janeiro de 1459.

Seis meses mais tarde, a 2 de Julho de 1459, Abd al-Hakk voltou a cercar a cidade. Durante este cerco, D. Duarte de Meneses mandou vir do reino a esposa e os filhos que, com alguma dificuldade, conseguiram furar o cerco e ingressar na praça. Esta atitude do capitão deu novo ânimo à guarnição sitiada que não cedeu as defesas, vindo o assédio a ser levantado em 24 de Agosto de 1459. Como recompensa pelas defesas de Alcácer-Seguer, o soberano elevou D. Duarte de Meneses a conde de Viana (Abril de 1460).

A população da praça chegou a atingir as 800 pessoas, mas estava totalmente dependente do Reino para a sua manutenção. A presença Portuguesa em Arzila e em Tânger, ocupadas em 1471, diminuiu a sua importância estratégica.

Para reforço da sua defesa D. Manuel I (1495-1521), em Junho de 1502, passou ao Mestre de Pedraria Pêro Vaz, seis "in-fólios" com Instruções acerca das obras de Alcácer-Ceguer. Estas descrevem minuciosamente como levantar a couraça (muralha que protegia o acesso à água), e ilustram-na com um dos raros desenhos remanescentes da praça, da autoria do Arquiteto régio responsável pela obra, possivelmente o próprio Diogo Boitaca, que, após um novo projeto em 1509, vistoriou-a pessoalmente em 1514. Neste projeto também foi prevista a construção de um novo baluarte, com dois níveis de canhoneiras, erguido por Francisco Danzilho.

A partir de 1533, D. João III cogitou em abandoná-la, como Azamor e Safim. A evacuação tinha a oposição da Santa Sé.