A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias

A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (popularmente conhecida como A Igreja Mórmon[1]) é uma igreja de fundamentação cristã com características restauracionistas, e a maior denominação originária do Movimento dos Santos dos Últimos Dias.[2] O nome oficial da igreja se refere a Jesus Cristo como seu líder e à conversão dos fiéis, ou santos, à igreja, na última dispensação — de onde surge a referência aos "últimos dias".[3]. O termo "santos" é a mesma denominação usada na época de Jesus Cristo no Novo Testamento.[4][5] A Igreja está sediada em Salt Lake City, nos Estados Unidos e estabeleceu congregações em todo o mundo.[6] Em 2015, a Igreja relatou um pouco mais de 15,6 milhões de adeptos em todo o mundo,[7] um crescimento de 27,4% comparado ao ano de 2006, onde eram 12,5 milhões de adeptos mundialmente, enquanto em 1990 registravam-se 7,7 milhões.[8] Atualmente, se converte numa das maiores denominações religiosas cristãs no mundo, fazendo-se presente em cerca de 206 países e territórios dependentes.[9] No Brasil, de acordo com estimativas dos registros da instituição religiosa, esta possui pouco mais de 1,2 milhão de adeptos, caracterizando-se no terceiro país em número de fiéis no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos e México.[10][11]

Os adeptos, habitualmente referidos como Santos dos Últimos Dias ou mórmons, são cristãos restauracionistas e conservadores, e não se encaixam em nenhuma vertente do cristianismo atual.[3][12] À semelhança de outras organizações restauracionistas, A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias adota o relato de que, após os eventos descritos no Novo Testamento, houve uma grande apostasia da verdadeira fé cristã e do sacerdócio, com esta verdadeira fé e sacerdócio tendo sido restaurados por Joseph Smith Jr., através da profecia e da visitação de Deus, O Pai Celestial, e Seu Filho Jesus Cristo, no início de 1820.[13][14] Também é relatada a posterior visita de anjos e profetas bíblicos como sendo mensageiros celestiais. Assim, a Igreja afirma ser a única organização na Terra com autoridade para realizar ordenanças válidas (como o batismo e o sacramento),[14] além de outras ordenanças já praticadas antigamente, que foram reveladas novamente por Deus por intermédio de Joseph Smith Jr., como o casamento eterno e o batismo vicário.[15][16]

Sob uma doutrina de contínua revelação, os Santos dos Últimos Dias acreditam que Jesus Cristo, sob a direção de Deus, o Pai, leva à igreja revelações sobre a sua vontade, dadas ao seu presidente, a quem os adeptos consideram como um moderno "Profeta, vidente e revelador". O presidente atual é Russell M. Nelson. Os membros individuais acreditam que eles também podem receber revelação pessoal de Deus na condução de suas vidas. O presidente lidera uma estrutura hierárquica com vários níveis, descendo até as congregações locais. Bispos são considerados os líderes de congregações locais. Os membros masculinos, depois de terem atingido os 12 anos de idade, podem ser ordenados para o sacerdócio, desde que eles estejam vivendo os padrões da igreja. As mulheres não ocupam posições dentro do sacerdócio, mas ocupam cargos de liderança na igreja em organizações auxiliares.

Tanto homens como mulheres podem servir como missionários, e a Igreja mantém um grande programa missionário de proselitismo religioso, além de realizar serviços humanitários em todo o mundo. Os membros fiéis devem aderir à leis sobre a pureza sexual, saúde, jejum e a observância do dia sagrado (para a igreja, o domingo). Além disso, a Igreja realiza ordenanças sagradas por meio do qual os aderentes fazem convênios com Deus, incluindo o batismo, a confirmação, o sacramento (comunhão santamente), investidura e casamento celestial (bênçãos matrimoniais que se estendem para além da mortalidade), todos dos quais são de grande importância para membros da Igreja.

História

A Primeira Visão - Deus o Pai e Jesus Cristo aparecem ao menino Joseph Smith Jr. na primavera de 1820.

O seu próprio relato, Joseph Smith Jr., aos quatorze anos de idade, após querer saber a qual igreja de sua época se filiar[17], retirou-se para ler a Bíblia em seu quarto quando leu, em Tiago 1:5: "E, se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente, e o não lança em rosto, e ser-lhe-á dada"[17]. Refletindo sobre o que lera, Joseph retirou-se em oração e afirmou ter recebido uma visão na manhã de primavera de 1820, num bosque próximo à sua casa[17], na qual Deus e Jesus Cristo lhe ordenaram que não se filiasse a nenhuma das igrejas existentes[18], mas que restaurasse a verdadeira Igreja de Cristo. Este acontecimento é conhecido como a Primeira Visão.[18] A tradição da Igreja diz que Joseph Smith recebeu do anjo Morôni a informação sobre o local onde estavam enterradas uma coleção de placas de ouro gravadas,[19] que continham um registro da comunicação de Deus com os antigos habitantes das Américas e que também continha a plenitude do evangelho eterno.[20] Mais tarde este registro nas placas seria traduzido por Joseph Smith Jr. alegadamente pelo dom e poder de Deus,[20] dando origem ao Livro de Mórmon, mais um livro testificando do evangelho de Jesus Cristo.[21] O termo mórmon, geralmente usado para referir-se aos Santos dos Últimos Dias, deriva do nome do profeta Mórmon, que teria sido um dos autores e compiladores das escrituras que formaram o Livro.[22]

É dito ainda que, em 22 de setembro de 1827, o anjo Morôni, na Colina Cumorah (localizada no Condado de Ontário, no estado de Nova Iorque, nos Estados Unidos) entregou a Joseph Smith Jr. as placas de ouro a fim de que Joseph as traduzisse.[19] Joseph e Oliver Cowdery concluíram a alegada tradução em 1830 e o Livro de Mórmon foi publicado no dia 26 de março deste mesmo ano.[21]

O anjo Morôni, na Colina Cumorah, em Nova York, entrega a Joseph Smith Jr. as placas de ouro em 1827.

Ainda em 1830, em 6 de abril, na cidade de Fayette, no estado de Nova Iorque, foi instituída a Igreja,[19] que rapidamente cresceu, gerando contra si fortes perseguições que culminaram no assassinato de Joseph Smith Jr. e seu irmão Hyrum Smith em 1844, no cárcere de Carthage, em Nauvoo.[17] A perseguição não obteve sucesso, pois a nova religião continuou a se expandir, apesar da morte do primeiro Profeta. Nos dias atuais, impulsionada pela obra de missionários, que são jovens solteiros entre 18 a 26 anos (para os homens) e a partir de 19 anos (para mulheres),[23] a igreja realiza proselitismo pelo mundo.[23]

A organização da igreja a partir de então até hoje, consiste em 1 Profeta e dois conselheiros, compondo a Primeira Presidência[24], e Doze Apóstolos. Seguidos então por uma grande variedade de líderes locais, todos servindo voluntariamente. Lembrando que a igreja ensina que o cabeça da organização é Jesus Cristo. (Efésios 2:20)

Joseph Smith Jr., alegando ter recebido revelação divina de que a igreja deveria construir templos, ordenou que fosse construído um templo em Kirtland, no estado de Ohio. Assim sendo, em 27 de março de 1836, foi dedicado o Templo de Kirtland, o primeiro templo mórmon.[25] Entretanto, o templo foi abandonado algum tempo depois, devido à perseguição imposta aos Santos dos Últimos Dias, que abandonaram a cidade. Com a evacuação de Kirtland, os Santos se abrigaram em povoados no estado vizinho do Illinois. Isso culminou, em 16 de dezembro de 1840, na criação da cidade de Nauvoo, fundada pelos Santos. Com a contínua perseguição, Nauvoo também foi abandonada pelos mórmons, em 1846, dois anos depois da morte de Joseph Smith Jr.. Expulsos de Missouri e Illinois, muitos refugiados mórmons, liderados por Brigham Young, colocaram todos os seus pertences em carroções e migraram para o oeste do país.[26] Esses migrantes ficaram conhecidos como Pioneiros mórmons.[26] A mãe de Joseph Smith Jr., Lucy Mack Smith, foi uma das que abandonaram Nauvoo e seguiram rumo ao oeste, juntamente com os pioneiros. Todavia, Emma Smith, viúva de Joseph Smith Jr. e então presidente da Sociedade de Socorro, recusou-se a migrar para o oeste e permaneceu em Kirtland, onde morreu em 1879.[27]

A Igreja encontrou paz e espalhou-se fortemente na região oeste dos Estados Unidos, e rapidamente foi crescendo pelo mundo. A cidade fundada pelos membros da igreja, Salt Lake City, é vista hoje como uma das melhores cidades do mundo para se viver.[28]

Era pioneira

Ver artigo principal: Pioneiros mórmons
Brigham Young, segundo profeta da Igreja, liderou os pioneiros mórmons de 1844 até sua morte, em 1877. Foi também o primeiro governador de Utah.
Pioneiros mórmons atravessando o rio Mississipi (1846).

Em 1846, após as dificuldades enfrentadas no Missouri (culminando em uma ordem de extermínio decretada contra os mórmons[29]) e com a perseguição contínua em Illinois,[30] Brigham Young conduziu seus seguidores, os pioneiros mórmons, na maior migração forçada da História dos Estados Unidos.[31] Os pioneiros mórmons migraram para o oeste do país e estabeleceram-se na região do Vale do Lago Salgado. No dia 24 de julho de 1847, após chegarem ao Vale de Salt Lake, Brigham Young afirmou que "aquele seria o lugar para o descanso dos mórmons".[32] Assim, em 1850, os mórmons que se instalaram no local criaram o Território de Utah[32] em busca de liberdade religiosa.

O grupo ramificou-se e colonizou uma grande região hoje conhecida como "Corredor dos Mórmons".[32] Ainda jovem, Brigham Young integrou-se à Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, e passou a dedicar-se a ela.[33] Após a morte de Joseph Smith Jr., inicialmente, regeu tanto a Igreja como o Estado, tornando-se um líder teocrático.[33] Ele também propôs a prática do casamento plural, uma forma de poligamia, devido a existência de diversas mães e crianças abandonadas na comunidade decorrente da grande quantidade de homens que lutaram na Guerra Civil Americana.[33] Afirmou ter recebido esta lei como mandamento de Deus da mesma forma que os antigos profetas do Antigo Testamento,[33] mas esta prática, posteriormente, foi descontinuada devido a uma suposta nova revelação a Wilford Woodruff em 1890 em que Deus pediria para que a prática fosse cessada. Isto porque o número de viúvas já não era o mesmo e as famílias já haviam encontrado um lar e abrigo seguros e também porque o governo dos Estados Unidos promoveu ações contra os polígamos.[34][34]

Por volta de 1857, houve novamente uma escalada das tensões entre os mórmons e outros americanos, em grande parte como resultado das denúncias envolvendo a poligamia e da condição de Estado teocrático do território de Utah por Brigham Young,[34] que fora indicado governador do Território pelo governo federal.[33] A chamada Guerra Mórmon seguiu de 1857 a 1858,[35] e resultou, relativamente pacífica, na invasão de Utah pelo Exército dos Estados Unidos.[35] Após o fato, os mórmons da região aceitaram a renúncia de Brigham Young[33] e passaram a ser liderados por um governador não-mórmon, Alfred Cumming.[36] No entanto, a Igreja ainda exercia o poder político significativo no Território de Utah, por serem mais da metade da população da região.[37]

Com a morte de Brigham Young, em 1877, na Casa de Leão,[33] Utah passou a ser governado por outros presidentes mórmons, sendo que alguns membros resistiram aos esforços do Congresso dos Estados Unidos em proibir os casamentos polígamos no estado de Utah e foram excomungados da igreja.[38] O conflito entre os ex-mórmons e o governo americano agravou-se a tal ponto que, em 1890, o Congresso propunha a desintegração da Igreja e apreendeu todos os seus bens.[39] Logo depois, o presidente da Igreja, Wilford Woodruff, publicou um Manifesto que suspendeu oficialmente a prática da poligamia por todos os membros da Igreja em todo os Estados Unidos e outros países com presença oficial da Igreja até o momento.[40] O Manifesto melhorou as relações da Igreja com os Estados Unidos e aumentou de forma acentuada a convivência pacífica entre ambos após 1890, tal que Utah foi admitido como um Estado Americano em 1896.[39] As relações melhoraram ainda mais após 1904, quando o presidente da Igreja, Joseph F. Smith, desmentiu a poligamia perante o Congresso dos Estados Unidos e emitiu um "Segundo Manifesto" contra a continuação da poligamia entre os mórmons do país.[41] Eventualmente, a Igreja adotou uma política de excomungar os membros encontrados praticando a poligamia e, hoje, procura ativamente distanciar-se de grupos auto-denominados "fundamentalistas", que continuam a praticar a poligamia.[39]

Templos atuais

O Templo de Salt Lake, que levou 40 anos para ser construído (1853-1893), é hoje uma das imagens mais icônicas da Igreja.[42]
O Templo de Berna, Suíça, completado em 1955, é o primeiro templo construído na Europa.

Vários acontecimentos históricos ocorreram em A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias durante o Século XX.

Na primeira metade do século, a igreja expandiu-se para diversos países e territórios, principalmente para a América do Sul, onde criou missões e enviou missionários para países como Chile, Argentina, Peru, Brasil e Equador. A igreja expandiu-se ainda para países da Europa Ocidental, tendo como destaques a Suíça, onde localiza-se o Templo de Berna - primeiro templo mórmon construído no continente[43] - e o Reino Unido, que possui a maior comunidade mórmon da Europa.[44]

Atualmente, a igreja mantém 144 templos em funcionamento no mundo, espalhados por todos os continentes. Há outros 12 em construção e mais 14 já anunciados. No Brasil, são seis templos em operação: São Paulo, Recife, Porto Alegre, Campinas, Curitiba e Manaus. Um novo templo está sendo construído em Fortaleza e outro foi anunciado para a cidade do Rio de Janeiro e em Belém, no Pará[45].